Teoria das Representações Sociais: uma abordagem alternativa para se compreender o comportamento cotidiano dos indivíduos e dos grupos sociais

 

 

Wilse Arena da Costa*

Angela Maria de Oliveira Almeida**


 

Este estudo tem por objetivo apresentar as origens epistemológicas da Teoria das Representações Sociais, bem como sua natureza e dimensões metodológicas.

Trata-se de uma abordagem psicossocial do conhecimento que busca uma compreensão do homem na sua totalidade, ou seja, enquanto um ser que pensa, age e sente por meio de uma relação dialética com o meio circundante.

1.1. Considerações históricas

Apesar de outros teóricos já terem trabalhado com o conceito representações, foi Serge Moscovici quem, em 1961, fê-lo ressurgir, buscando renovar e confirmar a especificidade da Psicologia Social, a partir de estudos que pudessem explicar como se dá a mediação entre o individual e o social, negando, assim, explicações essencialmente sociais como em Durkheim, ou as essencialmente cognitivistas, como em Piaget.

Moscovici (1984b), ao tentar recuperar historicamente o conceito de representações sociais, afirma que esse passou por diferentes fases, sendo que os estudiosos da primeira fase estavam mais preocupados com o caráter coletivo das representações do que propriamente com seu conteúdo ou sua dinâmica. Na primeira fase destacam-se: Simel, Weber e Durkheim. Se, para Simel, a representação era o operador que permitia ações recíprocas entre os indivíduos, para Weber ela era o vetor da ação dos indivíduos, ou seja, a representação seria um saber comum com poder de antecipar e prescrever o comportamento dos indivíduos.

Já Durkheim, primeiro a se utilizar do conceito de representações, partia do princípio de que a ciência, para estudar as representações, tinha que reconhecer a oposição entre o individual e o coletivo. Isso porque, para ele, o substrato da representação individual era a consciência própria de cada um, sendo, portanto, subjetiva, flutuante e perigosa à ordem social. Por outro lado, o substrato da representação coletiva era a sociedade em sua totalidade e, por isso, seria impessoal e ao mesmo tempo permanente, garantindo, assim, a ligação necessária entre os indivíduos e, consequentemente, a harmonia da sociedade.

A segunda fase dos estudos sobre as representações é marcada pelos trabalhos de Lewy-Bruhl, passando por Piaget e Freud, os quais passam a dar mais valor à dinâmica dessas representações do que a seu caráter coletivo.

Na tentativa de superar a oposição entre representações coletivas e individuais, defendidas por Durkheim, Lewy-Bruhl chama a atenção para a coerência dos sentimentos, raciocínios e movimentos da vida mental coletiva. Na opinião de Lewy-Bruhl, os indivíduos sofrem influências da sociedade, na qual estão inseridos e, por isso, exprimem sentimentos comuns, o que ele chama de representação. Para esse autor, o que difere uma sociedade de outra não é o grau de inteligência de seus membros, mas o tipo de lógica de que cada uma se utiliza para pensar sua realidade concreta.

Em relação aos estudos de Lewy-Bruhl sobre as representações, Moscovici (1989) diz que embora aquele autor tenha representado um avanço, face aos estudos da época, superando Durkheim, acabou caindo em outra oposição: entre os mecanismos lógicos e psicológicos das representações.

Quanto à Piaget, Moscovici (1989) afirma que esse, ao defender que as diferenças entre as crianças e os adultos não eram uma questão de competência, mas de formas de pensar diferentes, transfere para o indivíduo o princípio de Lewy-Bruhl, quanto às diferenciações lógicas das formas de pensar entre diferentes tipos de sociedades, trazendo grandes contribuições para a compreensão dos aspectos psíquicos da representação social. Piaget estaria preocupado com os aspectos lógicos e biológicos do desenvolvimento da criança.

Freud, por sua vez, ao desenvolver estudos sobre paralisia histérica e tratamento psíquico, estava preocupado em mostrar como as representações passam do coletivo para o individual e como o social intervém na representação individual. Para Moscovici (1989), é Freud quem põe às claras o trabalho de interiorização que transforma o resultado coletivo em dado individual e marca o caráter da pessoa. O caráter seria a expressão de teorias concebidas pelas crianças, inicialmente junto à família e que, progressivamente, vão sendo substituídas por outras, à medida em que as crianças vão ampliando o universo de suas relações sociais.

Assim, foram, sobretudo, os estudos de Durkheim, Piaget e Freud que levaram Moscovici (1989) a retomar o estudo das representações, praticamente abandonado durante quase meio século, após ter sido o fenômeno mais marcante da ciência na França.

Em seu estudo epistemológico sobre o fenômeno das representações, Moscovici (1989) nos mostra que algumas ciências como a sociologia, a antropologia, a psicologia clínica e a social, desde cedo se preocuparam em compreender o pensamento e a conduta "irracional" dos indivíduos e suas transformações no tempo. Entretanto, Moscovici considera que, apesar das contribuições dos estudos realizados por essas ciências, eles apresentam resultados fragmentados, uma vez que as pesquisas permaneceram fechadas em um ou outro domínio específico: ora iam do caráter coletivo das representações à sua dinâmica, ora iam dos substratos psíquicos às origens e interiorização das mesmas, sem contudo, se preocuparem com a comunicação que permite os indivíduos convergirem, de sorte que alguma coisa de individual passa se tornar social e vice-versa.

Partindo, pois, dos limites provocados pela inflexibilidade da própria noção de representação e pela dispersão das pesquisas realizadas pelas diferentes ciências, até então, Moscovici (1989) conclui que, tanto a sociologia, quanto a antropologia e a psicologia social, têm muitas contribuições a dar ao estudo das representações. Isso porque, segundo ele, se as representações são geradas no social e reelaboradas pelo indivíduo, não são os substratos que devem nos interessar, mas a ação, o movimento, ou seja, as interações entre o individual e o social.

Para demonstrar as diferenças entre a forma sociológica de psicologia social, que caracteriza a Teoria da Representações Sociais, de Moscovici, e aquelas predominantes nos Estados Unidos da América, Farr (1994) sintetiza os níveis de teorização em psicologia social, a partir das contribuições de Wundt, Durkheim, Le Bon, Freud, Saussure, Mead, Mac Dougall e F. H. Allport. Na opinião desse autor, todos esses estudiosos contribuíram para que Moscovici, em 1961, pudesse "modernizar" a psicologia social e isso é uma prova de que Moscovici não desenvolveu sua teoria num vazio cultural.

