O Lixo Urbano de Cuiabá e a Conservação do Meio Ambiente

 

 

José Aparecido Thenquini1

Ermelinda M. De-Lamônica-Freire2


 

RESUMO: A metodologia utilizada baseou-se em entrevistas e observação do tipo qualitativa. Coletaram-se dados através de análise documental da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos e da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar – PNDA, do IBGE, relativos a 1997, que versava sobre a coleta do lixo e sua disposição final. Procurou-se conhecer como a coleta do lixo é realizada no município e no país, quais as dificuldades existentes e a destinação final do mesmo. Ainda, se eram feitos trabalhos educacionais para sensibilização dos atores sociais no que diz respeito à coleta seletiva de lixo e aos males causados pelos resíduos. Os resultados obtidos demonstraram que o lixo é coletado, entretanto, a maior dificuldade relaciona-se à sua disposição final e ausência de sensibilidade dos atores sociais que contribuem para a deposição do lixo em qualquer lugar, sem a preocupação com o ambiente.

 

 

ABSTRACT: The used methodology is based on interviews and observation of the qualitative type. It was collected data through documental analysis of the Municipal General Office of Urban Services and of the National Research of Home Sampling–PNDA, of IBGE, relative to 1997, which turned about the collection of the garbage and its final disposition. It was investigated how the collection of the garbage is accomplished in the municipal district and in the country, the existent difficulties and the final destination of the same. Still, if there were any education works in order to sensibilize the social actors about the selective collection of garbage and the evils caused by the residues. The obtained results demonstrated that the garbage is collected, however, the largest difficulty links at its final disposal and absence of the social actors' sensibility that contribute to the deposition of the garbage anywhere, without the concern with the atmosphere.

Palavras-chave: lixo, meio ambiente, coletas coletivas, educação e reciclagem.

 

Keywords: rubbish, environment, collective collections, education and recycling.

 

I – INTRODUÇÃO

 

Os lixos produzidos pelos seres humanos nas mais variadas atividades existentes na sociedade são um dos graves problemas enfrentados por todos os atores sociais e políticos, devido ao intenso  consumo que ocorre na sociedade contemporânea, bem como as doenças que são transmitidas pelos vetores existentes no lixo.

Em face desse consumo, o problema se dá com relação à disposição final desses resíduos. Em sua maioria, o lixo produzido pelos moradores dos mais de cinco mil municípios existentes no País não recebe tratamento adequado, sendo depositados em locais abertos e inapropriados chamados popularmente de lixão.[1]

Para Calderoni (1998, p. 25),

“O lixo é um material mal amado (...) Vive-se, em conseqüência, uma imensa crise. Ao mesmo tempo em  que cresce o volume de lixo produzido, resultante do aumento desvairado do consumo, são cada vez mais caras, mais raras e mais distantes as alternativas tradicionais de disposição do lixo em aterros”.

Esta afirmação serve para ilustrar o que vem ocorrendo nas cidades, o tipo de tratamento que se dá ao lixo, “o material mal amado” pela grande maioria da população, é simplesmente depositado em locais abertos, gerando mais um problema ambiental, tendo em vista a poluição dos lençóis freáticos pelo chorume, e ainda, por ser fonte de recolha de materiais recicláveis e de alimentos para inúmeras pessoas que sobrevivem no anonimato destes lixões, expostos a graves problemas de saúde.

Segundo pesquisa coordenada pelo UNICEF em 1997, em 88% das cidades do País, o lixo é despejado em locais abertos.

Ainda, de acordo com dados do IBGE de 1991, 76% do lixo urbano vai para o lixão, 13% para aterros controlados e 10% para aterros sanitários. Deste total, 99% do lixo é colocado diretamente no solo, 0,9% vai para compostagem e 0,1% é incinerado.

O poder público municipal é o responsável pela coleta dos resíduos sólidos urbanos e rurais, quer sejam eles provenientes de fontes geradoras das áreas domésticas, comerciais, industriais ou da saúde, pois cobra dos munícipes a taxa de limpeza urbana, inclusa no IPTU – Imposto Predial Territorial Urbano.

