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Didática-artista da tradução: transcriações do currículo

Sandra Mara Corazza

Como, na área da Educação, pensar em termos dos processos de criação de cada um de seus domínios? Como definir cada domínio por sua respectiva atividade criadora? Nesse enfoque criacionista, o que a Pedagogia, o Currículo e a Didática criam? No caso deste texto: em que consistem os meandros e limites de criação da Didática? O que é criar didáticas? Como se dão as ações de ver, falar, escrever, interpretar e traduzir de maneira didática? Para criar em Didática, em que medida necessitamos de outros processos, como os literários, cinematográficos, musicais, plásticos, científicos, filosóficos? Quais as diferenças entre esses processos e os didáticos? Como desenvolver didáticas, a partir de um objeto, tema musical, fórmula matemática, passo de dança, fato policial, ritmo, melodia, pintura, filme, ensaio, romance?

Tomando tais questões como desafios, este texto localiza a Didática como resultante dos atos de criação pedagógica; e, ao mesmo tempo, como o meio em que a própria Pedagogia funciona, ao atualizar-se em Currículo. Pensa a Didática como inseparável de variadas traduções e definições comunicáveis; embora provisórias e sujeitas a contínuas reformulações.

Concebe, ainda, esse território didático indissociável de uma ética, de uma política e de uma prática tradutórias, que realiza artistagens (Corazza, 2006), desde os seguintes apoios teóricos: a) filosofia da diferença, atinente à criação e ao pensar (Deleuze, 2003; Deleuze; Guattari, 1992); b) teorias da tradução literária no Brasil, que a tratam como processo criador, ao lado de Haroldo de Campos (1976) e Augusto de Campos (1978); c) obra de Paul Valéry (1998), relativa a exercícios do informe e método de criação; d) formulações didáticas contemporâneas, especialmente de Selma Pimenta (2011), dentre outras.

É em transcursos e circuitos de tradução, que a Didática-Artista movimenta os seus processos de pesquisa, criação e inovação. Acolhe e honra os elementos científicos, filosóficos e artísticos – extraídos de obras já realizadas, que diversos autores criaram, em outros planos, tempos, espaços -, como as suas efetivas condições de possibilidade, necessárias para a própria execução; e, ao mesmo tempo, como o privilegiado campo de experimentação, necessário para as próprias criações. Com esses elementos, constitui um campo artistador de variações múltiplas e disjunções inclusivas; que compõe linhas de vida e devires reais, pontos de vista ativos e desterritoiializações afirmativas.

Nessas zonas de indiscemibilidade e indeterminação,a DidáticArtista segue devires, ao produzir formas deformadas, figuras desfiguradas, paradoxos e não-sensos. Ao traduzi-los didaticamente, em cenários contemporâneos, torna notáveis ideias já criadas e vivifica currículos; libera forças indomesticadas dos participantes,onde quer que estejam represadas; desestratifica camadas sedimentadas de saber, poder e subjetividade, trabalhando para que reencontrem a sua virtualidade.

A tradução didática é, assim, “transcriação e transculturação”; já que textos e séries culturais “se transtextualizam no imbricar-se subitâneo de tempos e espaços” diversos: “Transcodagem. Tropismo. Tradução” (Campos, 1976, p. 10-11).

Em Didática, uma tradução será honestamente exitosa, se assumir a função de um verdadeiro elemento científico, filosófico ou artístico; não apenas como uma tradução, que queda em lugar desses elementos. Assim, em vez de mera representante ou substituta dos perceptos, afectos, conceitos e funções, a tradução será eficaz se, após minuciosamente trabalhada, tomar-se autônoma como uma obra de Arte, de Filosofia ou de Ciência. Isso acontecerá, se guardar, com os elementos de partida, relações de reimaginação, para além do literalismo rudimentar e da banalidade explicativa. Então, as traduções do Professor-Artista poderão, por vezes, tomar-se mais importantes do que os originais; desde que a língua didática mostre-se digna de repercutir os seus impactos, enquanto estratégia de renovação dos sistemas educacionais e culturais contemporâneos.

Referências

CAMPOS, Augusto de. Verso, reverso, controverso. São Paulo: Perspectiva, 1978.

CAMPOS, Haroldo de. A operação do texto. São Paulo: Perspectiva, 1976.

DELEUZE . Qu’est-ce que 1’acte de création? In: Deter régimes defous. Textes et entrétiens 1975-1995. Paris: MinuiL 2003, p. 291-302.

DELEUZE; GUATTARI. O que é a filosofia? (Trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Munoz.) Rio 220 de Janeiro: Ed.34,1992.

PIMENTA, Selma Garrido. (Org.). Didática e formação de professores: percursos e perspectivas no Brasil e em Portugal. São Paulo: Cortez, 1997.

VALÉRY, Paul. Introdução ao método de Leonardo da Vinci. (Trad. Geraldo Gérson de Souza.) São Paulo: Ed. 34,1998.

Extrato do capítulo intitulado “Didática-artista da tradução: transcriações do currículo”, do livro “O que se transcria em Educação?” de Sandra Mara Corazza. Porto Alegre: UFRGS, 2013.

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