1. 2. Considerações teóricas

Em prefácio à coletânea de estudos sobre as representações sociais, organizada por Guareschi e Jovchelovitch (1994b), Moscovici reafirma a origem transdisciplinar da Teoria das Representações Sociais, por meio de uma analogia à história de formulação do conceito de átomo e genes:

O conceito de átomo, durante dois mil anos, e o de genes, durante mais ou menos um século, foram elementos explicativos e abstratos nas teorias físicas e biológicas. O conceito de representação social foi um conceito semelhante nas teorias sociológicas e antropológicas. E, todos o sabemos, a teoria dos átomos e a teoria dos genes - da hereditariedade - não são mais que o produto recente de duas ciências ‘híbridas’, a física atômica e a biologia molecular. É assim também que a teoria das representações sociais procura renovar e confirmar a especificidade da Psicologia Social.

Como o foi para a física e para a biologia molecular, complementa Moscovici (1994b), o caminho percorrido não foi fácil, pois o desafio era superar o enfoque individualista da psicologia e o enfoque coletivista da sociologia e da antropologia, utilizando essas mesmas ciências como auxiliares. Moscovici considerou que o social só existe se existir um sujeito e que o sujeito só existe no social. Essa interação dialética entre ambos é que foi tomada por Moscovici como ponto de partida para a formulação da Teoria das Representações Sociais.

A "novidade" dessa teoria, contudo, não está no reconhecimento da interação entre indivíduo e meio. Interessava a Moscovici (1976), a interface dessa relação, uma vez que a representação é uma construção do indivíduo, mas sua origem é social, e mais, seu destino também é social. Assim, para Moscovici, a questão não era estudar um ou outro aspecto da relação entre sujeito e meio social, nem tão pouco constatar que, nessa relação, o indivíduo vai ampliando suas capacidades cognitivas, motoras, etc. Importava, sim, entender o dinamismo dessa relação, ou seja, como o social interfere na elaboração das representações sociais dos indivíduos e como estas interferem na elaboração das representações sociais do grupo a que pertencem.

É, pois, no âmbito da Psicologia Social que Moscovici (1976) chega à definição de que a representação social não é nem o coletivo, nem o inconsciente, mas a ação, o movimento de interação entre as pessoas. As representações sociais constituem-se em uma forma de conhecimento individual que só ocorre na interação com "o outro", no mesmo momento em que esta interação se dá. Enfim, as representações sociais dizem respeito ao universo de opiniões construídas, rerelaboradas e redimensionadas pelos indivíduos, em relação a um determinado objeto social, de acordo com a história de vida de cada um. Essa relação dialética entre individual e social é que levou Moscovici (1978, p. 65) a concluir que:

"(...) a estrutura de cada representação aparece desdobrada; possui duas faces tão pouco dissociáveis co-mo o verso e o reverso de uma folha de papel: a cara figurativa e a cara simbólica. Dizemos que: Representação  =  Figura 

Sentido

o que significa que a representação faz com que à figura corresponda um sentido e a todo sentido corresponda uma figura."

Esta visão sociológica do indivíduo e individual do coletivo é que expressa o avanço de Moscovici, em relação às abordagens unilaterais da psicologia e da sociologia, ainda predominantes em meados do século XX.

Em seu estudo sobre a psicanálise, Moscovici (1961) parte do princípio de que o conhecimento é produto e processo de construção do homem e, como tal, se transforma através do tempo. Além disso, da mesma forma que existem resistências para a aceitação de novos conhecimentos nos círculos fechados de especialistas, também existem resistências para a sua aceitação em domínio público mais amplo. A diferença é que, enquanto no contexto de sua produção, a resistência ao "novo" se dá em função de pressupostos teóricos e metodológicos (e também em função deles a mesma é superada), em territórios públicos, essa resistência se dá em função de critérios culturais, diferenciando-se, portanto, de um grupo a outro. Isso faz com que o conhecimento assuma formas e significados multifacetados, dependendo do modo pelo qual ocorre o processo de difusão, propaganda e propagação entre os diferentes segmentos culturais que compõem a sociedade. Esse conhecimento (re)criado, em função de sistemas próprios de valor, Moscovici denominou de representações sociais.

Moscovici (1984a, p.181) esclarece o que entende por representações sociais:

"...por representações sociais queremos indicar um conjunto de conceitos, explicações e afirmações interindividuais. São equivalentes, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; poder-se-ia dizer que são a versão contemporânea do senso comum."

Estudiosa do fenômeno das representações e uma das principais colaboradoras e difusora das idéias de Moscovici, Jodelet (1989) considera que a representação social diz respeito à maneira como nós, sujeitos sociais, apreendemos os acontecimentos da vida cotidiana, as informações do nosso contexto, os acontecimentos, as pessoas, etc., ou seja, diz respeito aos conhecimentos que acumulamos a partir de nossa experiência, das informações, saberes e modelos de pensamento que recebemos e transmitimos pela tradição, pela educação e pela comunicação social.

A representação social refere-se à maneira do indivíduo pensar e interpretar o cotidiano, ou seja, constitui-se em um conjunto de imagens, dotado de um sistema de referência que permite ao indivíduo interpretar sua vida e a ela dar sentido.

Dois processos maiores, responsáveis pela formação das representações sociais mostram a interdependência entre atividade psicológica e as suas condições sociais de exercício, ou seja, como o social se transforma em representação e como esta transforma o social: a objetivação e a ancoragem.

Jodelet (1984) afirma que, de acordo com a Teoria das Representações Sociais, a objetivação é o processo pelo qual o indivíduo reabsorve um excesso de significações, materializando-as, ou seja, é um processo de construção formal de um conhecimento, pelo indivíduo. São componentes desse processo a seleção e descontextualização, a formação do núcleo figurativo e a naturalização.

