O ele e o erre só trazem "compricação": um estudo das representações de / l / e / r / na escrita de crianças em processo de alfabetização

 

 

Cader Faisal Assad

Maria Inês Pagliarini Cox


 

Quando começa a escrever, a criança tende a estabelecer uma correspondência estrita entre os sons da fala e as letras, numa atitude semelhante à do lingüista ao fazer uma transcrição fonética. Segundo Silva (1991: 22), "isso decorre de seu desconhecimento das convenções ortográficas que regulamentam o uso alfabético dos símbolos". Quer dizer, no princípio da aquisição da escrita de sua língua, a criança constrói hipóteses sobre a representação dos sons principalmente a partir de seus conhecimentos da linguagem oral. Tendo esse pressuposto como baliza, procuramos, neste trabalho, descrever e compreender as representações gráficas que crianças em processo de alfabetização propõem para as líquidas / l / e / r /, quando figuram na posição de segunda consoante prevocálica ou de consoante posvocálica. Fazemos, em primeiro lugar, uma apresentação do processo de pesquisa. Em seguida, realizamos uma descrição lingüística stricto sensu, em termos fonéticos, fonotáticos e fonológicos, das consoantes / l / e / r / e procuramos levantar alguns aspectos sociolingüísticos que as envolvem. Por último, buscamos mostrar como crianças da classe de alfabetização observada escrevem/ transcrevem tais consoantes.

O processo de pesquisa

A pesquisa foi realizada numa sala de 2ª série de uma escola pública, localizada na cidade de Chapada dos Guimarães, num bairro de periferia, nascido há menos de dez anos na forma de "grilo". Para ele fluíram os chapadenses mais pobres, após venderem seus imóveis na região central para pessoas de Cuiabá que invadiram a cidade numa corrida imobiliária que agora já ameaça o próprio bairro-refúgio. O clima ameno da cidade, a deslumbrante paisagem natural, a abundância de cachoeiras propícias para banho e a proximidade com a Capital fazem da cidade uma excelente opção de lazer e descanso.

A escola está situada numa grande área. No pátio, há um pequeno jardim, constantemente destruído pelos alunos, e uma quadra de esportes descoberta, pouco usada pela falta de material desportivo. A escola começou suas atividades em 1992 num espaço pequeno e foi se ampliando à medida que o bairro se expandia. Atualmente conta com doze salas de aula. Pela manhã atende turmas de 4ª a 8ª série do 1º grau e 1º ano do 2º grau; à tarde atende turmas regulares de 1ª a 3ª série do 1º grau e turmas de aceleração; à noite atende turmas de propedêutico e de suplência de 1º e 2º grau.

A sala de 2ª série regular, onde foi desenvolvida a pesquisa, tem janelas grandes com vidros pintados (para não concorrer na atenção à professora) e estão sempre fechadas. A professora mantém a porta também fechada pelo mesmo motivo. Os ventiladores de teto funcionam sem a eficácia necessária. As carteiras não são uniformes: há as conjugadas (cadeira com apoio para escrever) e as separadas ( cadeira independente da mesa). As mesas, em número insuficiente, são, às vezes, partilhadas por mais de uma criança ao mesmo tempo o que torna o trabalho difícil. A lousa ocupa quase toda a extensão da parede frontal. A professora não tem mesa e usa também uma carteira destinada aos alunos.

A professora é jovem. Leciona há três anos na 2ª série do 1º grau. Fez o curso de magistério em um colégio da própria Chapada. Não é efetiva, como a maioria dos professores da escola. Mora no extremo oposto da cidade e tem que utilizar ônibus para chegar ao local de trabalho. O salário mal dá para suas despesas pessoais. É do tipo enérgico: dá muitas "broncas" e garante a disciplina durante as aulas. Cumpre as atividades de sala de aula mecanicamente, sem se preocupar com os resultados. Sua linguagem assemelha-se à usada pelas crianças. Contudo, na escrita, exige o português padrão e privilegia a forma, sem se preocupar com o texto – ortografizar é a meta.

