Novas terras, novos céus: a educação escolar entre os Xavante de Sangradouro (1970 -1980)

 

Teodorico Fernandes da Silva1


 

 

Os Xavante, juntamente com os Xerente e Xakriabá constituem o maior grupo dos akwén, principal ramo da família lingüística , tronco macro-jê. Autodenominam-se akwén, que quer dizer "pessoa", "gente", mas foram chamados Xavante pelos portugueses em fins do século XVI.

No passado, os Xavante e os Xerente habitavam a mesma área, o norte de Goiás, entre os rios Tocantins e o rio Araguaia, e no século XIX, por pressão dos colonizadores, os Xavante migraram para o sudoeste, fixando-se na área do rio das mortes (território Bororo) enquanto que os Xerente permaneceram no leste do rio Tocantins.

Atualmente, habitam o leste matogrossense, uma área entre os rios Araguaia e o rio das Mortes, constituindo seis áreas indígenas: Areões, Marechal Rondon, Parabubure, Pimentel Barbosa, São Marcos e Sangradouro. A população Xavante , no Estado de Mato Grosso, é cerca de 8.000 pessoas distribuídas em aproximadamente 60 aldeias, variando o número de famílias em cada uma delas, desde mais de duas até uma centena.

Desde o século XIX, os Xavante tem uma história marcada por contínuos movimentos humanos e territoriais por causa do "nomadismo sazonário" e da expansão da conquista do Brasil central. Assim, uma parte dos Xavante - através de constantes e sucessivos deslocamentos territoriais - pressionada pelas circunstâncias se rendem ao contato pacífico dos missionários salesianos,2 buscando refúgio e acomodação em Sangradouro, onde já se encontrava a Escola "São José", funcionando em regime de internato voltado para os não indígenas e para os Bororo.

Logo após a chegada dos Xavante a Sangradouro, em fins de 1956, os Salesianos deram início a uma experiência educativa de atendimento escolar aos meninos Xavante que, a pedido dos seus pais, começaram a freqüentar o internato para que tivessem comida roupas e aprendessem as coisas do "branco" (ler, escrever e contar). No internato a pedagogia adotada pelos salesianos foi toda baseada no Sistema Preventivo de Dom Bosco.

A aceitação do internato para os jovens Xavante encontrou justificativa no costume Xavante de separar seus adolescente na casa dos solteiros.

As décadas de 70 e 80 foram marcadas por questões que provocaram intensas reflexões, debates e dificuldades tanto para os Xavante como para os salesianos no trato com os índios. O que fazer ?

. com o internato indígena;

. com a catequese; com a evangelização;

. com o avanço da fronteira econômica;

. com a integração dos Xavante à realidade social brasileira;

. com as ONGs;

. com as terras em litígio; etc.

Duas décadas apontaram nova terra e novos céus.

1. Nova terra e novos céus :Sangradouro nas décadas de 70 e 80

Década de 70

Na década de 70 a questão indígena torna-se o centro de debates, de reflexões, de críticas não só dos centros acadêmicos mas dos meios de comunicação de massa, a nível nacional e internacional. Sangradouro não tinha como ficar às margens das dicussões e das mudanças deste período.

Assim em Sangradouro no dia 12 de outubro de 1970, o inspetor Salesiano na sua visita canônica deixou por escrito:

Há alguma dificuldade, porque hoje se discute sem muito acerto o que fazer com os "índios". Aos poucos isto irá desaparecer.

No começo do próximo ano será feita uma reunião de todos os que trabalham nas missões para uma linha comum no trato com os índios.3

Nestas poucas linhas, do então superior, pode-se notar a existência de dificuldades não só de natureza teórica mas também de ordem prática. O que fazer? A interrogativa denota o índio como elemento passivo, objeto de uma ação missionária paternalista, reconhecida pelos próprios salesianos mais a frente.