O primeiro componente, a seleção e descontextualização, é um fenômeno que se dá em função de critérios culturais, uma vez que em uma sociedade de classes nem todos os grupos têm o mesmo acesso às informações. Sendo assim, as mesmas são apreendidas pelo público de forma fragmentada, distorcida da sua origem, mas acessível ao conhecimento popular.

O segundo, o núcleo figurativo, está relacionado ao processo psíquico interno pelo qual o indivíduo procura tornar um fato, objeto e/ou conhecimento novo, em algo familiar coerente com o referencial que já traz consigo, e para isso, forja uma visão do objeto que seja coerente com sua visão de mundo.

O terceiro componente, a naturalização, que decorre da formação do núcleo figurativo, vai permitir ao indivíduo materializar os elementos das ciências em elementos da sua realidade de senso-comum. Naturalizando os esquemas conceituais, o indivíduo dota-os de uma realidade própria, de um significado próprio, coerente com as suas capacidades de compreensão, bem como com suas necessidades de eliminar qualquer contradição que fragilize a base de suas representações sociais já cristalizadas.

Em síntese, o corpus de conhecimento elaborado no seio das representações sociais nega o conflito cognitivo e, para isso, lança mão de uma estrutura psíquica que evoca elementos mais arraigados na cultura, na tradição, ou seja, a representação social é uma atividade de reestruturação cognitiva do indivíduo, através da qual, ele explica e justifica a identidade que forjou de si mesmo para ser aceito em um grupo ou para justificar a sua não inserção em um dado grupo.

Tratando-se, pois, de uma construção formal do conhecimento, a objetivação orienta as percepções e os julgamentos do indivíduo em uma realidade socialmente construída. Porém, segundo Jodelet (1989), a objetivação não garante a inserção orgânica desse conhecimento. É o processo de ancoragem, em relação dialética com a objetivação, que vai garanti-lo, através da articulação das três funções basilares da representação da realidade: função cognitiva de integração da novidade; função de interpretação da realidade e função de orientação das condutas e das relações sociais.

O processo de ancoragem se decompõe, ainda, em diferentes modalidades, e o estudo mais aprofundado dessas modalidades é que permite ao cientista apreendê-lo.

A ancoragem, como consignação de sentido, está relacionada ao jogo de significações externas que incidem sobre as relações estabelecidas entre os diferentes elementos da representação. Isso porque os conteúdos de uma representação estão vinculados à significação que um dado objeto, fato, fenômeno ou idéia tem para determinados grupos sociais. Daí que a um mesmo objeto se inscrevem diferentes perspectivas, encarnando diferentes sistemas de valores ou de contravalores, dependendo da inserção social e cultural dos indivíduos.

Já a ancoragem, como instrumento do saber, é uma modalidade que permite compreender como os elementos da representação não só exprimem relações sociais, mas, também contribuem para construí-las. Isso porque, a representação forjada no grupo acaba servindo a seus agentes como instrumento referencial que permite comunicar e influenciar aqueles que compartilham de seu grupo, tornando os elementos da representação social chaves de leitura, generalização e teoria de referência para compreender a realidade daquele grupo.

É a explicitação do elo existente entre a objetivação e a ancoragem que nos permite compreender determinados comportamentos, pois o núcleo figurativo da representação depende da relação que o sujeito mantém com o objeto e da finalidade da situação. Assim, no interior de uma comunidade, de acordo com suas experiências e tradição, a veiculação das concepções acerca de objetos da realidade se torna tão intrínseca em todos os seus membros que os sujeitos são levados a se comportarem, diante de determinados objetos, segundo as representações atribuídas pelo grupo àquele objeto.

Outra característica decorrente da relação entre ancoragem e objetivação, apontada nos estudos realizados por Jodelet (1989), é o fato de que ao materializar mentalmente um objeto, na forma de representação social, esse se cristaliza e é traduzido em operações de pensamento e ação na interação cotidiana com o mundo.

Entretanto, é preciso considerar que o fato das representações sociais terem origem nas condições sócioestruturais e sócio-dinâmicas de um grupo, não impede que os indivíduos dêem a essas representações um toque singular, uma vez que cada um está sujeito a experiências particulares, embora faça parte de um mesmo grupo social, o que, por sua vez, possibilita percepções e apreensões diferenciadas de um objeto, em relação a outros indivíduos de seu grupo.

Sendo assim, cada indivíduo vai formando um sistema de pensamento diferenciado e, ao mesmo tempo, coerente com o sistema de pensamento do grupo ao qual pertence. Esse sistema de pensamento é utilizado, tanto pelo indivíduo como pelo grupo, como referência para a interação positiva, ou negativa, de um novo objeto. Daí a afirmação de Jodelet de que a representação social não se inscreve numa tabula rasa, ou seja, há sempre um sistema de representação antigo, algo já pensado, latente ou manifesto, que em contato com outros sistemas de pensamento sofre seus efeitos mudando seu conteúdo e suas percepções.

É a ancoragem, portanto, que assegura o elo entre a função cognitiva de base da representação e a sua função social, bem como fornece à objetivação os elementos imaginativos para servir na elaboração de novas representações.

Estas considerações sobre as representações sociais, permitem perceber que, embora uma representação se construa em torno de objetos precisos, reais ou imaginários, ela não pode ser apreendida no isolamento ou na dicotomia entre o que se pretende captar e analisar e o viver concreto dos sujeitos.

A respeito da organização interna das representações sociais, Abric (1994a) também tece algumas considerações importantes. Segundo esse autor, toda representação social é organizada em torno de um núcleo central - que unifica e dá sentido ao conjunto de uma representação - e de alguns elementos periféricos, que permitem certa flexibilidade à mesma.

O núcleo central diz respeito àquelas representações construídas a partir de condições históricas particulares de um grupo social, ou seja, representações construídas pelo grupo em função do sistema de normas ao qual o mesmo está sujeito que, por sua vez, estão relacionadas às condições históricas, sociológicas e ideológicas desse grupo.

Os elementos periféricos dizem respeito às adaptações individuais destas representações, em função da história de vida de cada membro desse mesmo grupo. Assim, o núcleo central atua como elemento unificador e estabilizador das representações sociais construídas por um determinado grupo, enquanto os elementos periféricos constituem-se em verdadeiros sistemas que atuam no sentido de permitir certa flexibilidade às mesmas, de sorte que, diante de elementos novos, esses últimos é que são acionados para realizar as devidas "adaptações", evitando assim, que o significado central das representações, para aquele grupo, seja colocado em questão.

