Transferência, Educação e o Banquete de Platão



 

Maria Augusta Rondas Speller1


 

RESUMO: No presente trabalho aborda-se a transferência, conceito fundamental em Psicanálise que não a inventou, - posto que permeia todas as relações humanas não estando, portanto, presente somente no setting clínico -, mas tenta desvendá-la, utilizando-a em seu trabalho. O artigo foi escrito pelas indagações e elaborações suscitadas na autora com a leitura feita do Banquete de Platão por Lacan quem tece considerações sobre o amor, outro nome para transferência. Presente nas relações professor-aluno, é de suma importância que esse conceito seja apreendido pela educação, sobretudo para que educadores pensem nos limites e possibilidades de sua atuação.
 

 

ABSTRACT: The present article is about transfer, basic concept in Psychoanalysis which did not invent it but uses it as a important tool in analysis. Transfer operates in all relationships including those established between teacher and pupil, for this reason it is very relevant that teachers try and understand the concept which will help them to better evaluate the limits and possibilities of their profession. 

Palavras-chaves: Psicanálise, Educação, Transferência

 

 

Keywords: Psychoanalysis, Education, Transfer

 

 

“É aí [no Banquete de Platão] que se vai esclarecer, da maneira mais profunda, não tanto a questão da natureza do amor, e sim a    questão que nos interessa aqui, a saber, a de sua relação com a transferência”. (LACAN, 1992, p. 34)

 

Não terá sido à toa que Lacan tardou dez anos para abordar a transferência em seus seminários. O conceito não é dos mais fáceis de elaborar e compreender dado que a transparência não é uma virtude presente no campo das relações humanas, - inclusive as estabelecidas entre professores e alunos -, regidas pelo simbólico e pelo imaginário que tentam dar conta do real da existência. Nesse campo, mais bem é a opacidade que marca presença, presença que não pode ser negligenciada pelos professores.

Logo na introdução do Seminário 8 sobre a transferência, Lacan nos recorda que a Psicanálise começou de um encontro entre um homem e uma mulher: Joseph Breuer e Anna O., esta última batizando o encontro e o que aí ocorria de ‘talking cure’, cura pela fala, ou ‘chimney sweeping’, limpeza de chaminé. Breuer não conseguiu sustentar o que esses encontros acarretaram para ambos, deixando “o caso” em mãos de Freud que talvez não tenha se assustado tanto com o que Anna lhe transferia, enquanto limpava sua chaminé.

Esse caso é relatado nos Estudos sobre a Histeria (FREUD, 1895), onde aparece, por primeira vez, nas Obras Completas, a palavra transferência, übertragung em alemão: über movimento em direção a, e trag/en, voltar-se. É nessa obra que a transferência assume a acepção que tem até hoje, a do envolvimento do analista pelo amor que se volta (tragen) a ele. Em 1888, num artigo sobre histeria que Freud escrevera para o dicionário Villaret, transferência é utilizada para designar o movimento do sintoma histérico de um lado para outro do corpo. Mais tarde, a transferência mesma será tomada como sintoma e será chamada de neurose de transferência que, segundo Freud (1917, p. 2400) permite afirmar o caráter libidinal dos sintomas que se constituem em satisfações substitutivas.

Freud pouco a pouco elaborará o conceito: na Interpretação dos Sonhos (1900, p. 450-459 e 468-469) falará que o sonho, manifestação do inconsciente, apodera-se de restos diurnos, dotando-os de uma significação diferente. Os elementos, funcionando como formas, formas como letras, são esvaziados do sentido prévio, e dotados de novas significações, havendo aí transferência de sentido através dos processos primários de deslocamento e condensação. Lacan lerá tudo isso, mais tarde, com a ajuda de seus conceitos de significante, de metonímia e metáfora. Freud fala também de transferência de uma representação inconsciente à uma consciente.