Neste mesmo ano de 1970, um representante do Reitor Mór visitou Sangradouro, nos dias 18, 19 e 20 de novembro, e apresentou os votos para que se conservasse o ambiente de Sangradouro e se estudasse o melhor modo de integrar os Xavante à comunidade nacional, juntamente com os de Merure e de São Marcos.4

No ano de 1971 a Inspetoria Salesiana de Mato Grosso esteve realizando o seu Capítulo Inspetorial Especial, ocasião em que delegados de todas as casas Salesianas da Inspetoria se reúnem e deliberam sobre as diretrizes gerais da mesma.

Talvez por este motivo Sangradouro não recebeu a sua visita canônica de 1971, ficando assim uma lacuna. Ou mesmo houve uma omissão quanto o registro da visita.

1.1. Novos rumos ...

A década de setenta, coloca em questão o sistema educativo Salesiano: o internato indígena. Continuar ou não continuar, eis a questão colocada na reunião dos missionários em Merure, no dia 10 de março de 1971.

Levanta-se o problema cruciante e importantíssimo: o internato, tanto masculino, como feminino, deve ou não deve continuar?5

Em razão da mudança de mentalidade, das críticas e sobretudo das exigências da FUNAI6 os missionários Salesianos, juntamente com o Prelado D. Camilo Faresin, bispo da prelazia de Guiratinga, discutem a necessidade da unidade de pensamento, de vida e de objetivo das missões indígenas salesianas (Merure, Sangradouro e São Marcos) no Estado de Mato Grosso.

A FUNAI, órgão oficial da política indigenista do governo, lembra aos Salesianos que não só a evangelização deve marcar o trabalho missionário junto aos povos indígenas, mas também o interesse pela sua promoção, respeitando suas religiões, suas culturas, sem substituí-las para integrá-lo nos costumes da sociedade nacional.

A esse respeito, Dom Camilo Faresin, interpretando as mudanças do tempo, reafirma que o trabalho missionário não tem por fim transformar o índio em caboclo, ou integrá-lo em costumes semelhantes aos dos "civilizados", mas sim de colocar o grupo em condições de progresso, independência econômica, conservando-lhe a própria cultura, enquanto evidentemente se procede a sua evangelização.

Já o Salesiano Pe.Mário Panziera, de longa experiência em São Marcos, observa que a evangelização pode esmagar a cultura indígena. Diz que o índio não possui elementos para a auto-defesa e sente-se desambientado frente a nova cultura. Entregando-se, se auto-destrói. E é impossível, também que se conserve todas as suas tradições, tal quais são.

Buscando o equilíbrio das idéias presentes com as experiências passadas, Pe. Gonçalo Ochoa, com a experiência de mais de 30 anos, afirma que

a teoria presente e a experiência do passado longe de estabelecer choques são igualmente úteis e necessárias, podendo dar normas certas para um novo sistema.7

Concretamente o que se quer do índio? Após discussões e trocas de idéias, sugestões e experiências, os missionários assumem a seguinte posição:

Objetivo Missionário

Auto-suficiência Saúde Alfabetização Seletiva

Catequese condicionada

Em linhas gerais, a posição dos missionários, em relação aos indígenas, na reunião de Merure, foi a de pensar na necessidade de estruturá-los para a defesa de suas terras, ameaçadas pelos avanços significativos da fronteira econômica. Também estavam preocupados em manter a catequese e promover a integração dos Xavante na realidade social brasileira, enquanto povo.

Quanto ao problema de continuar ou não com o internato, os missionários, pesados os prós e os contra, acordaram que ele deveria continuar, porém com modificações de acordo com cada casa, e em regime mais moderado.

Sendo a questão bastante delicada e importante, optaram por confiar um estudo mais aprofundado do problema a uma comissão de elementos considerados capacitados pelos conhecimentos e pela experiência direta, para se chegar a um denominador comum, conforme as orientações do inspetor Salesiano.

Após reflexões, fundamentadas em experiências positivas e negativas, a "comissão de estudos" sobre o internato, apresentou os resultados abaixo, devidamente aprovados pela assembléia.