Diante disso, Abric (1994a, p. 4) afirma que:

O sistema central é, portanto, estável, coerente, consensual e historicamente definido. O sistema periférico, por sua vez, constitui o complemento indispensável do sistema central do qual ele depende. Isso porque, se o sistema central é essencialmente normativo, o sistema periférico, por sua vez, é funcional. Isto quer dizer que é graças a ele que a representação pode se ancorar na realidade do momento [grifos do autor].

Para Abric (1994a) essa compreensão é importante quando o que se busca é descobrir caminhos possíveis para desencadear modificações das representações sociais de um grupo, por se entender que as mesmas representam um obstáculo para o desenvolvimento de práticas sociais alternativas às vigentes.

Nessa mesma perspectiva, insere-se o estudo de Moliner (1996a), A estrutura das representações sociais, que, segundo ele, foi desenvolvido a partir de uma idéia proposta por Flament (1984). Nesse estudo, ele afirma que os indivíduos forjam suas representações em função do tipo de experiência que mantêm com o objeto, das comunicações as quais eles estão expostos e de crenças particulares. Para conhecê-las, é necessário identificar os elementos cognitivos de base, sobre os quais as representações são erigidas, como os esteriótipos, os protótipos e os scripts.

Os estereótipos referem-se a "um conjunto de categorias atribuídas aos membros de uma mesma categoria por uma grande proporção de membros de uma outra categoria"(Moliner, 1996a, p.4); os protótipos são entendidos como uma conseqüência da organização categorial da informação recebida por um grupo sobre determinado objeto, referem-se a "um conjunto de dimensões descritivas, uma categoria que agrupa objetos considerados como equivalentes do ponto de vista destas dimensões" (Moliner, ibidem). Os "scripts", dizem respeito a determinadas condutas desenvolvidas pelos grupos, diante de certas situações freqüentes em seu meio, que acabam se tornando prescritivas do comportamento de seus membros, sempre que se encontrarem diante dessas situações (Moliner, ibidem).

Ao se referir às condições de emergência de uma representação social, Moliner (1996b) afirma que, embora os sujeitos se vejam cotidianamente diante de objetos que lhes são desconhecidos, isso não quer dizer que todos sejam geradores do fenômeno representacional. Segundo ele, apenas objetos "polimorfos", ou seja, que podem aparecer sob diferentes formas na sociedade, suscitam a necessidade de ser "representados". Por outro lado, essa representação é sempre produzida coletivamente, ou seja, por um grupo, mas não qualquer grupo. Para o estudo das representações sociais, diz esse autor que o grupo não se limita a um conjunto de indivíduos unidos pela interdependência ou por objetivos comuns, mas refere-se a um conjunto de indivíduos que mantêm determinada relação com o objeto de representação, seja porque ele é parte de sua existência, seja porque não têm como ignorá-lo. Daí a necessidade de "certos" grupos construírem sua própria "representação", quando colocados diante de "certos" objetos, "ancorando-os" em sistemas de normas e valores culturais próprios de sua cultura, de sua tradição.

Esse "valor" que certos objetos têm para determinados grupos é o que Moliner denomina de valor de enjeu, ou melhor, um valor d’enjeu social, uma vez que esses são valores nos quais os grupos se apoiam para garantir sua identidade enquanto grupo e a coesão entre os seus membros.

Como "essa necessidade identitária encontra sua justificativa apenas na interação do grupo com outros grupos /.../ o valor utilitário do objeto se funda sobre a inserção deste objeto em uma dinâmica social" (Moliner, 1996b, p.09). Percebe-se, pois, que, para Moliner, só é possível compreender o valor de enjeu de determinado objeto para determinado grupo, quando se examinam as relações que esse grupo estabelece com outros grupos. Em síntese, para Moliner, a emergência de uma representação social está diretamente condicionada à existência de um objeto polimorfo e que tenha um valor de enjeu para um determinado grupo, que por sua vez, está em constante interação com outros grupos.

Moliner (1996b) faz uma ressalva, em relação a grupos ortodoxos e/ou submetidos a intervenções de instâncias superiores que controlam e regulam a conduta dos indivíduos de forma sistemática, como é o caso de médicos diante da AIDS, ou de ecologistas, diante da natureza. Nessas condições,

a presença e a ação eficaz de sistemas de controle e de regulação em uma situação social /.../ impede, a nosso ver, o aparecimento do processo representacional, favorecendo a emergência da elaboração ideológica ou científica /.../ portanto, a ausência do sistema ortodoxo é a quinta condição de emergência da representação social. (Op. cit. p.10, grifo nosso)

No que diz respeito à organização da representação e seus processos de transformação, Abric (1994a) considera que, quando atores sociais são levados a desenvolver práticas sociais em contradição com o seu sistema de representação, podem interpretar a situação de duas formas distintas, cada qual apontando para um tipo de transformação possível: 1) aqueles que podem considerar que o retorno às práticas antigas é possível; 2) aqueles que podem considerar que o retorno às práticas antigas é impossível. Em relação aos primeiros, Abric diz que "os elementos novos e discordantes vão ser integrados nas representações por uma transformação do sistema periférico, enquanto o núcleo central da representação permanece estável e insensível a estas modificações" (p. 6).

Quanto ao segundo grupo, Abric (1994a) afirma que "três grandes tipo de transformação são possíveis: transformação ‘resistente’; transformação progressiva e transformação brutal" (p. 6). A primeira, refere-se à "aparição no sistema periférico de ‘esquemas estranhos’ "(p.06) que permite mudanças também periféricas, sem comprometimento do sistema central. Tais esquemas só permitem uma transformação mais radical se forem multiplicados inúmeras vezes; a segunda, diz respeito a uma mudança progressiva do próprio núcleo da representação e, portanto, a construção de uma nova representação, na medida em que as práticas novas não sejam totalmente contraditórias com o núcleo central já cristalizado; e a terceira, refere-se à possibilidade de uma mudança por meio de uma estratégia mais radical, ou seja, "colocando em questão diretamente a significação central da representação sem possibilidade de recorrer aos mecanismos defensivos aos quais o sistema periférico pode lançar mão".(pp.06 e 07).

