|
O PARADOXO DA EDUCAÇÃO ATUAL E A NECESSÁRIA VIRADA COPERNICANA PARA A EDUCAÇÃO ABERTA Peter Büttner* |
|
A lamúria sobre o fracasso da educação já é antiga e há de continuar eternamente, se não chegarmos a reconhecer a causa verdadeira, primária e essencial deste fracasso. Consideramos muitas vezes a educação diante dos paradoxos sociais, mas esquecemo-nos de que ela mesma constitui paradoxo. Aqui vamos refletir somente sobre dois aspectos de sua paradoxalidade, com a finalidade maior de compreender o que seja, de verdade, educação aberta e quais as iniciativas necessárias para a virada copernicana na educação. Para tanto, orientemo-nos pelo seguinte esquema: 1- A educação como paradoxo etimológico. 1.1. Por que educar e não inducar ? 1.2. Educação aberta, no significado da palavra e da necessidade humana. 2- A educação como paradoxo social e sua inversão . 2.1. A educação para o pensar, eficaz em desenvolver, nas crianças e jovens, as habilidades cognitivo-criativas, o espírito de investigação crítica, para assim, promovê-los à capacidade de análise crítica de sua situação, bem como para soluções inteligentes, criativas e éticas dessa. 2.2. A educação para o pensar, eficaz em estimular e desenvolver, nos educandos, as habilidades para a vivência ética e ecológica. 2.3. A educação para o pensar, eficaz em instigar, instalar e promover o diálogo ordenado, crítico, criativo e construtivo em comunidade de investigação que pode proporcionar a convivência dialógica e democrática numa sociedade construída à semelhança da interdependência e interação dos ecociclos. 3- A virada copernicana rumo à educação aberta. Ad 1- A educação tornou-se, com raras exceções, um paradoxo etimológico, sendo que sua prática se constituiu em inducação - que não abre o potencial do aluno-, visão e método contrários àquilo que está no significado original da palavra educação - que abre. Para bem entender esta afirmação, temos de considerar o seguinte: 1.1. Um dia, há milhares de anos , uma espécie de animal, já com aparência de homem, desobedeceu aos programas de instintos do seu diencéfalo. Este, em todas as espécies, só tem respostas prontas, inalteráveis, repetitivas e seguras para cada provocação da vida. A fome, a ameaça inimiga e a reprodução, por exemplo, são atendidas sempre pela mesma ação mecânica, automática e estereotipada, mas segura e eficiente. Um dia, então, um animal deu um "fora", agiu diferente, não mais atendeu aos imperativos inalteráveis do seu diencéfalo. Isso foi um ato rebelde na dimensão da natureza existente até essa hora. Representou, contudo, um ato inovador e pioneiro na nova dimensão que, com este, foi alcançada: a dimensão humana da natureza - o ser humano. Este, então, "à semelhança de Deus", tornou-se pensador e criador com autonomia, sabendo distinguir o bem do mal, o verdadeiro do falso, sabendo dar nomes adequados aos animais e às coisas. Bem mais. Sendo curioso, podendo espantar-se e admirar-se diante de sua realidade circundante, tornou-se capaz de questionar, desvendar o misterioso e o desconhecido. Consegue inventar, a ponto de pensar até o impossível, sabe comunicar-se e dialogar, tem habilidades que os outros animais não possuem. Este ser humano deixou de ser automático para se tornar autônomo. Com isso, perdeu a segurança dos programas instintivos, foi expulso do paraíso do diencéfalo e condenado a pensar por si mesmo, em busca da nova segurança que, de agora em diante, somente as boas razões, construídas por ele mesmo no seu telencéfalo, podem garantir. A vida e a sociedade deste ser não são automáticas - ao contrário da colmeia de abelhas e da colônia de formigas - e, portanto, devem ser organizadas e vivenciadas eficazmente, com liberdade e responsabilidade, por meio do pensar superior e eficiente. Qualquer outro caminho é fatal. Diante desta fatalidade, parece absurdo que as crianças nasçam precoces, em relação a outros animais, sem saber nada e sem instintos suficientes para a sobrevivência. Além de serem condenadas a pensar por si mesmas, são obrigadas a aprender o pensar eficiente. Aliás, tudo têm de aprender: ouvir com atenção, falar, cantar, andar, alimentar-se, fazer sua higiene, conviver dialogando e assim por diante. À luz dessa necessidade, estou plenamente de acordo com Konrad Lorenz, no afirmar que o homem, antes de tudo, é um ser aprendiz, é homo discens - educabilis et educandus - muito mais do que animal racional, do que homo sapiens. 