A transferência, como o sonho que lhe dará sustentação teórica, é uma manifestação do inconsciente. Ela não foi criada pela Psicanálise, dado que também existe em situações não analíticas, - sempre que haja um suposto saber e as armadilhas e encantos do imaginário, condições sempre presentes também na Educação - mas será a Psicanálise que irá desvendá-la, trabalhando através dela. Creio ser extremamente relevante que os educadores leiam e reflitam sobre o que esta área de conhecimento traz de perturbador de nossas certezas tão ferreamente construídas. Se este artigo lograr este efeito, dar-me-ei por contente.

Paradoxalmente, a transferência ao mesmo tempo em que é condição da análise, é o que pode emperrá-la, limitá-la. O mesmo acontece nas relações transferenciais tecidas dentro do processo de ensinar-aprender, a transferência podendo facilitar ou dificultar a aprendizagem. O emperramento seria, em grande parte, por um mau manejo da transferência, no sentido da cristalização dos seus aspectos imaginários, na busca narcísica de plenitude, comparável ao estabelecimento de uma paixão, cega, surda e muda à incompletude, nossa verdade humana. No manejo adequado, caminha-se da tentativa de negação da falta, na paixão, para o amor que reconhece a alteridade, os limites, as falhas, em poucas palavras, para o mergulho do coração no simbólico.

Em um de seus casos clínicos mais famosos, caso Dora, descrito em Análise Fragmentário de uma Histeria, Freud (1905) descobre a importância do manejo da transferência na clínica, a partir do fracasso da análise de sua paciente, fracasso que exemplifica, a meu ver, as palavras de Lacan quem afirmava ser do analista a resistência. Podemos questionar se alguns casos de dificuldade de aprendizagem não surgem ou são reforçados pela ´resistência` dos professores aos limites de seu poder, resistência a aceitar o aluno como ele é, diferente do ideal que o professor possa ter do que um aluno deveria ser para confirmar o mestre no ideal que ele tenha de si mesmo e de sua profissão. 

E por falar em Dora... pensar o amor ajuda a pensar a transferência, por isso Lacan estuda O Banquete de Platão, obra onde se fala do amor. O trabalho da análise, como diz Freud (1915, p. 1689 e 1692) em seu artigo Observações sobre o amor de Transferência, é desvendar as escolhas infantis do analisante e as fantasias tecidas ao redor delas. Nesse artigo, onde se constata seu talento de romancista, talvez pelo tema propício, Freud compara a análise, quando surge o amor de transferência, a um teatro, a uma comédia: 

“La escena cambia totalmente, como si una súbita realidad hubiese venido a interrumpir el desarrollo de una comedia, como cuando em medio de una representación teatral surge la voz de ‘fuego’.”2

Quando fala do amor de transferência, Freud usa a palavra fogo... mais adiante (p.1696), no mesmo artigo, diz que o analista lida com “forças explosivas”, com as quais deve ser muito cuidadoso já que (p.1692) “contra las pasiones, nada se consigue con razonamientos, por elocuentes que sean”3, paixões que estão, com freqüência, a serviço da resistência. Como nos adverte Lacan (1992, p. 21), apesar de que o analista deva reconhecer os movimentos de amor e de ódio em si, é justamente de suas armadilhas que o analista deve fugir, sendo a análise: “(...) a única praxis na qual o encanto é um inconveniente. Quebraria o encanto. Quem já ouviu falar de um analista encantador?”

O professor também deve estar atento aos movimentos de ódio e amor em si ativados pelas crianças com as quais lida: a criança frente a ele, a criança que ele gostaria que seu aluno fosse, a criança que o professor foi um dia, a criança que o professor gostaria de ter sido.

Freud, em diversos momentos de sua teoria, vai elaborando o conceito de transferência identificando-a como repetição, como resistência e como sugestão. Lacan tratará de definir o conceito, articulando todas essas concepções. Para este autor, o fato da fala se manter já implica que há transferência que é permeável à ação da fala. Ao falar, na situação analítica, a pessoa construirá algo, falando não para um outro, o semelhante, mas para o Outro, Sujeito Suposto Saber, lugar do terceiro, da linguagem, conseqüência da própria estrutura da situação analítica:

“Tudo o que sabemos sobre o inconsciente, desde o início a partir do sonho, nos indica que existem fenômenos psíquicos que se produzem, se desenvolvem, se constroem para serem ouvidos, portanto, justamente para este Outro que está ali, mesmo que não se o saiba. (...) parece-me impossível eliminar do fenômeno da transferência o fato de que ela se manifesta na relação com alguém a quem se fala. Este fato é constitutivo”. (LACAN, 1992, p. 177)

O analisante procura o saber no Outro, sujeito suposto saber, SSS, efeito constituinte, estruturador da transferência, seu pivô4, que a articula como fundamento simbólico. Quem é suposto saber é o Outro, é a linguagem, o terceiro, não o analista. O SSS enquanto fundamento da transferência, é distinto de seus efeitos fenomênicos -repetição, resistência, sugestão-; é a partir desse conceito que Lacan diferenciará transferência na sua dimensão imaginária, com seus efeitos de amor e de ódio, da repetição, como repetição do significante. Lacan ajudou a entender a transferência distinguindo seu plano imaginário do simbólico.

Freud (1914) dizia que a transferência é reatualização, repetição do passado, mesmo que reeditado, modificado. Com Más Allá del Princípio del Plazer, Freud (1920) percebe a repetição como independente do princípio de prazer o que Lacan interpretará como compulsão do simbólico: o que se repete são significantes.

Com seu conceito de suposto saber e  o de temporalidade, après-coup, freudiano, Lacan dará uma nova definição à repetição: na análise, o passado é falado no presente, inscrevendo, no Outro, as palavras com seus equívocos e suas associações. Isto é a repetição, característica da relação do sujeito com a linguagem. Nesse sentido, o que é capturado pelo analisante na transferência, não é a pessoa do analista, mas, traduziria Lacan, um significante nele que entra numa série para o analisante. O analista, como significante, passa a fazer parte da economia psíquica do analisante, a transferência sendo testemunha do inconsciente. Na análise cria-se a neurose de transferência que tem caráter de sintoma, de substituição, de metáfora; o que se explicita no sintoma, explicita-se na transferência.

A Psicanálise tem um caráter de impostura não só pelo semblante que o analista deverá fazer de objeto a, objeto de desejo, como também porque o analista ao dizer, [ô! Lacan (1992, p. 50) hilário]: “vamos lá, diga qualquer coisa, vai ser maravilhoso”, insinua ao analisante que há um, suposto saber ele, o analisante, apesar de que sabemos que

“(...) nós somos supostos saber não grandes coisas. (...) E a transferência se funda nisto –há um cara que me diz, a mim, grande babaca, que me comporte como se soubesse de que se trata. Posso dizer seja lá o que for, e isso sempre vai dar em alguma coisa. Isto não lhes acontece todos os dias. Há bons motivos para causar a transferência”.

É importante sublinhar que é justamente a impostura que possibilitará o surgimento da verdade do desejo, inconsciente, do sujeito. É nesse sentido que a transferência se situa entre o desejo e o amor, ambos regidos pela falta.

A clínica psicanalítica é a clínica da transferência ou do Outro, definido por Lacan (1992, p. 172), como:

“(...) o lugar da fala,  esse lugar sempre evocado desde que há fala, esse lugar terceiro que existe sempre nas relações com o outro, a, desde que há articulação significante. (...) Outro perpetuamente evanescente e que, por isso mesmo, nos coloca numa posição perpetuamente evanescente”.

Como a experiência humana é tragi-cômica, o lado cômico/irônico lacaniano é necessário para se entender a transferência e a nossa sujeição à linguagem, nossa subordinação ao significante, mas o lado poético também o é: “As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam (...)”. (LISPECTOR, 1999, p. 12)

A resistência, na transferência, seria o momento em que o analisante acredita, pelo amor transferencial, que o analista sabe ou tem o que a ele, analisante, falta, colocando-o no lugar do Outro ao qual supostamente nada falta. Na cena analítica, delata-se a natureza do amor: amamos numa outra pessoa o que nos falta e pensamos que o Outro, supostamente completo, tem.