Outro autor que oferece contribuições importantes a respeito da dinâmica das representações sociais é Christian Guimelli (1994). Para ele, a possibilidade de mudanças de uma representação social sobre determinado objeto, está diretamente relacionada ao significado que novas interpretações a respeito desse mesmo objeto tenham para determinado grupo. Ou seja, um grupo só vai sentir a necessidade de "reconstruir" a representação que forjou sobre determinado objeto, quando percebe que, se não o fizer, perderá o "controle" da situação, possibilitando o surgimento de novos eventos suscetíveis de ameaçar sua organização atual, colocando em risco a identidade e a coesão entre seus membros. Nesse caso, forçado pelas circunstâncias, o grupo vai, progressivamente, "adaptando" novas práticas às anteriores, o que não significa que o núcleo central de sua representação sobre o referido objeto seja, necessariamente, transformado. Nas palavras de Guimelli, isso vai depender do grau de contradição que essas novas práticas estejam em relação às práticas antigas do indivíduo e/ou grupo, bem como da forma como as mudanças ocorridas são percebidas pelos sujeitos.

Em outros termos, quando os sujeitos entendem que as mudanças provocadas em seu ambiente "natural", em função de novas práticas, são irreversíveis, o processo de transformação das representações parece fatal. Por outro lado, quando os sujeitos entendem que são mudanças passageiras, ou seja, é possível retornar às práticas antigas, após certo período, as representações são modificadas apenas superficialmente. (Guimelli, 1994).

Diante disso, Guimelli (1994) apresenta algumas sugestões metodológicas que permitem examinar as ponderações médias de cada elemento do campo representacional, bem como colocar em evidência as relações mais "fortes" entre esses elementos: de reforço, alteração ou ocorrência nova. Essas sugestões serão apresentadas no próximo item, juntamente com as considerações metodológicas apresentadas por outros autores.

1.3. Considerações metodológicas

Celso Sá (s/d) observa que a psicossociologia do conhecimento apresenta vários pontos em comum com inúmeras outras perspectivas teórico-conceituais modernas, por isso o campo de estudos das representações sociais parece tender ele próprio à interdisciplinaridade.

Segundo esse autor (Sá, s/d), o termo "representações sociais" tem atraído a atenção de teóricos das mais diferentes matizes teóricas, decorrendo daí entendimentos diferentes quanto ao seu significado. Diante disso, o autor considera ser necessário explicitar que das versões ora em circulação, as que podem ser consideradas legítimas, ou seja, uma verdadeira psicologia do conhecimento, são aquelas que têm como ponto de partida que as representações sociais não constituem entidades supra-individuais ou extra-individuais.

Tal constatação é possível, segundo Sá (s/d), pelo rastreamento das contribuições teóricas e empíricas específicas que desempenham um papel na sua constituição, excluindo-se aquelas centradas exclusivamente ao exame e discussão dos pensamentos teóricos ou acadêmicos que as analisam e não das formas como o senso-comum as interpreta.

É pois, esse caráter interdisciplinar da Teoria das Representações Sociais que, segundo Sá (s/d) permitiu uma grande diversidade de investigações de objetos do conhecimento cotidiano e, diante da impossibilidade de listar todos os temas particulares que têm sido estudados, ele propõe o levantamento de dimensões temáticas gerais como uma tarefa viável e relevante para a delimitação do campo.

Na opinião desse autor (Sá, s/d), uma das dimensões que parece se impor na psicossociologia do conhecimento é o da socialização do conhecimento científico.

Sá (s/d) alerta também quanto aos riscos que um tratamento meramente episódico, superficial, ou mesmo ilusório, que a pesquisa pode acarretar, defendendo que as condições metodológicas básicas

"deveriam envolver obrigatoriamente: a consideração do contexto sócio-histórico-cultural do cotidiano em que o conhecimento em questão emergiu, prévia de documentos oficiais e jornalísticos, dados censitários diversos, resultados de pesquisas anteriores, etc..." (Op. cit. p.10)

O que importa, conclui Sá (s/d), é que o pesquisador tenha consciência da complexidade teórico-metodológica que envolve a teoria e o estudo das representações sociais.

A esse respeito afirma Spink (1993, p.89):

A complexidade do fenômeno decorre da demonstração, no nível teórico, da falsa dicotomia entre o individual e o coletivo e do pressuposto daí decorrente de que não basta apenas enfocar o fenômeno no nível intra-individual (como o sujeito processa a informação) ou social (as ideologias, mitos e crenças que circulam em uma determinada sociedade). É necessário entender, sempre, como o pensamento individual se enraíza no social (remetendo, portanto, às condições de sua produção) e como um e outro se modificam mutuamente.

Spink (1993) fala também que a complexidade do fenômeno das representações sociais e as possibilidades metodológicas e interdisciplinares que a mesma oferece têm levado inúmeros pesquisadores à combinação de diferentes níveis de análises, resultando daí estudos bastantes diversificados. Segundo essa autora "a diversidade resulta, ainda, da /.../ dupla face das representações como produto e como processo".(p. 90).

Quando enfocada como produto, a pesquisa visa depreender os elementos constitutivos das representações, tendo sempre como referência as condições sociais de sua produção. Quando enfocada como processo, a pesquisa "volta-se à compreensão da elaboração e transformação das representações sob a força das determinações sociais" (Spink, 1993, p. 91). Nesse caso, a pesquisa tende a avançar em duas direções: a) explicitar as determinações sociais das representações decorrentes da posição ocupada pelos diferentes atores sociais; b) analisar as propriedades estruturais das representações sociais. Entretanto, Spink considera que é preciso ficar alerta para os riscos de estudos que fazem esta distinção (produto e processo), pois podem introduzir no debate mais uma falsa dicotomia, uma vez que, na verdade, são dois fenômenos inevitavelmente imbricados.

Em outro estudo, apoiando-se nos estudos de Jodelet, Spink (1994) busca explicitar sua postura quanto à natureza das representações sociais e suas implicações para a pesquisa, concluindo que as representações sociais são formas de conhecimento prático e, como tal, inserem-se mais especificamente entre as correntes que estudam o conhecimento do senso-comum.