Internato Indígena

"Masculino

a) O sistema grupal admite divisão e separação entre grupo e grupo. Conservar no internato, este sistema por eles determinado - favorecer a moralidade - restabelecer o sistema de seriedade moral que eles possuiam-temos obrigação de aumentar a assistência;

b) Separar os "Wapté", eventualmente em casa de palha, e colocá-los sob a responsabilidade dos próprios padrinhos;

c) Ensinar a Língua Portuguesa pelo método direto de conversação e pela prática, eliminando elementos superfluos;

d) O sistema de ensino em todos os setores deve ser reestruturado quanto ao método e quanto ao conteúdo. Limitá-lo a conhecimentos gerais e de ordem prática;

e) Uso de roupas: o mais simples.

Feminino

a) Idade para a admissão: 07 anos;

b) Abolir o uso do uniforme;

c) Divisão em grupos naturais conforme leis do grupo, no dormitório e no trabalho;

d) Ir a casa dos pais em ocasião de festas e datas etc.

e) Favorecer a ída a aldeia, em visita aos pais, aos domingos;

f) Estudar a solução do problema para que todas possam ir a aldeia pelo menos uma vez por semana;

g) Ao menos uma vez por semana, ocupem-se na confecção de artesanato da própria cultura: enfeites, baquités etc.

h) Conservar os cabelos conforme o costume Xavante: não aconselhamos cortá-los sob pretexto de higiene;

i) Vestuário: seja prático e decente. Como elas preferem comumente - calção com frente única para festas folclóricas;

j) Programa de ensino: nomear uma comissão para estabelecer as linhas gerais, quanto ao método e quanto ao conteúdo"8.

Estas orientações falam por si só. Agora fica mais claro o que quer dizer "regime mais moderado". Mas não poderíamos deixar de salientar novamente o papel educativo dos padrinhos na formação dos Wapté dentro da educação Xavante.

Ao término do encontro de Merure, em 10 de março de 1971, o Pe. Inspetor pede a cada comunidade que:

1. Estude os seus problemas particulares e comunique-se com os dois delegados eleitos para a questão indígena;

2. Procure resolver as situações, remediar as falhas, a fim de se evitar a bancarrota; e, ainda:

3. Cientifica ter entrado em entendimento com benfeitores para instalar uma estação de rádio, que permita a comunicação com o Centro Inspetorial;

4. Comunica que a OMT-Operação Mato Grosso (ONG) está providenciando a conclusão do hospital de Merure e a construção do ambulatório de São Marcos e

5. Recomenda que qualquer relação com o Governo, FUNAI, etc. seja feita por intermédio dos dois delegados9.

1.2. Novas dificuldades

Em 1972, Sangradouro discute a ação da Operação Mato Grosso (ONG), grupo leigo, proveniente da Itália, cujos membros se apresentavam como voluntários em alguma atividade pró-índio: construção, assistência médico-santitária e outras.

Como os Salesianos tem mentalidade e formação específicas, uma cooperação externa traz sempre dificuldades, não só de ordem prática, mas de perspectivas teóricas. Assim dificuldades de relacionamento não poderiam faltar.

Notou-se grande boa vontade de trabalhar, mas maior ainda a dificuldade de entrosamento dos grupos ou aceitação de elementos dos grupos10.

Apesar das dificuldades, os Salesianos continuaram a aceitar a participação de voluntários na esperança de conseguir um pouco de compreensão que permitisse o trabalho conjunto em favor dos indígenas. Os salesianos tomam consciência da necessidade da ajuda dos leigos.

Neste mesmo ano, os Xavante fizeram queixas à FUNAI, "mas tudo voltou a normalidade e tranquilidade". Certamente a habilidade diplomática e o prestígio dos Salesianos puderam contornar as dificuldades surgidas entre eles.

A tendência a fissão faz parte da ordem social Xavante. Assim, nos idos de 1972, tem se que:

(...) há entre os Xavantes um grupo que quer sair e formar outra aldeia. Temos que nos preparar para dar-lhes orientação para que não percamos o trabalho já feito11.