Mas, afinal, o quê o amor tem a ver com a transferência? Lacan (1992, p. 71), concordando com Freud, diz que muito:

“Alguma coisa que se assemelhe ao amor, é assim que se pode, numa primeira aproximação, definir a transferência (...) a transferência é algo que põe em causa o amor, que o põe em causa muito profundamente no que se refere à reflexão analítica por ter introduzido nela, como uma dimensão essencial, aquilo a que se chama a sua ambivalência (...). Essa estreita ligação entre o amor e o ódio (...)”.

No Banquete, obra de Platão estudada por Lacan no Seminário 8, Sócrates pouco fala, em seu nome, sobre o amor, fazendo falar, em seu lugar, à Diotima, uma mulher, estrangeira, dizendo dela ter aprendido o que sabia sobre Eros. Logo Sócrates que dizia nada saber, exceto as coisas do amor! Sócrates, ao invocar uma mulher para falar do amor, parece Freud (1907) que ao analisar a Gradiva de Jensen disse que uma mulher está em posição de vantagem em relação ao analista para conseguir o que quer, através do amor: que o homem cresça, deixando satisfações e fixações infantis e aprenda a amar. Lembremos que foram mulheres que possibilitaram a criação da Psicanálise.

Na cena analítica há um leito de amor, o divã, e duas pessoas isoladas que vão falar da falta, da carência constitutiva do ser humano. No final da análise deve-se lidar com ela de maneira diferente à que se fazia previamente. As palavras de Lacan (1992, p. 23) expressam contundentemente o que é a experiência analítica: “(...) o que lhe falta, ele [o analisante] vai aprender amando.” Talvez possamos generalizar as palavras de Lacan à educação: só através do amor podemos aprender, professores e alunos, o que nos falta.

As histéricas de Freud confirmam as palavras de Lacan, ensinando que só se podem curar pelo amor, a um Freud (1917, p. 2397) confessadamente assombrado e sem poder acreditar na sua ‘distração’: “Tal confesión de las pacientes nos produce extraordinario asombro (...). Será posible que hayamos dejado pasar inadvertido hasta ahora un hecho de tan enorme importância?”5

Penso que Spairini-Aulagnier (1992, p. 67-111) também fornece pistas interessantes para entender por que Sócrates passa a palavra à Diotima, ao nos informar que em Platão era um procedimento comum ligar uma doutrina importante - no caso que nos toca, doutrina sobre o amor - à inspiração profética. Diotima era maga, sacerdotisa, estrangeira, de Mantinéia. Havia afastado a peste de Atenas por anos, o que nos faz vislumbrar, diz Lacan (1992, p. 124), o poder, a estatura de quem vai falar do amor.

Assim, às mulheres cabiam o desvendamento dos mistérios, os textos sagrados. O estranho, como diz Spairini-Aulagnier, é que O Banquete é um texto de homens, então por que invocar uma mulher? Estaria Sócrates fazendo falar a mulher nele, como sugere Lacan (1992, p. 123), ao lançar mão do mito, que tenta abordar o inextricável real? Como diz Lacan (1992, p. 169), o amor é a mais profunda, radical e misteriosa relação entre os sujeitos.

Spairini diz que a feminidade é, antes de mais nada, uma invenção dos homens. O amor também, eu diria; e o quê não é? Para mantê-lo, talvez, só velando-o – entendendo velamento como forma, estilo de apresentação e não só ocultamento. Os véus não seriam enganadores, mas possibilitadores do amor, oferendas, dons. Afinal, não é através da transferência que uma análise se possibilita? Não é quando o analista se cala, que algo pode ocorrer na cena analítica? Não terá isso algo a ver com o jogo do amor, jogo de esconde-esconde, que ora mostra, ora encobre, num engano que permite ao humano desfrutar dos desfrutes possíveis, nesse mundo de ficção que é o mundo fálico? Será que saber amar é saber “(...) usar as coisas com a graça gratuita do em vão (...)”, vão porque o amor seria “(...) uma das raras formas de estabilidade: a estabilidade do desejo irrealizável. A estabilidade do ideal inatingível”? (LISPECTOR, 1999, p. 75 e 73)

A meu ver, Couso (1996), em sua palestra sobre o humor, esclarece algo sobre o amor, ao falar do mundo em que vivemos, segundo Lispector (1999, p. 34), mundo “dos viciados”, “mundo já criado”. Couso diz que uma das conseqüências da eficácia da função paterna é a de introduzir-nos no mundo das ficções que não devem ser consideradas como opostas à realidade nem submetidas à prova da verdade, posto que criação arbitrária, montagem eficaz que determina efeitos no sujeito e dá sentido a seu mundo.