São interessantes os dados fornecidos pelo IBGE, referentes à problemática do lixo em nível nacional. A pesquisa foi realizada em 1997, sobre a existência de alguns serviços existentes em domicílios permanentes no Brasil.

Para compreender os dados obtidos, faz-se necessário citar a terminologia usada na pesquisa referentes a deposição do lixo.

Para o IBGE (1997, p. 30-31), destino do lixo é:

“O lixo proveniente dos domicílios particulares permanentes foi classificado de acordo com os seguintes destinos: Coletado – Quando o lixo domiciliar fosse coletado diretamente por serviço ou empresa de limpeza, pública ou privada, que atendia ao logradouro onde se situava o domicílio, ou fosse depositado em caçamba, tanque ou depósito de serviço ou empresa de limpeza, pública ou privada, que posteriormente recolhia; ou Outro – Quando o lixo domiciliar fosse queimado ou enterrado na propriedade, jogado em terreno baldio, logradouro, rio lago ou mar ou tivesse outro destino que não se enquadrasse nos anteriormente descritos”.

Assim, o quadro abaixo mostra os dados referentes à pesquisa: destinação do lixo total e os percentuais da área urbana e rural, realizada pelo IBGE nos domicílios brasileiros.

 

Distribuição dos domicílios particulares permanentes:

Destino do Lixo em Percentual.

 

TOTAL

URBANA

RURAL

Coletados

Outros

Coletados

Outros

Coletados

Outros

76,3

23,7

90,7

9,3

14,5

85,5

Fonte: IBGE 1997.

 

 

Percebe-se, a partir desses dados que 76,3%  do lixo no Brasil é recolhido pelo poder público ou por empresas particulares que realizam os serviços mediante licitação municipal, e que 23,7%, tem outra destinação como, por exemplo, são incinerados pelos moradores ou simplesmente jogados nos rios e mares.

Comparando os dados referentes à área urbana com a rural, percebe-se que a coleta do lixo na área urbana é bem expressiva 90,7% contra 9,3% que tem outra destinação. Na área rural 85,5% é de outras formas de destinação do lixo e coleta-se apenas 14,5% do lixo produzido por essa população.

Não resta dúvida que o lixo no Brasil é coletado. O problema maior é com relação à destinação final do mesmo, devido as conseqüências estéticas e de saúde nefastas para os moradores.

Face ao exposto, vê-se que embora o poder público cobre dos moradores a taxa de limpeza urbana e realize a coleta, o problema ainda persiste com relação a deposição final do lixo.

Ademais, deve-se buscar soluções de forma integrada com outros setores do conhecimento, utilizando-se a Educação Ambiental como meio de sensibilizar os cidadãos da importância de se conservar o meio ambiente.

Logo, com relação ao lixo, as iniciativas deverão ser a busca de implementação da coleta seletiva, promover o fomento de cooperativas de catadores de materiais recicláveis, objetivando a reciclagem e o esclarecimento dos moradores dos perigos advindos da má disposição final do lixo.

Para atingir estas metas, deverão ser utilizados todos os recursos materiais e humanos disponíveis, envolvendo as mais diversificadas entidades existentes nos locais, tais como: igrejas, escolas, associações de moradores, clubes de mães, empresários locais, o poder público, dentre outros, servindo-se da educação ambiental e de outros educadores com suas disciplinas respectivas, para atingirem as metas educativas de esclarecerem os moradores a respeito da problemática ambiental.

Assim, o inicio do trabalho de sensibilização com relação ao meio ambiente, poderá ocorrer através da coleta seletiva do lixo nos municípios, pois segundo o UNICEF 1999, ainda são poucos municípios que implementaram a coleta seletiva do lixo, “apenas 100 dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros têm coleta seletiva do lixo”.
 

II - METODOLOGIA
 

A pesquisa foi desenvolvida junto à Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Cuiabá, Mato Grosso e no IBGE de Mato Grosso, através de visitas e entrevistas  nos meses de abril a julho de 1999.