Spink (1994) considera também que a aceitação do senso-comum, como conhecimento legítimo e motor das transformações sociais, não quer dizer que seja uma forma de conhecimento que não precise ser questionada, mas que é importante considerá-la, pois refere-se a um conjunto de significados que contribuem, sobremaneira, na criação da realidade social.

Referindo-se ao aparente paradoxo, apontado pelos estudos de Moscovici e de Jodelet - de que as representações são estruturas estruturadas e estruturantes - Spink (1994, p.20) explica que são estruturas estruturadas por serem "respostas individuais enquanto manifestações de tendências do grupo de pertença e estruturas estruturantes por serem uma expressão da realidade intra-individual...".

Daí, a importância do contexto para a compreensão de como se dá o processo de construção de uma representação social que "é essencialmente intertextual, ou seja, é a justaposição de dois textos: o texto sócio-histórico (...) e o texto-discurso, versões funcionais constituintes de nossas relações sociais".. (Spink, 1994, pp. 121-122).

Ao se referir ao fato de que o contexto pode ser definido pelo espaço social em que a ação se desenrola, bem como a partir de uma perspectiva temporal, e que essa última se constitui pelo tempo curto de interação, pelo tempo vivido (território do habitus) e pelo tempo longo (ou domínio das memórias coletivas), Spink (1994) contribui para que se entenda melhor o papel da contradição na elaboração das representações. Contribui também para que se compreenda que os núcleos mais estáveis das representações sociais são aqueles decorrentes do tempo longo, do imaginário social, enquanto que o tempo curto e o tempo vivido favorecem a diversidade e a criação.

Tal compreensão é fundamental para que se defina o método de análise das representações, ou seja, a constatação de que no senso comum está presente a diversidade, e a contradição leva também à constatação de que esse, apesar de ser elaborado a partir de um campo socialmente estruturado e de se assentar sobre a base comum de uma determinada ordem social, é heterogêneo e instável, e isso, representa uma possibilidade de abertura à novidade.

No que se refere às questões metodológicas, Spink (1994, p. 128) afirma que atualmente o debate histórico sobre as possibilidades do conhecimento das ciências naturais e sociais tem levado a movimentos que convergem para uma epistemologia construtivista, ou seja, ao reconhecimento de que "a realidade é caleidoscópica e que a multiplicidade de métodos pode enriquecer a compreensão do fenômeno".

Percebe-se pois, que para essa autora a utilização de diferentes instrumentos metodológicos para o desenvolvimento das teorias implícitas, longe de ser um problema, é fator de enriquecimento da pesquisa, na medida em que permite uma observação do objeto sob vários ângulos: explicações cognitivas, investimentos afetivos e demandas concretas derivadas das ações no cotidiano.

Souza Filho (1993), ao se referir aos procedimentos e posturas técnico-metodológicas comumente adotadas por estudiosos de representações socais, destaca o método sistemático de observação por ser pré-requisito fundamental para esse tipo de estudo e por ser o mais adotado pela maioria dos pesquisadores.

Segundo Souza Filho (1993, p.113), "a tarefa básica de um estudo de R. S. [sic] é explicitar elementos de sentido isolados ou combinados em constructos representacionais, produzidos, mantidos e/ou extintos em função de condições sociais específicas vividas por indivíduos e grupos..."

Esse autor afirma que o primeiro passo para esse tipo de estudo é a reunião de material simbólico a respeito de um tema, o que pode ser feito por meio de observação participante e/ou entrevistas com roteiros abertos. Considera também, a técnica de associação livre ou projetivas válidas para se detectar conteúdos latentes não revelados por levantamentos feitos com escalas de atitudes convencionais.

Outro meio de se ter acesso ao universo simbólico e social na opinião desse autor é através de informações censitárias ou pesquisas de opinião. A partir daí, diz o autor, é preciso decidir qual aspecto da representação será investigado para então se passar à elaboração do instrumento e/ou procedimento de pesquisa.

Para a análise de conteúdo de uma representação social, esse mesmo autor aponta técnicas de quantificação de símbolos: primeiro por significado comum e em seguida por categorias de análises relativas.

Nessa mesma linha de raciocínio, Wagner (1994) chama atenção para interpretações e usos de metodologias nem sempre compatíveis com a teoria das representações sociais. Segundo esse autor, a discussão de questões epistemológicas sobre os diferentes níveis de avaliação das representações sociais em Psicologia Social é imprescindível para se compreender o que uma representação de fato explica. Quanto às dificuldades que envolvem esta compreensão, Wagner diz que é porque são produtos tanto de uma discussão inacabada sobre os aspectos epistemológicos da teoria das representações sociais, quanto à falta de esclarecimento de como as condições sóciogenéticas das representações sociais penetram a teoria.

Com o objetivo de discutir perspectivas metodológicas e não teóricas da avaliação de fenômenos, Wagner (1994) explica que uma pesquisa sobre representações sociais pode se dar em dois níveis de avaliação: o individual e o sócio/cultural. Entretanto, Wagner considera que a avaliação individual, enquanto método de pesquisa, não se limita a fenômenos de domínio subjetivo, tais como aqueles conceituados pela psicologia: "percepções, lembranças, atitudes, intenções, pensamento, emoções, afetos e comportamentos, mas também crenças que são compartilhadas entre atores sociais comuns a grupos sociais..." (p.155).

Quanto à avaliação do nível social/cultural, Wagner (1994, p.155) afirma que: "compreendem fatos que aparecem para o indivíduo como um tipo de material ‘apriori’ /.../ que escapa ao controle de indivíduos isolados".

Com isso, esse autor procura alertar para o fato de que a decisão metodológica não é neutra, pelo contrário, ao se decidir e por esse ou aquele método, o pesquisador está fazendo também uma opção ontológica, uma vez que o método determina que aspecto do fenômeno pode aparecer como real ou aparece como real. Percebe-se, pois, que, como Spink (1994), Wagner (1994) também, assume uma posição construtivista em relação a procedimentos metodológicos.

Para Wagner (1994), se o objeto de pesquisa é avaliar o funcionamento psicológico individual, pode-se utilizar de entrevistas e questionários individuais. No entanto, se o objeto é avaliar a elaboração coletiva que determina os indivíduos, a metodologia utilizada deverá ser a análise de documentos, mídia e/ou sondagens.