Em 1973 as dificuldades continuaram e foram grandes. Por questões de pontos de vista diferentes no trato com os índios a Operação Mato Grosso (ONG), por ordem do inspetor e do Conselho Inspetorial, foi convidada a se retirar de Sangradouro.

Na ocasião houve muita falação e má interpretação do fato. Tudo o que foi falado corre por conta de quem gosta de "fuchico" e pela falta de formação evangélica. Há quem sabe instrumentalizar até o Evangelho. Os motivos que levaram o Conselho Inspetorial e o Pe. Inspetor pedir a retirada da Operação Mato Grosso, estão escritos na carta do Pe. Inspetor em data de 30 de maio de 1973, a Dom Ugo de Ansi. Sair da carta para interpretação é cair na falsidade.12

A retirada da ONG da Área Indígena de Sangradouro parece ter uma única perspectiva: a ótica Salesiana. Não se permite outro ponto de vista. Ter outra posição sobre os fatos é cair no "fuchico", na falsidade e fazer má interpretação.

As dificuldades em Sangradouro, se não bastasse a ONG, afetavam o trabalho com os índios.

Estamos numa hora bem difícil. Os índios, como os mesmos civilizados, estão passando por uma transformação muito rápida. Com relação as terras: os Xavantes não estão satisfeitos. Houve muita promessa e não está sendo realizada nenhuma. (...)

É uma questão melindrosa. O problema é dos Xavantes e do Governo. Que os fazendeiros percebam que os missionários não desejam terras para si.

Nós sabemos que temos que mudar o Sistema, mesmo que no começo apareça fracasso.

a) Abolir o internamento (é verdade que faz um pouco de tempo esteve suspenso);

b) Passar para as famílias a responsabilidade dos filhos;

c) Mesmo o grupo menores das meninas procurar deixá-los na aldeia (as meninas não);

d) Enquanto estiverem conosco não tomarão a responsabilidade do próprio estudo;

e) Ficaremos com a parte da educação e saúde. Catequese.

O mesmo prézinho (que está muito bom) deve ser visto e revisto para não cairmos nos mesmos problemas do internato".13

O afluxo muito grande de migrantes e de capital no Leste do Estado de Mato Grosso a partir da década de 70, notadamente no município de Barra do Garças, trouxe transformações das relações capitalistas de produção que afetaram não só o setor rural mas as Áreas Indígenas da região. De imediato os problemas se acentuaram sobre a expropriação das terras indígenas e sobre as condições indígenas de sobrevivência.14.

Neste momento difícil de expropriação das terras indígenas os Salesianos "lavam as mãos" e transferem a problemática para os índios e o governo. Não é bom para eles serem mal vistos pelos fazendeiros como desejosos de mais terras na área.

1.3. Estatuto do Índio põe fim ao internato indígena e provoca acordos com a Missão Salesiana de Mato Grosso

O Estatuto do Índio, instrumento legal de ação da FUNAI, foi sancionado em 1973, fixando a política oficial de defesa e assistência ao índio.

O ano de 1974, marca o início do fim do internato indígena masculino em Sangradouro. Neste ano a FUNAI e a Missão Salesiana de Mato Grosso firmam acordo de cooperação15 para superação das divergências existentes no trato com os indígenas. Quanto ao internato indígena estão conscientes da educação alienante e desastrosa para a cultura Xavante. Devolver a responsabilidade da educação indígena aos pais, aos padrinhos e a comunidade. Porém as meninas ainda ficaram sujeitas ao regime de internato por razões que mais a frente se verá.

Por este acordo a Missão Salesiana de Mato Grosso é levada, ao menos teoricamente, a cumprir os princípios da política indigenista fixados pelo Estatuto do Índio e a colocar a disposição da FUNAI sua estrutura física e de pessoal, realizando com recursos próprios a assistência às aldeias (Menezes, l982: 76).