Lacan (1992, p. 47) diz que o amor é um significante e, enquanto tal, é uma metáfora enquanto substituição. Nesse sentido, o mundo todo é metafórico. Volto a Couso (1996), que me parece esclarecer algo sobre o amor, e, por conseqüência, sobre a transferência, ao falar do mundo de ficção que é o nosso, regido pelo fantasma e pelas leis do significante:

“As coisas do  mundo são ditas, colocadas em cena, de acordo com as lei do significante, (...) o que vivemos diariamente não é naturalmente dado, mas uma estrutura organizada pelo significante. Para o ser falante, o mundo da realidade é o fantasma, (...) [que] tem eficácia e consequências reais: uma vez que ¨o mundo subiu à cena¨, o mundo real do primeiro tempo fica como o mito de um real suposto antes do significante, e como tal, perdido... e desde então vive-se numa ficção, cada um portando suas máscaras para passar pela cena do mundo. (...).
(...) toda cena, como no teatro, contém a idéia de uma certa inautenticidade, de que ¨parece¨, mas ¨não é¨ totalmente... e mesmo assim,  ¨fazemos de conta que é (...)”. [tradução minha, do espanhol]

Apesar de que o amor traga a ilusão de que não somos estranhos uns aos outros (LACAN, 1992, p. 111-112), toda mulher é estrangeira ao homem (lembrar que Diotima era estrangeira a Sócrates). Em Psicanálise o feminino é uma das figuras do estrangeiro. Penso que para manter o amor é necessário que homens e mulheres mantenham-se estrangeiros uns aos outros, no que estrangeiro possa significar diferença, alteridade, novidade, novos sentidos, outra lógica, atiçadora de nossa curiosidade, mantenedora de nosso desejo.

Sócrates, ao passar a palavra a Diotima, talvez estivesse invocando, como disse Lacan, a mulher nele, a estrangeira, nele. O analista também é estrangeiro ao analisante a quem se oferece como objeto do desejo, como agalma, como amado, como érôménos, para que o analisante se manifeste como érastès, amante. O professor também é estrangeiro ao aluno, e como estrangeiro deve estar atento ao que o aluno fala (ou silencia) para com ele também aprender.

O analista deve também nada saber. Mas que relação há entre saber e amor? Aqui, outro mito acerca-nos do inextricável real: o mito do nascimento do amor, mito que só existe em Platão, contado através da boca de Diotima, a sacerdotisa. Lacan (1992, p. 125 e 346) fala de tal mito, em que a mãe do amor é a pobreza, a miséria, Penia, caracterizada no texto como Aporia, que é um impasse, aquilo frente ao qual não temos recursos, entregamos os pontos. Poros, pai do amor, é Expediente, o que tem recurso, ao contrário de Penia. Aporia não tem nada a oferecer, fica por fora da festa de Afrodite onde Poros está. Ele, embriagado, adormece, o que permite que Aporia faça-se prenhar por ele. É no momento em que Poros dorme, em que não sabe mais nada, que se produz o encontro que gera o amor. Assim o amor como resposta implica não-saber.

Aporia terá um filho ao que chamará de amor, concebido no aniversário de Afrodite, a deusa da beleza. Por isso, segundo Lacan, o amor sempre terá uma relação obscura com o belo, relação da qual nos falará Diotima. Entendemos também aqui porque Lacan (1992, p. 41 e 345) diz que “amar é dar o que não se tem, dar o que se tem é a festa, não é o amor”: Aporia só tem, para dar, a sua falta. Lispector (1999, p. 51) parece concordar com Lacan, quando diz: “(..) amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter.”