Nessa perspectiva, o enfoque construtivista adotado por Wagner (1994) leva-o a detectar dois níveis de avaliação que, articulados, definem o que ele denomina de "espaço explicativo" : Um espaço explicativo é definido aqui como um conjunto de conceitos que podem ser ligados por relações implicativas que sustentam explicações lógicas válidas. (p. 157, grifo do autor).

Esse é um importante aspecto da pesquisa em ciências sociais, em geral, e em representações, em particular, ou seja, o fato de que as proposições explicativas estão relacionadas às opções conceitual e teórica do pesquisador, o que, por sua vez, pode ter origem em diferentes níveis de avaliação.

Wagner (1994) subsidiado em estudos desenvolvidos por Devereux (1961, Apud) conclui que não é a pertença de um sujeito a um determinado grupo que faz com que ele se comporte socialmente da maneira como o faz, mas a sua representação mental dos fatos sociais. Em outros termos, o indivíduo só passa a explicar ou articular suas ações, a partir de determinados fatos sociais, após tê-los "traduzido" em entidades mentais intra-individuais.

Quanto aos níveis de avaliação nas representações sociais, Wagner (1994) aponta que o interesse explicativo e do procedimento de avaliação do pesquisador é que remete esse último a um ou outro nível de avaliação: individual ou social.

Se o interesse do pesquisador se centrar nas características distributivas das representações socais, a opção é detectar elementos comuns do conhecimento produzido; se, por outro lado, o interesse se centrar nas características coletivas de uma representação social, é preciso considerar que a relevância do objeto varia entre grupos e subgrupos. Assim, só pode ser considerada como representação coletiva completa aquela que contém a totalidade das sub-representações dos diferentes grupos que compõem determinado complexo social.

Com o intuito de contribuir na discussão metodológica da pesquisa de representações sociais, Abric (1994b) apresenta várias opções metodológicas, destacando as técnicas, as vantagens e desvantagens, os limites e as possibilidades de cada uma, porém, nos limites deste estudo, apresentam-se apenas aquelas que estão mais diretamente relacionadas com este mesmo trabalho.

A técnica da livre associação consiste em apresentar uma palavra indutora aos indivíduos e solicitar que produzam todas as palavras, expressões ou adjetivos que lhe venham à cabeça a partir dela. Abric (1994b) considera que o caráter espontâneo dessa técnica permite ao pesquisador colher os elementos constitutivos do conteúdo da representação e isso explica seu sucesso e sua utilização sistemática no estudo das representações sociais por vários pesquisadores.

Por outro lado, Abric (1994b) faz interessantes observações sobre as inúmeras possibilidades de análise que a técnica da livre associação encerra e que pode influenciar, de alguma maneira, nos resultados brutos obtidos. Em função disso, esse autor ressalta as técnicas de validação do resultado, propostas por Grise, Vergès e Silem (1987, Apud), que consistem em interpretar a produção obtida pelas associações livres, selecionando-as por suas similaridades, contrastes ou contigüidades em relação à palavra indutora. Além disso, para se distinguir se as associações produzidas têm um caráter prototípico daquelas que são centrais da representação, o pesquisador pode analisar o material coletado, procurando captar e analisar o sistema categorial utilizado pelos indivíduos, isolando, assim, o conteúdo das representações sociais.

A seguir, afirma esse autor (Abric,1994b), o pesquisador pode extrair os elementos organizadores desse conteúdo, observando a freqüência e a ordem em que aparecem, podendo, ainda, solicitar que os indivíduos indiquem os dois termos que ele considera mais importantes. Com esses dados, é possível estabelecer um coeficiente de correlações significativo entre as duas classificações, ou seja, o conteúdo da representação e os elementos organizadores desse conteúdo.

Abric (1994b) destaca, também, as propostas de Vergès (1992, Apud) de criar um conjunto de categorias das palavras mais freqüentes, de modo a que se possa verificar se realmente se trata de elementos organizadores da representação.

Outras possibilidades postas pela técnica da livre associação é a análise do vocabulário e dos temas que eles encerram, ou ainda, a análise dos campos semânticos, por comparação entre duas populações diferentes. Esta seria uma forma de se detectar a natureza do conteúdo da representação.

Apesar das vantagens apresentadas por estas metodologias, Abric (1994b) não descarta a validade e importância de métodos mais clássicos como o da análise de semelhanças ou análises multidimensionais utilizadas por Kruskal (Apud) e as análises por correspondências, utilizadas por De Rosa (1988, Apud) com grande sucesso.

Enfim, apesar da livre associação não permitir análises "a priori", Abric (1994b, p.7) considera que a mesma "pode constituir uma boa ferramenta de identificação do conteúdo e do significado de uma representação, tanto mais que pode ser produzida individualmente ou em grupo."

Inserida na perspectiva metodológica da hierarquização de itens, a técnica das triagens hirarquizadas sucessivas, proposta por Abric (1994b) consiste, basicamente, em apresentar aos entrevistados, 32 cartões, contendo cada qual uma palavra que expresse as características do tema estudado e, sucessivamente, solicitar do sujeito que separe as 16 que lhe parecerem as mais características. Das 16 mais características, indicar 08; dessas indicar 04; dessas indicar 02 e dessas escolher uma. Assim, chega-se a uma única palavra que, segundo o entrevistado, é a principal característica do objeto representado. "Obtêm-se assim, uma classificação por ordem de importância e para cada indivíduo do conjunto dos itens propostos a partir do qual pode-se calcular a posição média de cada item numa população dada." (Abric, 1994b, p.11).

As vantagens dessa técnica, segundo Abric (1994b), é que ela suprime as dificuldades advindas da técnica da livre associação e evita dúvidas, quanto ao fato dos itens mais importantes serem citados em primeiro lugar, ou não. Além do mais, é de fácil aplicação e pode representar um indicador de primeira importância para identificar os elementos centrais da representação.

Percebe-se, pois, que a congruência dos critérios de freqüência e posição pode ser considerado como um indicador da centralidade do elemento organizador da representação.