A metodologia utilizada na pesquisa foi a entrevista qualitativa, que, segundo Triviños (1995, p. 124), “nesta abordagem os dados obtidos na entrevista são descritivos, pois houve a participação direta do pesquisador com a situação estudada”.

Bogdan e Biklen (1982), apud Lüdke e André (1988, p. 11), dizem que “a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de regra através do trabalho intensivo de campo”.

Assim, a utilização deste instrumental foi importante, pois possibilitou a interação do pesquisador com a realidade estudada, de modo a obter um conhecimento mais aprofundado da temática atinente aos resíduos sólidos.

O objetivo da pesquisa foi compreender a participação do poder público na coleta do lixo, através dos materiais informativos existentes, bem como identificar e analisar os dados existentes sobre a coleta do lixo.

Em Cuiabá, a coleta do lixo é realizada de forma regular atendendo os 115 bairros existentes no Município, através de empresas terceirizadas. 

O problema da coleta do lixo na Capital mato-grossense pode ser considerado grave, haja vista o grande manancial de rios, córregos e nascente existentes na região, pois, os moradores ainda depositam seus lixos em terrenos baldios, às margens das rodovias e avenidas de vários bairros da capital, causando sérios prejuízos ambientais e de saúde pública aos moradores.

O lixo coletado de forma sistemática no município,  há mais de 15 anos, era todo depositado num lixão sem os devidos tratamentos, na área localizada na Rodovia Emanuel Pinheiro, que liga Cuiabá ao Parque Nacional da Chapada dos Guimarães.  Entretanto, no ano de 1997, foi criada a Central de Destinação Final de Lixo, localizada em Várzea do Quilombo, região Norte de Cuiabá. A central possui capacidade para 140 tonelada/dia de lixo, sendo utilizado modernos equipamentos no tratamento dos resíduos, bem como se faz a reciclagem de vários produtos tais como: papelão, garrafas Pet, lata de refrigerantes e cervejas, plásticos, ferros entre outros que representam 15% do lixo triado, sendo que o restante do lixo orgânico, é compostado e levado para o aterro sanitário, bem como são depositados em áreas que foram degradadas em face de seu rico conteúdo de nutrientes.

Assim, na opinião da Engenheira Sanitária Senhora Kátia Cristina de Souza Lopes, Assessora Técnica da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos a Usina de Reciclagem do município diz que:

“A usina de Cuiabá é um complexo de destinação final de resíduos, recebendo diariamente cerca de 300 ton/dia de resíduos, sendo que aproximadamente 50% dela vai para a usina e os outros 50% vai para o aterro sanitário, existindo hoje uma seleção a nível de qualidade de lixo, tendo em vista a experiência adquirida desde 1997, pois existe a sensibilidade dos operadores em reconhecer qual o melhor lixo para a reciclagem.

É um sistema perfeito, pois dos 50% destinado à Usina 15% é reciclado, isto é o teórico, na verdade nunca se chega a  isso, e 55% matéria orgânica que vai ser compostado, mais 30% que são rejeitos que nós também mandamos para o aterro sanitário. Então é um manejo integrado de resíduos, não tendo nada se perdendo, o que está se perdendo, está sendo confinada numa menor área que é a técnica do aterro sanitário, que nós temos lá”.

Vê-se, pelo depoimento, que a usina não opera com a sua capacidade total em termos da reciclagem do lixo, isto se deve ao fato de não haver uma coleta seletiva de lixo em todos os bairros da cidade.

Há coleta seletiva do lixo somente na área central e nos bairros mais nobres onde o lixo é considerado mais rico, havendo a possibilidade de selecionar os materiais recicláveis na usina, sendo que os demais lixos oriundos dos bairros pobres - compostos em sua maioria de lixo orgânico-,  são destinados para o aterro sanitário.