Os vinte alunos, com idade entre 8 e 10 anos, provêm de famílias carentes do próprio bairro. Seus pais são operários da construção civil ou exercem outras profissões braçais cujo rendimento não ultrapassa dois salários mínimos. A maioria dos pais não sabe ler/escrever, o que limita bastante o contato com a cultura escrita fora da sala de aula. Alguns pais "fumam" o caderno de seus filhos: a professora explicou que não é raro o aluno relatar que o pai tirou folha de seu caderno para fazer cigarro. Algumas crianças ajudam nos afazeres domésticos e a maioria se diverte brincando nas ruas e nos quintais do bairro: "na rua eu brinco com meus amiquinho eu converso bastanti e eu fasso amigos"(J. F.); "eu brinco, corro pulo na rua"(S.B); "Na rua eu jogo bola"(M.R.). Muitas têm problemas nutricionais como raquitismo e anemia. O lanche, servido todos os dias, é momento de grande alegria para a criançada. O aprendizado não é uniforme na turma: algumas já lêem e escrevem bem, outras tateiam com grande dificuldade a aprendizagem da escrita.

A pesquisa empírica na sala de aula, de natureza qualitativa, durou três meses. Para a coleta de dados, expusemos à professora regente da classe os objetivos da investigação e a consultamos sobre a possibilidade de realizar atividades de produção de textos espontâneos com as crianças. Mediante consentimento da professora, passamos a freqüentar as aulas. Sempre que havia oportunidade, examinávamos os cadernos das crianças e anotávamos os casos de grafias discrepantes das convenções. Quando a professora, por algum motivo, precisava faltar, assumíamos a turma e, então, realizávamos atividades de produção de textos espontâneos. Os textos espontâneos, propiciando o registro da expressividade própria do discurso oral, constituem um material rico para pesquisas dessa natureza. Colecionamos em torno de cem textos. À medida que íamos coletando os dados, íamos simultaneamente categorizando os casos de grafias discrepantes que apareciam na escrita das crianças. Para este trabalho, selecionamos apenas aqueles casos envolvendo a representação escrita de / l / e / r / nos encontros consonantais tautossilábicos e nas posições posvocálicas.

As consoantes / l / e / r / do ponto de vista fonético

As consoantes / l / e / r / são, do ponto de vista articulatório, muito próximas, podendo, por isso, intercambiar-se ou fundir-se na história das línguas. Na literatura lingüística são designadas como consoantes líquidas (Schane,1975: 38-39), o que revela o mútuo parentesco com as vogais. Em algumas línguas, / l / e / r / podem ocorrer no centro da sílaba a exemplo das vogais. No quadro da fonologia clássica, tais consoantes são comumente descritas assim:

 

/ l /

/ r /

Ponto de articulação

alveolar

Alveolar

Modo de articulação

lateral

Vibrante

Ressonância

oral

Oral

Vibração laríngea

sonora

Sonora

 

Na leitura desse quadro, fica evidente que tais consoantes diferem apenas quanto ao modo de articulação. Enquanto a primeira é lateral (o som é produzido à medida que o ar escapa pelos lados de um obstáculo formado no centro da cavidade bucal pelo contato do ápice da língua com os alvéolos), a segunda é vibrante simples (o som é produzido à medida que o ar escoa por uma passagem estreita formada por um toque rápido do ápice da língua contra os alvéolos).

Tomando como base os traços fonológicos binários propostos por Chomsky e Halle (1968) no escopo da gramática gerativo-transformacional, pode-se apresentar uma matriz descritiva para tais fones, de modo a tornar ainda mais óbvias as semelhanças entre eles:

 

 

/ l /

/ r /

soante

+

+

contínua

+

+

anterior

+

+

coronal

+

+

sonora

+

+

nasal

_

_

lateral

+

_

 

As consoantes / l / e / r / do ponto de vista fonotático

Essas duas consoantes assemelham-se não apenas do ponto de vista segmental, mas também do ponto de vista fonotático. Na sílaba, ocupam praticamente as mesmas posições. Ambas podem:

figurar sozinha na posição prevocálica, / l / no começo e no meio de palavras e / r / apenas no meio.

Consoante

início de palavra

meio de palavra

[ l ]

[’latŒ ]

[‘malŒ ]

[ r ]

_

[‘karŒ ]

figurar como a segunda consoante prevocálica em encontros consonantais tautossilábicos.

Encontro consonantal

Início de palavra

Meio de palavra

[ pr ]

[ ‘pratu ]

[ a’pras ]

[ pl ]

[ ‘plewrŒ ]

[ a’plikŒ ]

[ br ]

[ bra’ziw ]

[ ‘abri ]

[ bl ]

[ ‘bl ku ]

[ pro’blemŒ ]

[ tr ]

[ ‘tratu ]

[ a’tras ]

[ tl ]

___

[ ‘atlŒ s ]

[ dr ]

[ ‘dragŒ ]

[ ‘kwadru ]

[ dl ]

___

[ ‘adler ]

[ kr ]

[ ‘kravu ]

[ ‘akri ]

[ kl ]

[ ‘klavi ]

[ eskle’r zi ]

[ gr ]

[‘gravi ]

[ ‘magru ]

[ gl ]

[ ‘globu ]

[eN ’gl bu ]

[ fr]

[ ‘fraku ]

[ ‘afru ]

[ fl ]

[ ‘flor ]

[ a’fluj ]

[ vr]

___

[ ‘livru ]

[ vl ]

[ vladi’mir ]

____

Quadro montado a partir de Cristófaro Silva (1999:156).