Como consequência do acordo com a FUNAI a hegemonia política salesiana sobre os indígenas foi quebrada e direcionada para o órgão tutelar. Em termos práticos ficou acordado:

a) em relação a Missão Salesiana de Mato Grosso

l. O fim do internato;

2. O Auxílio da Missão na defesa das terras indígenas e

3. A participação da Missão nos programas governamentais.

b) em relação à FUNAIO órgão tutelar ficou obrigado a fornecer recursos financeiros, pessoal qualificado (técnico em agricultura e em educação), a orientar e treinar indígenas e a exercer o policiamento das áreas de reserva. Ficou-lhe facultado o controle do trabalho missionário, por meio de inspeções e relatórios financeiros periódicos16.

Por força das pressões da FUNAI, de exigências legais e do surgimento de novas diretrizes da Igreja, da CNBB, da Congregação Salesiana, do CIMI e de organizações internacionais ligadas a causa indígena, os missionários Salesianos, reunidos em Merure, no dia 10 de junho de 1974, sobre a questão dos internatos indígenas, racionalizaram e decidiram:

Não receber novos meninos, pois daqui a três anos, não daremos conta de atendê-los. Com relação as meninas, favorecer no possível, a sua permanência na família. Em casos especiais, tendo em vista a idade, podem ser admitidas a conviver na casa das irmãs. Para tornar a nossa ação mais educativa para com os meninos que convivem com os salesianos, torná-los mais independentes na cozinha, na roça e na manutenção em geral. Para a manutenção das meninas, além do trabalho das mesmas, solicitar a colaboração dos pais e responsáveis17.

Pela ótica interna Salesiana, o internato é visto mais por uma questão financeira18 do que antropológica. Quanto as meninas, "Adzarudu",19 a preocupação maior é de resguardá-las o máximo possível para que se tornem moças e assim retardarem a maternidade.

A respeito das ADZARUDU, Ada Gambarotto escreve:

A menina de mais ou menos onze anos passa a ser ADZARUDU designação que conservará até o casamento. (...)

As ADZARUDU vivem com a mãe e começam a tomar conta da casa e da roça. Aprendem a fiar algodão para fazer os enfeites, fazer esteirinhas e baquités, a catar as coletas, distinguir as ervas e as raízes e tudo o que se refere à vida da mulher. Participam das várias iniciações dos AY’REPUDU (classe dos meninos de oito a treze anos) e podem ficar com seu noivo todas as vezes que o pai o permitir.

Para os castigos acontece o mesmo que para os AY’REPUDU só que quando uma ADZARUDU desobedece é ameaçada de ser castigada pelos mais velhos que a usam como mulher. Muitas vezes o período de ADZARUDU é curtíssimo e logo a menina passa a ser ADABÁ e casa. Quando os Xavante chegaram a nós e nos pediram socorro não havia ADZARUDU. Muitos homens estavam sem mulher porque sendo já casadas e muito novas morriam no primeiro parto não resistindo a uma gravidez precoce numa época de corrida de um lugar para outro e de perseguição. Atualmente em várias aldeias Xavante encontram-se muitas ADZARUDU. Parece que estão começando a entender a necessidade de deixar a menina ser moça para que seja uma mãe mais sadia e mais feliz.20

Quanto aos meninos torná-los mais independentes significa o quanto o internato proporcionava uma educação alienista e paternalista onde praticamente os meninos recebiam quase tudo pronto, com pouca participação, eram mais passivos do que ativos, isto é, tinham uma participação limitada da realidade e dos trabalhos.

1.4. Novas exigências

Enquanto isso, em Sangradouro, o inspetor salesiano constatou na sua visita dos dias 4, 5 e 6 de julho de 1974, que os índios, cada vez mais, se tornavam exigentes. E aos poucos vão tomando a iniciativa para ocupar as terras da Área Indígena.