O descaso com o lixo da periferia deve-se ao fato de ser um lixo pobre em materiais recicláveis, possuindo em sua totalidade matéria orgânica composta de resto de alimentos, papel higiênico e folhagem entre outros, haja vista que os moradores da periferia não possuem o mesmo poder aquisitivo que os moradores dos bairros nobres da cidade. A desigualdade de riquezas reflete-se no poder de consumo de cada um, embora todos sejam alvos das campanhas publicitárias, os cidadãos que moram nos bairros mais pobres adquirem o essencial para a sua sobrevivência, enquanto os que possuem maiores rendas consomem muitos bens supérfluos, este fato é reflexo de uma realidade mais ampla que envolve questões de ordem política, social e econômica que em seu conjunto excluem milhões de seres humanos da riqueza produzida na sociedade. Portanto, não deveria haver discriminação na coleta e triagem do lixo, pois os munícipes pagam a taxa de limpeza urbana inclusa no IPTU, e, deveriam receber o mesmo tratamento pelo poder público.

Destarte, todos os moradores deveriam ter a sua coleta realizada conforme cronograma municipal. Não se pode olvidar que a higienização é um direito de todos e dever do poder público municipal, servindo também como ponto de referência para a educação dos atores sociais sobre os problemas causados pelo lixo, bem como ponto de partida para discussões mais ampla sobre a problemática ambiental.

Segundo os responsáveis pela Secretaria Municipal de Serviços Urbano do Município o órgão não possui um departamento exclusivo de educação, encarregado de promover a educação ambiental junto a comunidade.

Entretanto, reconhecem a deficiência e estão dispostos a buscarem parcerias juntos a outro setores do governo e da sociedade civil, no sentido de implementarem a implantação da educação ambiental, pois sabem que é imprescindível no atual contexto, a inclusão da educação ambiental em sua prática, para poderem sensibilizar os moradores da capital para que separem e acondicionem em embalagens separadas o lixo orgânico do lixo inorgânico.

Para que estas metas sejam atingidas, torna-se necessário um suporte teórico embasado na educação formal, não formal3 inclusive informal, objetivando a sensibilização dos atores sociais e políticos com relação à problemática ambiental.

É interessante o depoimento do Diretor da Secretaria Municipal de Serviços Urbano, Senhor Ivan Pimentel. Quando perguntado se havia algum projeto em EA no órgão, o mesmo asseverou que:

“Nós começamos 97, sabe nós temos uma fartura bastante grande, farta tudo! Começamos 97 bem animado, nós tinha um rapaz que fazia um teatrinho, nós conseguimos uma parceria com as empresas de ônibus, que dou para nós 4.500 lixeiras, nós instalamos 3.000, já arrancaram 2.000, sumiram 2.000 (...) nós tivemos coisas absurdas em termos da lixeirinha. Um dia tinha passado 7 horas da noite, eu passei com o carro, eu vi o cara que estava parado na lixeirinha, pensei será que ele está dormindo na lixeirinha, por incrível que pareça ele estava defecando dentro da lixeirinha, ele tirou a calça no meio da avenida encostou e ficou. Nós encontra dentro daquela lixeirinha, gato morto, cachorro morto. Se vê, um dia nós tivemos que arrancar a lixeirinha, o cara botou o cachorro tão grande que tivemos que arrancar. Então isso ai o que é; pra mim, é educação. Você não educa uma pessoa adulta, tamos pedindo para todas as escolas, pessoal de universidades, tenha essa visão na criança”. (sic).

Percebe-se da afirmativa do Sr. Ivan, que é notório o vandalismo por parte de uma parcela pequena da comunidade, pois ainda se destrói os bens públicos em vez de protegê-los.

Entretanto com relação à educação, denota-se o equívoco do dirigente, quando assevera que a educação deve ser centrada na criança, o grande desafio é justamente  educarmos adultos e jovens, pois não podemos excluir uma parcela significativa da sociedade que é responsável pela produção dos resíduos sobre o pretexto de que não mais adianta educá-los.  Isso ocorre porque esses adultos não se encontram sensibilizados com relação à problemática ambiental.

Destarte, a educação é imprescindível para educarmos esse contigente enorme da população que está fora do ambiente escolar formal, devendo para tanto, utilizar a educação continuada, centrada na utilização dos métodos da educação não formal e informal.