Como haver um encontro entre pessoas que têm tudo? Por isso Lacan dizia que os ricos não sabem amar ou são inanalisáveis. Nelson Rodrigues (1992), creio, concordava com Lacan, a julgar por um de seus contos escrito num livro adequadamente intitulado: “A Vida como ela é”: um homem muito rico queria levar para cama uma certa mulher, coisa que conseguia com todas. Em vão com essa uma a quem tudo ofereceu, até que um dia, desesperado pelas negativas, pergunta o que deveria fazer para ganhar seu amor, ao que ela lhe respondeu que só o amaria quando fosse pobre, de tudo se destituindo. E assim acontece. Um dia, ao encontrá-lo mendigo, sem nada, pelas ruas, ela, por fim, lhe declara seu amor...

O amor é demoníaco (daïmonion), intermediário entre deuses e humanos, entre imortais e mortais. O amor é um dos demônios através dos Quais os deuses dão a escutar suas mensagens aos mortais, “...quer estejam adormecidos ou acordados...”. Lacan nos informa, ironicamente, creio, que no texto grego não fica claro quem estão adormecidos: os  homens ou os deuses.

Diotima, mulher, do lado do ser e não do ter masculino, esclarece sobre o belo, dizendo que ele não se relaciona com o ter, mas com o ser, mortal. Seu discurso:

“(...) articula a função da beleza como sendo inicialmente   uma   ilusão, uma miragem fundamental, pela Qual o ser perecível e frágil é sustentado em sua busca da perenidade, que é sua aspiração essencial”. (LACAN, 1992, p. 129-130)

Lacan (1992, p. 114) diz mais coisas enigmáticas sobre o amor: “o amor é um sentimento cômico”, “não basta, para falar de amor, ser poeta trágico, mas é preciso também ser um poeta cômico” . O que queria ele dizer com essas afirmações? A propósito, Freud (1914, p. 1689) refere-se ao surgimento do amor na análise como algo “com um lado cômico e com um lado sério”. Como Lacan bem observa, no Banquete, é de Agatão, poeta trágico, que vem o único discurso claramente de escárnio. Claramente porque, segundo Lacan (1992, p. 80), Platão adotou a via da comédia para tratar do amor, no Banquete, e que há que suspeitar sempre da presença da comicidade no texto, mesmo quando não explícito. Lembrar, a propósito, as idéias de Freud (1905) no seu artigo “El Chiste y su relación com lo Inconsciente”, onde ele fala do simbólico que se estende sobre o  mundo como uma rede, de significantes, mas como redes têm furos, algo sempre escapa, nem tudo sendo simbolizável. O humor seria uma maneira de apresentar, velando, o que escapa à fala, de uma maneira diferente do cômico, que arregaça o real, mostrando-o sem véu (Couso, 1991). O cômico, nesse sentido, seria obsceno? Couso (1991) pergunta se não seria através do humor, que fala de limites, que transmitimos que o simbólico está furado.

O amor, no que vela, revela. Seria, nisso, equivalente ao humor, no que denuncia os limites do simbólico? Afinal não é o amor a mais misteriosa e inexplicável das coisas humanas?

Penso que tudo isso tem relação com o que escrevemos nos parágrafos anteriores sobre o velamento - do inexistente, da falta- e com a impossibilidade do desejo satisfazer-se: o outro jamais terá o que procuro. Nisto reside o trágico do amor. No entanto, - e aí o lado cômico- nos iludimos, e continuamos sempre a jogar o tão indispensável jogo do amor, jogo de faz de conta que a falta não existe, faz de conta que você me completa, faz de conta que o impossível é possível... Jogos cômicos, marcados pelo falo pois, como diz Lacan (1992, p. 99), o essencial do mecanismo do cômico é que sempre se refere ao falo. Como neuróticos, estamos inscritos no reino do falo, reino da mentira. Por isso creio que Lacan diz que só os mentirosos sabem amar. Eu diria que só os bons mentirosos sabem amar - venhamos e convenhamos, há talento para tudo, e há alguns neuróticos que são especialistas na arte de amar, na arte da ficção. As palavras de Lacan parecem confirmar essas suposições:

“A questão é saber se aquilo que ele [o amado] possui tem relação, diria mesmo uma relação qualquer, com aquilo que ao outro [o amante], o sujeito do desejo, falta (...) da conjunção do desejo com seu objeto enquanto inadequado, deve surgir essa significação que se chama o amor. (...) O que falta a um não é o que existe, escondido, no outro. Aí está todo o problema do amor. Quer se o saiba ou não, isso não tem importância alguma. No fenômeno encontra-se a cada passo o dilaceramento, a discordância. (...) basta amar para ser presa desta hiância, dessa discórdia.” (LACAN, 1992, p. 42, 46)

Mas, nos ‘finalmentes’, não importa o talento do outro pois na vida, seja numa análise, seja no amor, o encontro marcado é sempre conosco mesmo, enfim, com a carência. As palavras de Meireles (1985, p. 109) parecem-me descrever o que é uma análise e sua relação com o saber:

“Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram. Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a – Minha aventura era essa errância por mares contraditórios (...)”.

O campo da educação não é, como os demais campos na vida, um campo de errância onde vagamos pedindo, em última análise, sob máscaras as mais variadas, que nos amem?

Escrevi sobre TRANSFERÊNCIA agora para, como diz Deleuze (1988, p. 18), “não suprir a ignorância, TRANSFERINDO a escrita para depois, tornando-a impossível” dado que, parafraseando-o, ao escrever sobre aquilo que não sabemos ou sabemos mal, no ponto que imaginAMOs ter algo a dizer, “(...) escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nessa ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro (...).”
 

 

Referências Bibliográficas
 

COUSO, Osvaldo M.- Humor y Psicoanálisis.  Charla en el Centro de Extensión Psicanalítica (Centro Cultural General San Martín). Buenos Aires, Argentina, 29-10-1991. Russell: Psicoanálisis e Internet: http://www.russell.com.ar/acerhum.htm. Acessado 15-09-99.

_______________- Los Cuentos de los Presidentes - versión resumida de una intervención en la mesa redonda: La Ley renegada, realizada en junio de 1996, en la Escuela Freudiana de Buenos Aires, Argentina. In:http://www.russell.com.ar/acerhum.htm. Acessado em 15-09-99.

FREUD, Sigmund - Estudios sobre la Histeria. (1895). In: Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, vol. I, 1981.

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_____________- Lecciones Introductorias al Psicoanálisis. XXVII Lição- La Transferencia. (1917). In: Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, vol. II, 1981.

_____________- Más Allá del Princípio del Plazer (1920). In: Obras Completas. Madri: Biblioteca Nueva, vol. III, 1981.

LACAN, Jacques- O Seminário. Livro 8: A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

____________- O Seminário. Livro 17: O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

____________- El Seminario, Libro X: ¨La Angustia¨, inédito, aula do dia 19-12-1962, citado em Couso, O. M. (1996).

LISPECTOR, Clarice - A Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

MEIRELES, Cecília - Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985.

RODRIGUES, Nelson - A Vida como ela é.../2. São Paulo: Companhia das Letras,1992.

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1 Psicóloga, psicanalista, professora do Departamento de Psicologia, Instituto de Educação, Universidade Federal de Mato Grosso. Doutoranda em Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

2 “A cena muda totalmente, como se uma súbita realidade viesse a interromper o desenvolvimento de uma comédia, como quando em meio de uma representação teatral surge a voz de ‘fogo.”

3 “contra as paixões, nada se consegue com racionalizações, por eloqüentes que sejam.”

4 Pivô pode designar pedaço de madeira ou de metal sobre o qual gira algo, indicando, em sentido figurado, a sustentação principal de alguma coisa. O SSS, sujeito suposto saber, seria o pivô sobre o qual giram as expressões fenomênicas da transferência, seus três aspectos: repetição, resistência e sugestão.

5 “Tal confissão das pacientes nos produz um assombro extraordinário (...) Será possível que tenhamos passar inadvertido, até agora, um fato de tão enorme importância?”