1.2. A criança humana, contudo, nasce com um enorme potencial de habilidades. O desenvolvimento deste, porém, também não é automático. Todo potencial de pensar, sentir, querer, criar e fazer, sem ser instigado adequadamente, pouco se desenvolve e não se capacita para a sobrevivência, para uma vivência humana condigna, para uma convivência equilibrada e feliz. Aqui entra a educação com a sua tarefa. A palavra educação vem do verbo latino educere, que quer dizer puxar para fora, deixar sair, conduzir para o alto. Daí se formaram as palavras educare e educatio, com suas derivações em português. Abrir o caminho, puxar para fora, deixar sair, conduzir para o alto o potencial inato do ser humano, instigar e propiciar o desenvolvimento das habilidades em germe, eis o significado original e profundo da EDUCAÇÃO. Esta, já em sua concepção antiga e original, bem como em sua identificação nominal, é essencialmente aberta. Este significado corresponde às necessidades da natureza humana, de acordo com as mais atualizadas pesquisas sobre o cérebro humano. Diante do ducere, o e(x) justamente está a significar, em Latim, de dentro para fora. O potencial, dentro do homem, deve ser aberto, libertado para fora, capacitado para funcionar como "ferramentas afiadas". O prioritário e o essencial da educação consiste, portanto, no desenvolvimento destas habilidades do pensar, investigar, criar, dialogar - por incrível que pareça - e do sentir, perceber, querer e fazer. Somente com esta educação, a criança se torna verdadeiramente aberta e capaz de induzir, num processo autônomo, crítico e adequado à sua natureza, o patrimônio cultural da humanidade, do qual os educadores devem extrair - com os melhores critérios - aquilo que os alunos de fato precisam saber e da situação circunstancial têm de tirar as razões pelas quais precisam sabê-lo. Estes conhecimentos, acumulados por muitos séculos, são importantes e, muitos deles, indispensáveis, mas a sua inducação, sua indução e instrução de fora para dentro, para quase nada servem ao ser humano. Não o preservam da barbárie, não o capacitam como cidadão. Não contribuem eficientemente à sua felicidade. O homem é um ser telencefálico. Quem não compreendeu que para este ser a aprendizagem e a educação fazem necessariamente parte de sua natureza, de sua vida, sendo que somente por meio delas se torna verdadeiramente humano, não entende nem o ser humano, nem pode entender o que seja educação propriamente dita, aquela que propicia e estimula a abertura para a realidade e capacita para a vida, considerando o ser humano como projeto sempre aberto e livre, e "afia suas ferramentas" para a realização plena e feliz deste projeto. O que, de uma maneira geral, se pratica hoje como educação, quase nada mais é do que aquilo que deveríamos chamar de inducação: a indução e instrução de conteúdos nos alunos, e esta sem escolha adequada às necessidades, sem critérios de prioridade, sem métodos, ambientes e situações propícios. Educar ou inducar? Nisso está a razão fundamental da educação aberta. Mas, sobretudo, é uma questão de sobrevivência da humanidade. Eis a questão fatal a ser resolvida! A educação tem de ser aberta como a vida, como o projeto de vida de cada um. Nessa linha, tem de ser uma educação para o pensar autônomo e criativo. No apresentar o paradoxo etimológico da educação, não busquei somente as razões presentes no significado da palavra, pois isto poderia ser insignificante - uma busca do pêlo no ovo. O paradoxo existe no sentido de a concepção original e antiga da palavra educação de fato corresponder às necessidades da natureza e da situação humanas, além do fato de que, atualmente, com esta identificação, temos um processo que nem atende às necessidades, nem ao significado da palavra. Com isso, a educação se demonstra irracional e absurda, um paradoxo. Ad 2- A questão mais relevante, então, se prende ao fato de a educação estar longe de atender às necessidades da natureza telencefálica do ser humano. Se ela, como ação pedagógica que não corresponde mais ao significado de seu nome, é um paradoxo etimológico, ela é ipso facto e, sobretudo, um paradoxo social, pois não consegue socializar os educandos, enquanto não os capacita para a análise crítica de sua situação caótica e para soluções inteligentes, criativas e éticas desta e, o que é igualmente importante, para a vivência ética e ecológica, bem como para a convivência dialógica e democrática. À luz destes três aspectos, queremos centrar nossa reflexão na educação