Para isto, o então inspetor salesiano recomendava:

a) Ajudar os Xavantes para que façam suas aldeias na reserva. Não dar a parecer que queremos que deixem as terras da Missão;

b) Favorecer as roças fora das terras da Missão;

c) Seguir o que foi decidido na reunião de Merure com os Salesianos de São Marcos;

d) Temos que promover as mudanças com a cabeça fria. Sem "sentimentalismo" mas com sentimentos educativos e em vista do futuro;

e) Não devemos estranhar se os índios se tornam rebeldes. Em parte é sinal que o trabalho feito com eles deu resultado, pois a crítica faz bem e faz que revisamos o nosso trabalho.21

O ano de 1975 foi muito difícil para a Missão Salesiana que sofre críticas profundas naquilo que sempre fez, com muita liberdade: catequização e escolarização (internato). Recebe a visita extraordinária do Pe.Juan Vecchi, Coordenador Regional da América Latina, que vem em nome do Reitor Mór ver de perto o ambiente, a nova aldeia e as dificuldades em Sangradouro e demais áreas de missão.

"En este momento se propone una reformulación de nuestra tarea que proviene sea del nível a que han llegado los indios sea de las nuevas exigencias de la accion misionera y del contorno. Los hermanos siguem con atención el processo y están dispuestos a estudiar y aplicar lo que el momento atual sugiere.

En el momento conclusivo, pusimo a consideración los seguientes puntos que constituyen las ‘recomendaciones’ de la visita:

l. (...)

2. Misión - Los objetivos apartecen claros: evangelizar, promover preparar para o inevitáble encuentro con la poblacion ‘blanca’. Cada uno de esos puntos requieren ser pensados y programados los multiplos elementos. En especial parece conveniente:

a) cuidar que el trabajo de manutención material no nos absorba hasta tal punto que limite nuestras posibilidades de programar y ejecutar otras formas directas de educación, de animación y de influencia;

b) pensar la forma de promover a los que entre los indigenas tienen liderazgo y capacidad de prestarar algun servício de modo que se conviertan en agentes de adelanto;

c) ver la posibilidade de incorporar laigos a las tareas de la misión destinando se fuera el caso ‘fondos’ para remunerar su colaboración;

d) que la comunidad salesiana se mantenga vigilante desde el punto de vista apostólico y cultural, con capacidad de analisar, de corrigir, de aprovechar nuevas ocasiones y posibilidades. Para ello, ninguno descuido el empeño de lectura y reflexión sobre las tareas que en este momento desenpeña. La comunidad provea en forma regular y segun los próprios recursoso a enriquecer la biblioteca.

3. Asuntos Especiales

a) (...)

b) Internado de niñas. No parece conveniente su anulación. Si em cambio ciertas modificaciones. Dejando a las más pequeñas com sus padres, ofrezcase en el períodode los 10-13 años la posibilidad de um período no largo (3 años) de permanencia en el colegio.

c) La nueva aldea admirable la tención que se presta. Es necessário resolver quanto antes la questión más constante em marco de sencillez. De otro modo los niños y niñas que en ella crescan retrocederán respecto de la generación anterior. Esta forma de atención nos ofrece demás la ocasión de pensar una nueva forma de trabajo que pronto deberá ser aplicado en nos nuevos aldeamentos de San Marcos. Una permanencia más larga (algunos dias por semana o por quenicenas) parece indicado para estimular y promover esta nueva comunidad 22.

Nestas séries de recomendações, como que para ratificar as do inspetor, Pe. Juan Vecchi, com muita fineza, firmeza, segurança e autoridade chama a atenção dos Salesianos de Sangradouro, neste momento delicado, para a organização, para a dedicação ao trabalho educativo, para o "aggiornamento" (expressão italiana que quer dizer atualização, muito usada entre os Salesianos) e sobretudo para as exigências dos novos tempos. Ainda pede para que saibam aproveitar das novas ocasiões e possibilidades tendo em vista o futuro das missões.

Em especial destacou o cuidado para com as adolescentes, em virtude dos costumes Xavante de iniciar logo a atividade sexual 23. Para isto recomenda a permanencia delas no internato das irmãs salesianas.

