Mulheres da UFMT conquistam espaço na comunidade acadêmica e na sociedade
 UFMT - Mulheres da UFMT conquistam espaço na comunidade acadêmica e na sociedade

Mulheres da UFMT conquistam espaço na comunidade acadêmica e na sociedade

Publicado em Notícias | 20/03/2017

Durante todo o mês de março, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), está apresentando uma série de matérias especiais que destacam o protagonismo das mulheres no âmbito da instituição. Coragem e determinação nunca faltaram a elas. No entanto, engana-se quem imagina que, apesar das conquistas, essa tenha sido tarefa fácil. Não foi, e mais: ainda há um longo caminho para que o gênero não seja um índice para qualificar um profissional, seja ele servidor técnico-administrativo ou docente, mas tão somente uma singularidade.
“Hoje a sociedade evoluiu e as mulheres estão em todos os espaços sociais, mas as discriminações, desigualdades de gênero ainda existem”, resume a professora Madalena Rodrigues dos Santos Vieira, docente do curso de Serviço Social da UFMT e integrante do Núcleo de Estudo Sobre a Mulher e as Relações de Gênero (Nuepom). Contudo, de uma perspectiva histórica, ela considera que a constituição da UFMT possuiu um viés masculino. “Ciência e educação superior ainda são vistas como coisa de homem, mas hoje nós sabemos que a grande maioria dos docentes são professoras, e as salas de aula possuem mais alunas que alunos”, explica.
A professora Vera Lúcia Bertoline, docente do curso de Serviço Social e também integrante do Nuepom, a UFMT se firmou sob um pilar patriarcal, produto da própria estrutura da sociedade. “Nós tivemos ao longo da história e da administração superior uma participação de mulheres muito tímida. Essa face de uma gestora para Universidade se inaugurou com a eleição da professora Luzia Guimarães [1992-1996]. No entanto, as relações de gênero se reverteram apenas na gestão do professor Paulo Speller [2000-2008], quando a maioria das Pró-Reitorias foram ocupadas por mulheres, fato que se manteve na gestão da professora Maria Lúcia Cavalli Neder [2008-2016] e na atual, da professora Myrian Serra”, explica.
A professora Vera Bertoline, que iniciou sua graduação na UFMT em 1975 e tornou-se docente da Universidade em 1984, ressalta que as pesquisas indicam que as mulheres têm maior formação acadêmica no âmbito da pós-graduação. “Os movimentos de mulheres e feministas deram visibilidade ao potencial da mulher como gestora e isso foi disseminado, mostrando que há um protagonismo, tanto no âmbito acadêmico, fora daquele foco que servíamos para ser coordenadora de curso, quase como um extensão do nosso cuidado com a família. Hoje temos um grande número de mulheres coordenando chefia de departamento e cursos de pós-graduação”, acrescenta ao apontar que hoje o caminho da UFMT é o de assegurar o lugar das mulheres com um protagonismo diferente do que se assemelha ao cuidado e ao da subalternidade.

Ponto de virada
A docente aponta que os estudos que permitiram um novo olhar sobre o papel da mulher na sociedade e sua participação no desenvolvimento das relações humanas e sociais aconteceu na década de 1980, a partir da criação dos núcleos de estudos nas universidades. Na UFMT, houve a criação do então grupo de Organizações e Estudos da Mulher. “Sinto muito orgulho de ter participado com outras professoras que anteciparam a discussão sobre a desigualdade da mulher na universidade, como Vera Lúcia Pinheiro, Enir Moreira e Madalena Rodrigues dos Santos Vieira”, aponta. “Houve muita produção sobre o lugar da mulher na sociedade, da quase naturalização que nascemos para o espaço privado e que, portanto, a política e a gestão pública não nos cabia. Essa nova história revelada vai mostrar mulheres que protagonizaram a história desde o período da sociedade primitiva. Assumir e se envolver nessa discussão e mostrar que a Universidade refletia na sua estrutura esse tipo de formatação, do meu ponto de vista, influenciou as mulheres a dizer que nós podemos. Esse foi o caso da professora Luzia”, analisa.
Do ponto de vista da professora Vera Bertoline, a lente utilizada para se ler as relações sociais são as mesmas tanto para homens quanto para mulheres. “Ela reflete o patriarcado, portanto machista, calcada no sistema capitalista, gerando desigualdade entre classe sociais, e que faz com que a gente olhe a sociedade como sendo uma clean. As mulheres reproduzem isso”, defende. Para ela, o papel da universidade é antecipar esses questionamentos, exercendo um papel de porta-voz “Nós deveríamos influenciar a sociedade e não ser influenciados por ela”, defende, acrescentando que a mulher da UFMT, seja ela estudante, técnico-administrativa ou docente, não é necessariamente uma denominação no singular. “Somos uma diversidade com demandas extremamente pontuais”, define.
Mesma opinião da professora Madalena Rodrigues, que é formada pela Universidade e docente desde 1979. “A UFMT tem mulheres, não uma mulher, porque ela se difere por idade, por orientação sexual, por raça e etnia, por classes sociais. Se olharmos todo o pessoal que trabalha na UFMT, eles se diferem por trabalhos. Não há uma unicidade, assim como isso não existe com as mulheres. Existem as mulheres e o que temos de comum é o gênero que nos une. Por isso muitas vezes a luta fica mais difícil”, argumenta.

Mudando realidades
No âmbito da Universidade, a professora Vera Bertoline observa que as discussões sobre as desigualdades sociais deveriam ser transversais, abrangendo todas as áreas de conhecimento. “Nós não conseguimos fazer isso. É como se o tema fosse prerrogativa de um curso, como se a questão de gênero estivesse apenas relacionada ao curso de Serviço Social, pois ali está o Nuepom. Ou a discussão sobre os negros estivesse ligada apenas ao Núcleo de Estudos de Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre). A instituição tem que incorporar essas conversas. É um desafio e é uma exigência dos novos tempos”, ressalta.
Já para a professora Madalena Rodrigues, a presença da universidade na mudança dessa realidade é com uma forte presença nas escolas, preparando os profissionais de licenciatura para trabalhar conteúdos que abordem as singularidades, como a de gênero, e a diversidade sexual. “Essas questões deveriam estar nos primeiros bancos escolares para formarmos cidadãos diferentes”, reforça, acrescentando que o mesmo conteúdo deveria ser oferecido nos bacharelados. Como solução, ela sugere que seja criada uma disciplina de Educação dos Direitos Humanos, que aborde a questão de gênero, raça, etnia, deficiência, criança e adolescente, meio ambiente e classes sociais. “As mulheres estão conquistando seu espaço, dividindo e não tomando-o dos homens. A participação é que tem que ser compartilhada. Nós temos que estar no coletivo trabalhando”, expõe.
Ideia essa que é compartilhada pela docente Vera Bertoline. “Estamos falando de uma sociedade que a duras penas tem conquistado direitos e ampliado o foco das discussões, mas isso ainda insiste. Abordar as questões de gênero deve ter um lugar no processo formativo, não em uma disciplina isolada, mas em sua incorporação pelo nosso quadro docente como uma demanda para a evolução da nossa sociedade e de nossos futuros profissionais como uma demanda ética”, analisa. “Para mudar a situação, devemos trazer essas contradições que atravessam o cotidiano da formação. Não é pequeno o número de alunos e alunas e o tempo que eles ficam aqui na universidade. Esses profissionais têm que se identificar como sujeito coletivo. Isso é uma discussão que deve transversalizar todos os currículos de todos os cursos”, finaliza.
Acompanhe o tema pela hashtag #MulheresnaUFMT.
 

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