que evidencia e inverte este paradoxo: 2.1. A educação para o pensar, eficaz em desenvolver nas crianças e jovens - e mesmo em adultos após a idade escolar - as habilidades cognitivo-criativas e o espírito de investigação crítica, para, assim, promovê-los à capacidade de análise crítica de sua situação, como também para soluções inteligentes, criativas e éticas desta, eis uma nova e pioneira maneira de usar o diálogo em sala de aula. Dessa forma, transforma-se a experiência educativa tradicional - de nada atrativa e agradável, pouco produtiva e formativa - em uma vibrante comunidade de investigação, de reflexão crítica e de criatividade, na qual os próprios pensamentos e palavras dos alunos podem ser manifestados, discutidos e enriquecidos por eles mesmos. O filosofar, a reflexão investigativa e crítica, ordenada e coerente, questionadora e construtiva - seja como ação individual ou comunitária -, nasce somente quando fecundado pela admiração, pelo espanto, pela curiosidade, ou mesmo por um susto, que tira o indivíduo de sua indiferença. Assim, também em sala de aula, uma comunidade de investigação não se constitui somente pela boa vontade dos presentes e pelas regras estipuladas para o seu bom andamento. Torna-se necessário algo que provoque a curiosidade, a admiração, o espanto, o repúdio. Em seu paradigma filosófico-pedagó-gico Filosofia para Crianças, Matthew Lipman apresentou pequenas histórias instigantes, novelas ou romances filosóficos, que correspondem a esta necessidade. Já a leitura participativa tira o aluno de sua passividade. O assunto o deixa intranqüilo, por ser de sua própria vivência. As personagens dos romances têm a idade dos estudantes e, portanto, os mesmos problemas, as mesmas situações, a mesma curiosidade, a mesma vontade de descobrir os mistérios e os segredos da vida. As crianças, ou jovens, da história caem, por exemplo, em alguma dúvida, descobrem uma coisa curiosa, mas não a causa, e começam a refletir e investigar sobre aquilo que lhes provocou a curiosidade duma maneira fascinante. Assim a curiosidade, a investigação e a discussão das personagens fictícias passam para as crianças e adolescentes em sala de aula que continuam vivenciando este processo. É evidente que somente um professor bem preparado - com fundamentos filosóficos e pedagógicos, com a metodologia dialógica da comunidade de investigação, com uma visão crítica, ampla e totalizante do mundo - pode reger a orquestra do diálogo que nasce destas histórias. Não é ele que toca os instrumentos, que expõe as suas idéias e opiniões, que diz o que é verdade e o que não, como deve ser alguma coisa e como ela não pode ser. Sua tarefa é conduzir a discussão de tal forma que todos possam falar e pensar com autonomia, que todos possam ser ouvidos com atenção e respeito. No agir assim a comunidade de sala de aula vai construindo os conceitos cada vez mais adequados, as verdades mais prováveis, as soluções mais eficientes. Na sinfonia que rege, cada um se autocorrige sem se humilhar, esclarece suas dúvidas, deixa-se instigar para investigar e estudar conceitos, teorias, leis e conhecimentos necessários para a sua vida e, sobretudo, desenvolve ao máximo suas habilidades cognitivas, criativas e dialógicas. Os alunos aprendem, assim, a dar boas razões para a própria convicção e para a divergência com outras opiniões, aprendem a criticar idéias, teorias, erros, ideologias, etc. independentemente das pessoas que as defendem e praticam. A experiência demonstrou que esta coisa tão séria do filosofar, desta maneira, pode tornar-se uma brincadeira gostosa, num ambiente lúdico e alegre, de modo que abra as portas do tesouro interno da criança, liberta-a e, ao mesmo tempo, encaminha-a para a grande abertura e aventura da descoberta e da conquista de seus valores, de sua vida. 2.2. A educação para o pensar capacita o aluno para não aceitar, acriticamente, fórmulas, princípios e leis prontas - conhecimentos prontos em geral - e o estimula a desenvolver suas habilidades para a vivência ética e ecológica. A construção de conceitos, o desenvolvimento de idéias, valores e interesses, a investigação ética com autonomia e criatividade, o diálogo construtivo, cooperativo, solidário, democrático e autocorretivo, o pensar mais eficiente e responsável, crítico e globalizante, de inter-relacionamentos e interações, são habilidades humanas fundamentais e exigência sine qua non do processo da educação aberta, da autoconstrução do educando e da construção