Após a visita extraordinária, a Assembléia Missionária se reuniu em Sangradouro no dia 1º de agosto de 1975, e deliberou:

Com a supressão dos internatos entre Xavantes, é sentida como problemática dentro da mesma tribo, a presença livre de rapazes e moças. A problemática pode resultar de certo choque entre os costumes morais da tribo (onde as filhas é usada pelos pais como instrumento de amizade e a mulher como instrumento de comércio), e nossas normas morais. Muitos rapazes para evitar que suas futuras esposas sejam assim instrumentalizadas, pedem que fique internas com as irmãs, até a época do casamento.24

Maybury-Lewis, a este respeito, diz que os rapazes falam de sexo a maior parte do tempo, quando estão a sós e muitas vêzes também quando estão na presença de outras pessoas. Alguns raramente conseguiam ver uma mulher passar sem virar para um companheiro e dizer-lhe com gestos adequados, que desejavam manter relações sexuais com ela.

(...) Um tópico perene era quem mantivera muitas relações e quem não.(...) forçados a conter-se numa época em que se espera que satisfaçam sexualmente, eles reagem ansiosa e abertamente por gratificação sexual ou por rejeitá-la ostensivamente como algo efeminado e inadequado para pessoas tão másculas (l984: 131).

1.5. Diretório da Missão Salesiana de Mato Grosso

Ainda no ano de 1975, o Pe. Geraldo Pompeu de Campos, então inspetor, em conformidade com a deliberação 3.9 do CIECG-73-Capítulo Inspetorial Especial de Campo Grande, 1973, determinou o seguinte:

"Será elaborado um Diretório que sirva de unidade de ação para todos os que trabalham na área indígena",

O Pe. Rodolfo Lunkenbein ficou imcunbido de elaborar um esquema do diretório.

Neste ínterím, em Sangradouro

No finzinho de dezembro de 1975, ocorreu a morte esquisita (suicídio)25 do mestre Polici. Foi o sinal de que nem tudo ia bem, la pelas missões.26

Segundo Pe. José Marinoni,

Nos dias 1 e 2 de janeiro de 1976, reuniaram-se em Meruri salesianos e irmãs salesianas das tres missões a fim de examinar o esquema elaborado. Sugestões e emendas foram inseridas no texto, com aprovação unânime do grupo.

Este Diretório, com redação simplificada e cotejada em outros Diretórios, foi examinado no Encontro de Missionários de 24 de março de 1976, em Merure, presentes 19 membros das tres missões. Integraram-se novas sugestões. Examinado por Dom Camilo Faresin, então prelado, hoje bispo, de Guiratinga, e pelo Conselho Inspetorial, o Diretório foi encaminhado ao Conselho Superior para aprovação.Pe. Bernardo Thoil, Conselheiro Geral para as Missões, comunicando sugestões de peritos, deu sua aprovação em 14/08/7.27

Na visita inspetorial a Sangradouro, nos dias 21 a 24 de novembro de 1976, o novo inspetor Pe. Walter Bini, encontrou uma inspetoria abalada pelo suicídio do Me.Polici e pela morte trágica do Diretor de Merure, Pe. Rodolfo Lunkenbein, reafirma as orientações deixadas pelo representante do Reitor-Mór, Pe. Juan Vecchi, em sua visita de 1975 e escreveu:

Como orientações fundamentais, virão em breve as normas do Diretório Inspetorial Missionário, que servirão de base para um trabalho unido das nossas tres missões entre os indígenas.

Além disso, diante das perplexidades atuais ninguém pode julgar-se dono da verdade, mas todos devem colaborar, com diálogo em reuniões e conversas informais, para encontrarmos o melhor caminho, pensando sempre no bem dos Xavante, em primeiro lugar. Também as reuniões de missionários das tres missões deverão continuar, para se chegar a maior unidade de ação e maior colaboração entre as mesmas missões. Concluindo, no contexto atual do Estado de Mato Grosso, todo ele em evolução e crescimento rápido, com mudanças imprevistas a cada ano, devemos nos manter atentos aos acontecimentos e disponíveis para nos adaptarmos às novas situações com a prontidão e desapego próprios dos missionários.28

Estas contínuas referências a unidade de ação denotam a desorientação dos missionários frente as rápidas mudanças por que passavam, não só da Igreja em virtude do Concílio Vaticano II, das transformações na economia regional, do intervencionismo oficial na área indígena, da criação de Áreas Indígenas- que resultou na desapropriação das terras que pertenciam à Congregação Salesiana (Menezes, l982: 77).