A técnica da associação livre também é apontada por Guimelli (1994) como um meio eficaz para se ativarem os esquemas cognitivos de base de uma representação. Isso porque, a associação livre pode assumir diferentes formas, sendo que algumas delas possibilita ao indivíduo ser o sujeito do processo de investigação dos elementos centrais e periféricos da representação que ele próprio forjou em relação a determinado objeto.

Uma das formas possíveis de aplicação dessa técnica é apresentar ao sujeito uma frase, ou palavra indutora, e solicitar que ele produza outras palavras relacionadas, depois justifique sua produção e, finalmente, que organize suas respostas em categorias de análise. Dessa forma, afirma Guimelli (1994), além de se contornarem as dificuldades habituais de análise do conteúdo, ainda permite-se uma participação mais ativa do sujeito, "que se torna o único: "expert" de sua produção".

Pode-se perceber que as representações sociais têm como um de seus objetivos resistir a conceitos, conhecimentos e atividades que colocam em risco, ou seja, ameaçam destruir a identidade de indivíduos e/ou grupos. Como as mesmas são construídas nas relações estabelecidas entre os sujeitos e o meio sócio-cultural em que vivem, as representações sociais podem ser consideradas como a ação de um sistema imunológico cultural, constituindo-se em um fator de estagnação. Entretanto, tal dedução não se justifica, pois, se por um lado os indivíduos e/ou grupos, ao assimilarem novas idéias às já existentes, neutralizam a ameaça que elas às vezes representam, por outro lado, esse processo acaba provocando modificações também no sistema cognitivo "hospedeiro" do novo objeto. Dessa forma, a função de resistência das representações sociais não leva à estagnação, pelo contrário, é um fator criativo que introduz e mantém heterogeneidade no mundo simbólico de contextos intergrupais. O fato da mesma contribuir muitas vezes para uma apreensão distorcida do objeto não invalida o fato de se constituir em uma qualidade do canal de comunicação. Além disso, o estudo das representações sociais permite reconhecer que o objeto em difusão muda ao longo do processo. Por isso, "as diferenças entre as intenções da fonte e os efeitos da audiência em processos comunicativos são culturalmente significativas e não simplesmente indicadoras de um manejo deficiente da comunicação..." (Bauer, 1994, p.252).

Conclusão

No decorrer deste estudo procurou-se demonstrar que a teoria das representações sociais insere-se em uma perspectiva psicossocial e é fruto de uma ruptura teórico-metodológica com o reducionismo da Psicologia Cognitivista (individualismo) e com o determinismo econômico-social da Sociologia.

Demonstrou-se, também, que coube a Moscovici (1961) desenvolver a concepção de representação social, a partir do conceito de representação coletiva de Durkheim e o mérito de ter inaugurado a teoria das representações sociais, como um novo campo teórico-metodológico para análise do comportamento de indivíduos socialmente situados.

Na seqüência, explicitaram-se o conceito, o conteúdo e os processos cognitivos que garantem a construção de representações sociais pelos indívíduos, entendidas como um conjunto de imagens (figura) dotadas de um sistema de referência (sentido), as quais permitem ao indivíduo interpretar sua vida e a ela dar sentido.

É importante destacar as reflexões sobre as diversas possibilidades metodológicas que o pesquisador pode se utilizar para o estudo das representações sociais desenvolvido por Sá (s/d), Spink (1993, 1994), Souza Filho (1993), Wagner (1994) e Abric (1994b), sobretudo desse último, uma vez que destaca aspectos importantes para a definição dos objetivos de uma pesquisa voltada para o estudo das representações sociais.

Como foi demonstrado, as representações sociais não dizem respeito apenas a um fenômeno do imediato, ao contrário, estão, sobretudo, diretamente relacionadas a um contexto histórico social mais amplo. Sendo assim, é de se supor que o (re)conhecimento da representação social construídas pelos indivíduos pertencentes a um determinado grupo social deve passar, necessariamente, pelo conhecimento da história de construção desse conceito pela comunidade científica, uma vez que é a partir daí que os mesmos são difundidos e propagados para outras instâncias sociais.

 

RESUMO

Dentre os paradigmas que vêm sendo formulados nas últimas décadas, a Teoria das Representações Sociais, uma vertente da Psicologia Social, desponta como uma nova maneira de interpretar o comportamento dos indivíduos e dos grupos sociais. O artigo, que ora apresentamos, trata das origens teórico-metodológicas dessa teoria. No primeiro momento, apresentamos a história de sua construção, por Serge Moscovici, um autor preocupado em superar as explicações essencialmente sociais ou essencialmente cognitivistas das representações formuladas, até então, pela Sociologia e pela Psicologia, respectivamente. Na seqüência, com base nas produções de Moscovici, Jodelet, Abric, Moliner, Guimeli, entre outros, procuramos destacar as características específicas das representações sociais, contrapondo-as às representações mentais. Nesse texto, lidamos, também, com assuntos relacionados à organização interna das representações sociais, às condições de sua emergência e a seus processos de transformação. Finalmente, destacamos a complexidade teórico-metodológica que envolve a teoria e o estudo das representações sociais, uma vez que este é um fenômeno que pode ser enfocado, tanto como produto, quanto como processo.

Palavras chave: Representações sociais; Cotidiano; Contexto social; Experiências individuais; Núcleo central; Sistema periférico.

 

ABSTRACT

In the midst of the paradigms these have been constructed during the last decades, the Social Representations Theory, one of the versant from Social Psychology arises as a new form to interpret the personal and social groups behavior. This essay that we show leads within theoretical-methodological origins from this theory. At the moment, we introduce the history of its construction by Serge Moscovici, an author who is preoccupied about surpassing the social explanations essentially cognitive aspects of the representations formulated, up until then, just by sociology and psychology, respectively. Sequentially, based on Moscovici, Jodelet, Abric, Moliner, Guimeli productions, among other authors, we must detach specific characteristics from social representation. In this text, we lead, also, with subjects related to the internal organization of social representations, to the conditions of its emergence and its changes procedure. Finally, we detach the theoretical-methodological complexity which is involved in the theory and the essay of social representations, once that is a phenomenon that could be give up as product and as process.

Key words: Social Representations; Quotidian; Social context; Individual experiences; Central nucleus; Peripheral system.

 

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