de uma nova sociedade globalizada. Na educação aberta, portanto, a investigação ética tem papel relevante, sendo que esta desenvolve um instrumental capaz de construir e de conscientizar uma nova ética e de denunciar "falsas éticas" e a falta de ética que, em companhia com a falta de visão crítica, impedem a abertura postulada e os relacionamentos exigidos pelo novo paradigma da ciência com uma nova concepção da natureza, da humanidade, da sociedade, interpretando a natureza como sistema aberto. Daí surge a abertura para um novo relacionamento do homem com a natureza e dos homens entre si. Nesta concepção, o homem tem uma função totalmente diferente daquela na visão mecanicista: o homem é resultado e intérprete do acontecer. Tanto a interpretação adequada do acontecer, quanto a construção de uma nova situação satisfatória, não são contudo possíveis sem a Educação para o Pensar. Nesta visão, em que o homem e a natureza são parceiros no mesmo barco, nasceram tentativas de uma Bioética, que se caracteriza pelo respeito diante de tudo que está vivo. Como esta, a investigação ética na Educação para o Pensar procura substituir a mentalidade da ética aplicativa - que aplica acriticamente leis quase sempre defasadas da realidade - por uma ética reflexiva e discursiva. Esta se caracteriza pela atividade crítica do cidadão, rompendo com a determinação alienante, que leis e costumes superados produzem. Em acréscimo, busca projetar a vida individual e social por meio de um pensar avançado, orientado pelas necessidades da vida e fundamentado sobre princípios universais emanados de estudos científicos atualizados. Esta ética é a condição para uma civilização ecológica e holística, que hoje se tornou tarefa principal, tanto da política sócio-ambiental, quanto da educação aberta. Embora indispensável, a qualidade científica do pensamento, do conhecimento e da ação se faz insuficiente quando da ausência da ética. Apesar do maior progresso tecnológico de todos os tempos, estamos diante da miséria e da fome e muitas nações estão próximas da ruína econômica, do desmantelamento social, da marginalização política, do desmoronamento nacional. Nesta situação decisiva, a humanidade precisa de uma visão de convivência pacífica das nações, dos agrupamentos étnicos e éticos, bem assim das diversas religiões, e não somente programas e ações políticos e econômicos. Exige valores universais e unificantes, convicções e normas que valem para todos os humanos, independentemente de origem social, cor, língua ou confissão religiosa. A convivência pacífica e feliz da crescente população terrestre exige uma orientação do agir humano que não recebemos dos nossos instintos, mas por meio de um processo educacional do pensar, criar e dialogar com perspectivas de abertura. A investigação ética escolar, como é praticada na Filosofia para Crianças, permite ir em busca de novos comportamentos e relacionamentos mundiais e da conscientização da responsabilidade de cada um pelo todo, preparando, assim, o aluno para uma nova situação global com qualidade de vida para todos. Somente poderemos estar satisfeitos em ter criado uma nova situação ordenada, pela qual se pode garantir vitalidade por muito tempo e valores dignos de serem vividos, se tivermos organizado, com êxito, todas as nossas atividades produtivas de subsistência num ecociclo de eqüivalência entre exploração e reconstituição. Esta não acumula conseqüências nocivas em forma de poluição irreversível do meio ambiente, como acontece hoje em velocidade acelerada. À semelhança desta fórmula, temos de encontrar a solução para o campo sócio-econômico. 2.3. A educação para o pensar, eficaz em instigar, instalar e promover o diálogo ordenado, crítico, criativo, autocorretivo e construtivo, pode proporcionar a convivência dialógica e democrática numa sociedade construída à semelhança da interdependência e interação dos ecociclos. Da compreensão bioecológica se pode elaborar a sócio-ecológica, concebendo a sociedade humana à semelhança da interdependência e interação, da cooperação e do equilíbrio da natureza. Com esta nova compreensão - enriquecida com a consciência, o livre arbítrio, o potencial cognitivo e histórico-cultural - ainda é possível continuar a prática mecanicista da exploração e destruição da natureza, do indivíduo e da sociedade. A educação aberta, portanto, deve ter em seu currículo a educação da força de vontade, que é quase inexistente na educação atual. De nada adianta compreender