Os encontros consonantais com / r / são mais freqüentes na língua portuguesa. Pode-se mesmo dizer que aqueles com / l / constituem formas congeladas que sobreviveram através do freio imposto artificialmente por convenções ortográficas que interromperam, na modalidade escrita, a tendência natural do português ao rotacismo na modalidade oral. São combinações não mais produtivas na língua em seu estágio atual.

figurar na posição posvocálica, em sílabas travadas por consoantes, quer no meio quer no fim da palavra

Consoante

Meio de palavra

Final de palavra

[ l ]

[ ‘sa vŒ ]

[ ‘sa ]

[ r ]

[ ‘partu ]

[ ‘par ]

 

As consoantes / l / e / r / do ponto de vista fonológico

Apesar da semelhança do ponto de vista articulatório e fonotático, as consoantes / l / e / r / constituem fonemas distintos no português, uma vez que podem contrastar em ambiente idêntico. Aplicando-se o princípio da comutação a pares mínimos idênticos ou análogos de palavras, observa-se que a troca de / l / por / r / implica em mudança de significado. Isso pode ser observado através dos exemplos abaixo:

/ ‘mal // ‘mar / / ‘klava // ‘krava /

/ ‘kala // ‘kara / / ‘atlas // a’tras /

 

As consoantes / l / e / r / do ponto de vista sociolingüístico

Essas consoantes também se parecem quanto ao potencial de variação sociolingüística. Ambas estão sujeitas a inúmeros processos de variação dialetal. Por vezes até se fundem num único fone, neutralizando os traços contrastivos.

O fonema / l /, quando funciona como segunda consoante prevocálica nos encontros consonantais tautossilábicos, está sujeito, no português não-padrão (PNP), ao processo de rotacismo ( l => r). Formas como [‘kraru], [‘krawdiŒ ], [‘froku] são muito comuns no PNP. Segundo Bagno (1997:38-43), o português marca-se por essa inclinação ao rotacismo desde sua aurora. Na passagem do latim ao português, o processo agiu intensamente convertendo formas como ecclesia-, plaga-, esclavu-, fluxu- em igreja, praia, escravo, frouxo, para citar alguns poucos exemplos. Os Lusíadas, escrito por Camões no séc. XVI, é farto de formas – frauta, frecha, ingrês, pranta etc – que atestam a ação do rotacismo. Todavia, pensa-se que o desejo de recuperar a forma latina tenha feito com que, num momento da história do português, gramáticos e escritores fixassem a grafia de certos encontros consonantais com a letra { l }, a despeito da flutuação fonética [ l ] ~ [ r ] que apresentassem na pronúncia. No PNP, contudo, o rotacismo é um processo em franca atividade, principalmente entre falantes cuja identidade combine a pertença à classe baixa, origem rural e escolarização mínima ou inexistente. Por correlacionar-se com falantes com uma identidade social marginalizada, o rotacismo é um traço lingüístico altamente estigmatizado. É o índice, por excelência, do dialeto caipira. No falar cuiabano, esse fenômeno é mais geral do que no resto do Brasil. Mesmo falantes da classe alta, bem escolarizados e de origem urbana tendem a pronunciar o / l / dos encontros consonantais como [ r ]. No escopo do falar cuiabano, apenas aquelas pessoas que tem uma alta consciência do rotacismo e, principalmente, do estigma que paira sobre ele, evitam-no.

O fonema / l /, em posição posvocálica, apresenta, igualmente, inúmeros alofones nas variedades lingüísticas que constituem o português do Brasil.