Todavia, a Secretaria Municipal de Serviços Urbano da capital possui folhetos educativos  de boa qualidade tais como: folders, cartazes, adesivos, cartilhas dentre outros, atinentes a coleta seletiva do lixo, que são distribuídos nas escolas, em condomínios e, na comunidade em geral, por ocasião das campanhas de conscientização.

Na maioria das vezes a utilização desses materiais não surte o efeito esperado, por não ser uma campanha continuada, envolvendo outros segmentos da comunidade que compartilham dos mesmos princípios, relativos à problemática ambiental.

Segundo a Senhora Kátia, existe uma dificuldade por parte da população em assimilar os valores relativos à coleta seletiva do lixo.

É elucidativa a sua experiência, no ano de 1997, quando num determinado bairro da capital, foram instalados coletores coloridos para coleta seletiva. Houve campanha durante o dia todo, com distribuição de folders, adesivos, cartazes e carro de som entre outros, conclamando os moradores a participarem da reunião no centro comunitário do bairro, onde estaria o Secretário de Limpeza Urbana e outras pessoas para falarem sobre a importância do meio ambiente e da coleta seletiva do lixo que iria ser implantado no bairro.

Para a surpresa dos organizadores, na reunião à noite, compareceu somente o presidente do bairro, sua esposa e filho. E a maior surpresa foi no dia seguinte, o primeiro dia da coleta seletiva, onde somente um cidadão apareceu com uma sacola de lixo.

Percebe-se do exposto, que não bastam campanhas vultosas, se não há comprometimento da comunidade. O fracasso se deve ao fato de não ter sido realizado junto a comunidade um trabalho de aproximação, para se detectar qual ou quais os problemas que afligem os moradores, bem como suas prioridades.

Assim, para que o trabalho seja eficaz, deverá ser meticulosamente planejado, montando estratégias com a participação da comunidade e outros segmentos da sociedade que possuem os mesmos objetivos relativos à questão ambiental, para que juntos o trabalho possa ser eficiente e obter os resultados esperados por todos.

“As estratégias que adotam o uso intensivo de cartilhas, cartazes, folders e outros recursos do gênero têm sido protagonistas de desperdício de recursos financeiros, freqüentemente públicos, e de fracassos lamentáveis. A Fonte de erros tem sido a mesma: planeja-se sem o conhecimento devido do perfil ambiental das comunidades a serem envolvidas e do seu respectivo metabolismo”. (DIAS, 1993, p. 130).
 

III - RESULTADOS
 

Segundo dados de 1998 da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, a produção de resíduos sólidos no município é de 262,16 toneladas/dia para os resíduos coletados nos domicílios e no comércio, sendo de 3,48 tonelada/dia para os resíduos de Serviço de Saúde, mais 2,64 tonelada/dia de resíduos provenientes da varrição da área central, incluindo aí, os lixos das lixeiras espalhadas pela cidade, perfazendo um total de 268,28 ton/dia, se considerarmos os 101,36 m3/dia de entulho, que também são resíduos coletados em Cuiabá, teremos um total de  369,64 ton/dia.

Percebe-se que a geração de resíduos na capital é expressivo, o que justifica a instalação da Usina de Compostagem para efetuar a reciclagem de materiais.

Ademais, que sejam ampliados os aterros sanitários, criados programas de coleta seletiva e, que seja investido na educação dos moradores, sensibilizando-os para que contribuam na separação do lixo em suas residências, separando o lixo orgânico do inorgânico.

Nos primeiros seis meses do ano de 1999, em Cuiabá foram coletados, conforme se vê no quadro abaixo, lixo urbano e comercial os seguintes valores:

 

LIXO URBANO/COMERCIAL COLETADO NO 1º SEMESTRE DE 1999 EM CUIABÁ 

Meses

Jan.

Fev.

Mar.

Abr.

Maio

Jun.

Ton.

8.140,02

7.160,07

8.281,56

7.542,52

7.331,48

7.559,77

Fonte: Secretaria de Limpeza Urbana

 

Com base nos dados acima, a média do semestre de geração de resíduos sólidos em Cuiabá por mês é de 7.669,23 ton. Foi coletado em média no município 319,55 ton. de lixo por dia.