uma verdade e simplesmente querer agir de acordo com ela, se não existe a força de vontade para agir de fato. O exemplo mais simples para atestá-lo é saber que fumar prejudica a saúde e, por esta razão, não querer fumar, mas não conseguir este querer por falta de força de vontade. O diálogo na Comunidade de Investigação é o método básico e exclusivo para desenvolver habilidades e virtudes indispensáveis para a convivência democrática com justiça, paz e felicidade. Refiro-me a ele não só como método para aulas de Filosofia, mas como mentalidade e espírito pioneiros da educação aberta em geral. Com o termo exclusivo, não quero me referir somente ao diálogo em Comunidade de Investigação da Filosofia para Crianças, pois outros também são possíveis. Como atividade pedagógica experimentada e sucedida não descobri, até o momento, outra mais eficiente. Em outros ensaios do Grupo de Trabalho sob minha coordenação serão abordados outros aspectos deste diálogo. Aqui quero realçar somente algumas habilidades necessárias para a vivência democrática que na comunidade de investigação dialógica se desenvolvem e educam por excelência: saber esperar a própria vez, conhecer seus limites e os dos colegas, respeito mútuo, capacidade e vontade de ouvir o outro, de penetrar na órbita dos colegas, de saber calar quando um outro se manifesta, de saber respeitar opiniões diferentes ou contrárias da própria, saber extrair da fala dos demais o essencial, construir as próprias idéias sobre aquilo que já foi exposto, principalmente o que está diretamente em discussão, saber autocorrigir-se durante o diálogo, reconhecer o que existe em comum, o que é contrário, o que é possível ou impossível, abrir-se para consensos, sabendo renunciar à própria opinião ou defendê-la com boas razões, saber engrená-la no lugar certo da discussão. Muitas antigas corporações de estudantes universitários tinham o seguinte lema, que pode ser característica também da comunidade dialógica em sala de aula: no necessário, a unidade; nas dúvidas, liberdade; em tudo, a caridade e o amor. A educação que consegue promover seus alunos para executar este lema é aberta e não usa simplesmente o nome da democracia em seu discurso, mas a constrói, através dos cidadãos que forma com capacidade dialógica. A conquista de uma sociedade democrática custa mais do que meras palavras, do que declarações de direitos e deveres: custa todo um processo adequado e árduo de educação que abre horizontes, conscientiza e forma cidadãos capazes de construir a nova sociedade que necessitamos em favor de todos e não somente para as hegemonias. O comportamento das consciências ingênuas e fanáticas destrói a humanidade. O processo da construção de uma sociedade global, com comportamentos éticos e ecológicos, só pode ser obra de homens e mulheres de consciência crítica, com um desenvolvimento aberto e holístico e com o exercício pleno de sua força de vontade. Ad 3. Só a troca de paradigma, uma virada copernicana, irá gerar a necessária educação aberta. Esta não somente significa, como muitos pensam, acessível para todos e fora dos confins da escola. Aponto este novo e pioneiro caminho da educação para a pesquisa, a discussão e a experimentação. Esta proposta se caracteriza pela sua afinidade com a natureza telencefálica do ser humano, isto é, com as fundamentais necessidades humanas pessoais e sociais. Associado ao International Council for Philosophical Inquiry with Children e em contato com muitos professores que põem em prática este tipo de educação aberta, no Brasil, no México e na Argentina, no Canadá e nos EUA, na Austrália e na África, na China e no Japão, na Espanha, em Portugal, nos Países Baixos, na Escócia, na Áustria, Polônia e Alemanha, posso apoiar-me em experiências mundiais. Estas demonstram um avanço considerável na educação aberta, que atende o ser humano - principalmente a criança e o jovem - como projeto aberto a se realizar e a se construir, libertando seu potencial interior e desenvolvendo suas habilidades como sujeito ativo, comunitário e dialógico. A educação deve ser aberta como a vida o é, visto que o ser humano é um projeto aberto que precisa fazer-se, realizar-se, construir-se sem parar, tanto em nível pessoal, como em nível social. Esta libertação do potencial interno do aluno, desenvolvendo e habilitando seu sentir, pensar, querer e fazer, é a educação aberta de que precisamos. O meio ambiente e a integração social desempenham um papel fundamental neste