O fonema / l / se realiza como [ É  ], uma lateral velarizada, em variedades lingüísticas faladas no Sul do Brasil, principalmente em cidades do interior de colonização alemã e italiana. Segundo Vandresen (1999: 71), o processo de vocalização de / l / está bem adiantado nas capitais. Ex.: /’sal/ => [‘saÉ ], /’salvo/ => [‘saÉ vu]

O fonema / l / se realiza como [ w], uma semivogal posterior, em praticamente todas as variedades lingüísticas do Brasil, excetuando-se aquelas faladas no Sul onde se dá o fenômeno da velarização. Ex: /’sal/ => [‘saw], /’salvo/ => [‘sawvu]

O fonema / l / também nessa posição silábica está sujeito ao fenômeno do rotacismo, realizando-se como [ r ], uma vibrante simples alveolar, em variedades lingüísticas do PNP como dialeto caipira, falar cuiabano, já mencionadas acima. Ex: /’sal/ => [‘sar], /’salvo/ => [‘sarvu]

O fonema / l / pode se realizar como [ 0 ]. Após sofrer o processo de rotacismo, está sujeito ao mesmo fenômeno que suprime o [ r ] posvocálico no final de palavras convertendo sílabas travadas em sílabas abertas. Ex: /a’nE l/ => [a’nE r] => [a’nE ]

O fonema / r /, em posição posvocálica, não é menos camaleão do que / l /. Aliás, o potencial variacionista de / r / é uma constante não só entre as variedades de português mas também entre as variedades de outras línguas.

O fonema / r / pode se realizar como [¨ ], uma vibrante retroflexa. Essa pronúncia é típica do dialeto caipira falado na região de Piracicaba. Ex. / ‘parto / => [‘pa¨ tu ]

O fonema / r / pode se realizar como [ x ], uma fricativa velar. Essa pronúncia é típica do dialeto carioca. Ex. / ‘parto / => [‘paxtu ]

O fonema / r / pode se realizar como [ r ], uma vibrante dental. Essa pronúncia é ouvida em muitas variedades do português falado no Brasil. É um fone intermediário entre o retroflexo [ ¨  ] e o tepe ou vibrante simples [ R ] bastante comum no português falado em Portugal. Ex. / ‘parto / => [‘partu ]

O fonema / r / pode ser suprimido quando ocorrer no final de palavra. Essa pronúncia é comum a todas as variedades lingüísticas do português brasileiro quando usadas em registro coloquial. Ex. / fa’lar / => [ fa’la ]

O fonema / r / pode se realizar como [ l ]. Esse fenômeno, conhecido com lambdacismo, é pouco comum sincronicamente. Costuma ocorrer entre falantes do português não-padrão, em situações de interação que exigem uma fala mais cuidada. É uma forma de hipercorreção. Ex. / ‘garfo / => [‘galfu ] => [‘gawfu ]

 

As representações de / l / e / r / na escrita das crianças

Nesta seção procuramos mostrar como as crianças em processo de alfabetização inscrevem na escrita suas singularidades dialetais no tocante à pronúncia das consoantes / l / e / r /. É como se suas vozes ressoassem por entre as letras.

Grafias que atestam o fenômeno do rotacismo ( l => r ) em posição prevocálica e posvocálica. Esse traço, além de indicar que as crianças pertencem às camadas mais pobres e menos escolarizadas da população, indica também a pertença à comunidade cuja língua materna é o falar cuiabano, onde o rotacismo age mais intensamente, para além das fronteiras de classe social:

"Eu não gosto de aprender as coisas de rua por que as coisas de rua só traz compricação para nós".

"(...) fui no crube do framengo de bicicreta"

"(...) ela seco e eu prantei otra"

"Era uma vez o menino foi pra uma froresta até que um dia..."

"O gato rasgo a armofada de argodão."

"O menino deu um parpite sobre a lua."

Grafias que atestam a semivocalização ( l => w ) em posição posvocálica. Trata-se de um fenômeno de largo espectro. Age vigorosamente em todas as variedades de português faladas no Brasil, exceto no falar sulista. Aliás, é um dos traços que diferencia o português falado no Brasil daquele falado em Portugal.

"(...) i tem mais augum dia eu falei para minha irmã..."

"O menino deu um paupiti sobre a lua."

"O gato rasgou a aumofada de augodão."

"Maria está fazendo o enchovau."

Diante das freqüentes correções que sofrem por trocar a letra {l} pela letra {u}, em desacordo com as convenções ortográficas, as crianças, não raro, começam a grafar com {l} a semivogal [ w ], que é grafada convencionalmente com {u}, produzindo formas hipercorrigidas como: 

"(...) o toquinho cantol uma musica linda ele arazol."

"O rei tomou água de coco andol de barco andol de barco em Pequim."

"Até que encontrol um pasarim que gostou dele."