Considerando que a população de Cuiabá encontra-se conforme dados do IBGE/96 em 433.355 mil, temos uma produção per capita diária de lixo por habitante na ordem de 737,38 gramas por pessoas. O que confirma a média nacional exposta por Minc (1997, p. 55) que “os 150 milhões de brasileiros, em 1995, geram 700 gramas de lixo diário per capita”...

Assim, para minimizar o problema do lixo da Capital foram colocados em algumas áreas centrais e bairros, PEV’s (Postos de Entregas Voluntárias). Porém, todos já foram desativados, um que localizava-se ao lado da Lojas Riachuelo e o outro na Praça Alencastro, ambos na área central da cidade.

Segundo a senhora Kátia, os PEV’s são para os lojistas colocarem os resíduos secos, como papelão, papéis e plásticos. Sendo que, por ocasião da instalação dos PEV’s, foi distribuído folder explicativo dirigido aos comerciantes do centro da Capital, contendo informações sobre a correta utilização dos PEV’s, como separar o lixo ‘seco’ do orgânico, o horário da coleta, bem como a advertência que o não cumprimento desses procedimentos acarretaria a aplicação de multa no valor de R$ 43,86 (45,85) UFIR, por ser uma infração prevista no artigo 486 da lei complementar 003 de 24.12.92, que dispõe sobre o Plano Diretor de desenvolvimento de Cuiabá, podendo em casos de reincidência, ser cassado o Alvará de funcionamento do estabelecimento.

É ilustrativa a mensagem contida no folder que diz:

“Os esforços despendidos melhoraram a imagem de Cuiabá, que hoje é uma cidade limpa, para orgulho de todos nós. O lixo comercial mal embalado e exposto para coleta fora do horário estabelecido, causa transtornos e denigre a própria imagem do estabelecimento comercial. Participe efetivamente desta campanha, fazendo sua parte. Cuiabá agradece”. Roberto França Auad – Prefeito Municipal.

Vê-se que o texto contém algumas inverdades, pois a limpeza e a coleta de lixo é realizada de forma mais intensa e eficaz na área central da capital. Entretanto, nos bairros periféricos, a diferença pode ser percebida em face dos resíduos espalhados por terrenos baldios, ruas e alamedas que não recebem o mesmo tratamento, dada á área central.

Ocorre que, os comerciantes da área central - particularmente os donos de restaurantes, lanchonetes e bares -, depositavam nos PEV’s, o lixo orgânico, misturando com os demais resíduos, descumprindo a lei e demonstrando que não foram sensibilizado para a problemática ambiental relativo ao lixo.

Outrossim, outra dificuldade era que os mendigos, moradores de ruas, retiravam os plásticos e o papelão para fazerem abrigo para dormirem, bem como, defecavam, urinavam, vomitavam nos resíduos, dificultando o manuseio na hora da separação pelos funcionários da Usina de Compostagem.

Embora o esforço desenvolvido pela Secretaria de Limpeza Urbana, no que se refere à coleta do lixo na área central e nos demais bairros, ser considerado um serviço de qualidade pela pesquisa desenvolvida - conforme publicação no Diário de Cuiabá de 18/04/99 -, o que se vê são pequenos depósitos de lixos espalhados nas periferias e grandes avenidas que circundam Cuiabá.

Denota-se com esta constatação, que os moradores não estão suficientemente esclarecidos dos perigos causados pela má disposição do lixo. Suas condutas, não corresponde com a expectativa esperada pela sociedade, que é de ver a cidade adequadamente higienizada, proporcionando o bem estar de toda a coletividade.

Percebe-se que a solução para o lixo produzido pelos seres humanos transcende a ótica do consumo, envolvendo outras questões de ordem cultural, política, educacional e ambiental, na busca de soluções para a deposição final do lixo, pois é um problema planetário.