desenvolvimento cognitivo, intelectual, afetivo e social da pessoa e constituem, em conjunto com atividades pedagógicas adequadas, o meio para tornar, nossas crianças, indivíduos livres e responsáveis, inteligentes e afetivos, cidadãos democratas ativos e capazes de reconstruir nossa sociedade, tornando-a mais justa e pacífica. A virada copernicana consiste, então, em remodelar a estrutura educativa de sujeitos passivos e isolados em ativos e sociais, comunicativos e dialógicos, que sabem pensar criticamente, criar e investigar por si mesmos. Uma contribuição para esta permuta está no paradigma de M. Lipman. No considerar a vida e a educação como sistemas abertos, propõe uma pedagogia dialógica, não autoritária, instigante e lúdica, capaz de formar pessoas que sabem pensar inteligentemente, ao tempo em que sabem e querem construir uma sociedade aberta e pluralista, tolerante e justa, unida e em paz. ABSTRACT The social paradox of present education and the Copernican turning to open education. Aiming at a contribution to a Copernican turning of education, by inquiring it in a hermeneutic manner this article concludes that education is an etymological paradox when its practice becomes the contrary of the signification of the word education. Therefore, education does not attend the human telencephalon and it reveals itself as a social paradox once it does not result into socialization of the students, nor enable them to achieve a critical analysis of their situation and intelligent solutions to it. Only a Copernican turning will create the necessary open education, which means not only to be accessible and outside school. Education has to be open as life is, because the human being is an open project that will be continuously developed, performed and constructed in its personal and social aspect; education must be a liberation of the internal child’s potential, developing the capacity of feeling, thinking, willing and doing. This is properly open education. Environment and social integration carry out a fundamental performance in this personal development; together with adequate pedagogical efforts they constitute the means by which children become free, responsible, intelligent and affective people, citizens who are active, democratic and able to reconstruct our society, turning it into a more just and peaceful one. As result: the Copernican turning consists into turn the educational structure in such a manner that it can transform inactive and reclusive persons into active and social, communicative and dialogical citizens, who are able to critical thinking, creating and inquiring by themselves, and can search to develop an open and pluralist, tolerant and fair society, united in peace. Keywords: education for thinking; holistic education; reconstruction of education RESUMO Objetivando contribuir para uma virada copernicana da educação, investigando-a hermeneuticamente, conclui-se que a educação se torna um paradoxo etimológico quando sua prática se constitui o contrário daquilo que está no sentido da palavra educação. Assim ela não atende ao telencéfalo humano e se demonstra um paradoxo social, pois não socializa os educandos sem capacitá-los para a análise crítica de sua situação e para soluções inteligentes dessa. Só uma virada copernicana irá gerar a necessária educação aberta que não somente significa acessível e fora da escola. Educação deve ser aberta como a vida, pois o ser humano é um projeto aberto que precisa fazer-se, realizar-se, construir-se sem parar em nível pessoal e social; deve ser a libertação do potencial interno da criança, habilitando seu sentir, pensar, querer e fazer. Isto é propriamente educação aberta. O meio e a integração social desempenham um papel fundamental neste desenvolvimento da pessoa; constituem, em conjunto com esforços pedagógicos adequados, os agentes para tornar as crianças pessoas livres e responsáveis, inteligentes e afetivos, cidadãos democratas ativos e capazes de reconstruir nossa sociedade, tornando-a mais justa e pacífica. Resultado: a virada copernicana consiste em virar a estrutura educativa assim que possa transformar sujeitos passivos e isolados em ativos e sociais, comunicativos e dialógicos, que sabem pensar criticamente, criar e investigar por si mesmos e procuram construir uma sociedade aberta e pluralista, tolerante e justa, unida em paz. Palavras-chave: educação para o pensar; educação holística; reconstrução da educação Referências Bibliográficas
|