Grafias que atestam a supressão de / r / em posição posvocálica no final de palavra. Trata-se de um processo fonológico também bastante produtivo nas variedades de português faladas no Brasil, à semelhança de outros processos que convertem sílabas travadas em sílabas abertas. Em situação informal, praticamente todos os brasileiros suprimem o / r / final, a não ser aqueles que se esmeram em falar nos "esses" e nos "erres", em falar ortograficamente.

"Na escola eu aprendo a le e escreve."

"(...) sempre tem que respeita os mais veios."

"Em casa eu aprendo passa pano no chão."

"(...) um fio de cabelo vai vira paçarrinho."

À medida que a escolaridade progride e o contato com a escrita se intensifica, os rumores das vozes das crianças vão desaparecendo. Podem falar [‘kraru], [‘maw], [‘mar], [a’ma], mas escreverão "claro", "mal" e "amar". A escrita vai se tornando asséptica, vai apagando as marcas singulares da subjetividade do escrevente, vai se universalizando. Esse desenraizamento é o preço que se paga para se ter o direito de falar e ser ouvido para além dos limites do próprio quintal.

Algumas considerações finais

Este estudo revela que a escrita das crianças realiza uma anamnese do princípio básico do sistema alfabético em sua origem. Tal como os primeiros escribas, as crianças representam os sons da própria fala, imprimindo no papel seu traços dialetais. Jogando com as palavras, ousarámos dizer que na escrita dos infantes, assim como na infância da escrita, há uma relação umbilical entre som e letra. Como sugerem Cox e Assis-Peterson (1999:138), as crianças em processo de alfabetização interagem com a escrita a partir de um saber epilingüístico produzido pela e produtivo da fala, um saber que não se erige sobre a palavra vista/lida, mas sobre a palavra ouvida/falada. O distanciamento em relação à própria fala, necessário para se escrever de acordo com as convenções ortográficas, é decorrente do convívio mesmo com a escrita. Quanto mais o convívio e a interação com a escrita se intensificam, tanto mais possibilitam a consciência e o distanciamento em relação às línguas da infância aprendidas no colo da mãe, no burburinho de vozes familiares. É um difícil e doloroso aprendizado, como que um segundo parto, que não se faz sem deixar cicatrizes.

Antes que as convenções ortográficas fossem estabelecidas, desvinculando a forma escrita do modo como era pronunciada pelos falantes e instituindo o princípio do um sobre o múltiplo, escritores, gramáticos e homens de Letras em geral podiam errar a língua e errar na língua escrita. À guisa de rememoração desse momento da história da escrita alfabética, trazemos aqui as grafias múltiplas para a palavra "linguagem", encontradas na primeira gramática da língua portuguesa, escrita por Fernão de Oliveira, em 1536. Encontram-se no texto três grafias diferentes: linguage, lingoagem e linguagem.(Oliveira, apud Cox, 1994: 12). Se os gramáticos puderam escrever a própria fala, por que não permitir que os aprendizes da escrita também o façam? Que este estudo possa soar entre aqueles que se ocupam da tarefa de ensinar a ler e escrever como um convite para que liberem seus alunos, sem a caneta vermelha em punho, para errar a língua e errar na língua escrita antes de serem imobilizados pelas "fôrmas" ortográficas!

 

RESUMO

Quando começa a escrever, a criança tende a estabelecer uma correspondência estrita entre os sons da fala e as letras, numa atitude semelhante à do lingüista ao fazer uma transcrição fonética. Partindo deste conhecimento, este estudo tenta descrever e explicar as representações gráficas que algumas crianças usam para simbolizar os fonemas /l/ e /r/ como uma segunda consoante prevocálica ou posvocálica quando estão aprendendo a ler e escrever.

 

ABSTRACT

When the child starts to write, she establishes a strict correspondence between the sounds of speech and the letters of the alphabet similarly to the linguist doing a phonetic transcription. Starting from this knowledge, this study attempts to describe and explain the graphic representations some children use to symbolize the phonemes /l/ and /r/ as a second prevocalic consonant or postvocalic when they are learning how to read and write.

 

Referências Bibliográficas

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CHOMSKY, N. & HALLE, M. The Sound Pattern of English. New York: Harper & Row, 1968.

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SCHANE, S. A. Fonologia Gerativa. Rio de Janeiro: Zahar, 1975

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VANDRESEN, P. Visão Panorâmica da Variação no Português Falado na Região Sul. In: Hora, D. e Christiano, E. Estudos Lingüísticos: Realidade Brasileira. João Pessoa: Idéia, 1999, p. 63-82