Logo, o esforço para resolução do problema relativo ao lixo urbano e rural, deverá englobar um bloco de segmentos que estejam dispostos a enfrentar o desafio de educar os atores sociais de forma continuada, através da educação formal, não formal e informal, para que possamos ter uma qualidade de vida digna, vivendo em sociedade.
 

IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS
 

O meio ambiente neste fim de século e do milênio ganhou  notoriedade, porque os seres humanos perceberam a necessidade de cuidarmos melhor do planeta sob pena de todos perecerem.

Somos sabedores que existem vários problemas na sociedade. São problemas complexos, onde as soluções exigem investimentos materiais e pecuniários significativos para sua solução.

O poder público é responsável pela atual situação de descrédito, onde milhões de pessoas estão desempregadas, não tem acesso a saúde, escola, transporte, segurança, moradia, lazer dentre outros.

Os políticos, salvo raríssimas exceções, não estão preocupados em buscar soluções a curto, médio e longo prazo, para resolverem os problemas.

Navegamos na onda das privatizações e, no entanto, a situação dos cidadãos não mudou, pois os interesses defendidos no parlamento não são os interesses da maioria e sim da minoria que domina o poder.

Desse modo, a busca de um ambiente saudável - onde a qualidade de vida dos moradores seja adequada - implica uma mobilização de vários setores da sociedade civil organizada ou não, para que possamos juntos promover trabalhos educativos e formativos de cidadania, que visem a mudança de comportamentos, hábitos de consumo, para que tenhamos um meio ambiente em condições de habitabilidade.

Conforme Minc (1997, p. 54), “O melhor critério para se aferir o padrão de qualidade de uma sociedade é avaliar a forma como ela trata as crianças, os velhos e os doentes mentais, como distribui a renda, como se alimenta e como trata seus rejeitos”.

Enfim, a discussão sobre o lixo é um ponto de partida para aqueles que estão envolvidos com a problemática ambiental ou não, pois todos nós somos responsáveis, conforme as nossas condutas pela deterioração da condição de vida do planeta.

Portanto, “as necessidades do planeta são as necessidades das pessoas (...) os direitos das pessoas são os direitos do planeta”. (ROSZAK apud CAPRA, 1999, p. 387).

 

V - BIBLIOGRAFIA
 

ANDRÉ, Marli E. D. A. e Lüdke Menga. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo, EPU, 1986.

CALDERONI, Sabetai. Os bilhões perdidos no lixo. 2ª ed. São Paulo, Humanitas, 1998.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo, Cultrix, 1999.

DIAS, A. Genebaldo Freire. Educação ambiental: princípios e práticas. 2º ed. rev. e ampl. São Paulo. Gaia, 1993.

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Anuário estatístico do Brasil, 1997.

IPDU – Instituto de Pesquisa e desenvolvimento Urbano –  Súmula de Informações Município de Cuiabá, 1999.

MINC, Carlos. Ecologia e cidadania. São Paulo, Moderna, 1997.

SMSU - Secretaria Municipal de Serviços Urbanos. Dados estatísticos, (mimeo), 1999.

SMSU - Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, SMADU - Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, PMC -Prefeitura Municipal de Cuiabá. Folder "Jogue Limpo com Cuiabá". s.d.

TRIVIÑOS, Augusto N. Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo, Atlas, 1987.

UNICEF -  Fundo das Nações Unidas para Infância – Jornal Em Ação, Rio de Janeiro, maio, nº 16, 1999.

 


1 Licenciado em Estudos Sociais, Geografia e Direito. Professor da Faculdade de Direito, UFMT. Mestrando em Educação, IE/UFMT.

2 Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Educação, IE/UFMT. Coordenadora do Curso de Mestrado em Ciências da Saúde da Universidade de Cuiabá (UNIC).

[1] Lixão: Local onde o lixo urbano ou industrial é depositado de forma rústica, a céu aberto, sem qualquer tratamento.

3 Segundo Maria da Glória Gohn (p. 100), se define a educação não formal por uma ausência, em comparação ao que há na escola (algo que seria não intencional, não planejado, não estruturado), tomando como único paradigma a educação formal.