Neste clima de conturbação geral, também os Salesianos se dividiram em "FUNAÍSTAS", "CIMISTAS", "SALESIANISTAS", "ANTROPOLOGISTAS" ... cada qual torcendo por suas idéias, por sua corrente...

Em toda parte levantou-se o vozeiro renovador, fortemente crítico quanto ao passado, e bastante inútil quanto ao indicar caminhos a serem seguidos. Particularmente o CIMI, - Conselho Indigenista Missionário, - que surgiu como bússola orientadora para os missionários na linha de frente, acabou assumindo a trincheira denunciatória e nela se acomodando e, algumas vêzes, com anúncios até com muita ciência, mas com pouca credibilidade missionária.29

Assim é que no dia 18 de janeiro de 1977, no septuagésimo quinto ano da presença missionária salesiana entre os Bororo e, também, em homenagem póstuma ao Pe. Rodolfo Lunkenbein, o Pe. Walter Bini, novo inspetor, apresentava o "Diretório para a Atividade Missionária da Missão Salesiana de Mato Grosso e da Inspetoria Imaculada Auxiliadora "aprovado no Capítulo Inspetorial de 1977, assembléia soberana para as atividades Salesianas na Inspetoria.

Este Diretório consta de 58 itens, assim distribuídos: 03 itens para as premissas;

12 itens para a Pastoral Global; 05 itens para o Compromisso com o Índio; 03 itens para o Missionário como Agente de Evangelização; 03 itens para a Formação Específica do Missionário; 06 ítens para a Metodologia; 03 ítens para a Formação integral do Índio; 09 ítens para a Evangelização e Catequese; 12 ítens para a Educação e 02 ítens para a Assistência Médico-Sanitária.

A idéia principal do Diretório está assentada na Evangelização que deve ser profunda e permanente. Os povos indígenas continuam a ser objeto especial da Congregação Salesiana (Constituição Salesiana, Art. 30).

O Compromisso com o Índio se concretiza:

- na promoção da saúde;

- na garantia da posse e usufruto da terra;

- na valorização e continuidade da cultura;

- na auto-suficiência econômica;

- na educação e formação da consciência crítica;

- na capacidade técnica para o trabalho;

- no exercício da liberdade responsável, de seus direitos e deveres tribais e sociais mais amplos;

- na vivência e celebração dos valores religiosos iluminados pelo Evangelho.30

A Educação Integral do índio constitui também o carísma específico da Missão Salesiana. Nela os pais, a comunidade, o ambiente cultural são os principais responsáveis. Os Salesianos como que reconhecendo a plena ingerência no passado, se colocam como assessores. A Pedagogia Indígena que antes foi substituida no sistema de internato, agora através da Educação Formal, complementa e assegura valor jurídico.

A escola deverá apresentar-se com as seguintes características:

1. Currículo, conteúdo e método adequados a realidade indígena;

2. Capacitação para as novas exigências do ambiente mediante uma instrução que deve ir além da alfabetização;

3. Professores indígenas como os indicados e os mais aptos para o ensino inicial, pelo conhecimento das normas de comportamento, das tradições e da língua do grupo;

4. Alfabetização na língua materna, depois o ensino bilíngue; pecuária, educação para o lar, confecção de artesanato com vistas a sobrevivência;

5. Aprendizado agro voltados à cultura indígena e cultura envolvente, buscando a promoção geral;

6. Espírito crítico diante dos meios de comunicação social e da política;

7. Respeito à pessoa e à cultura. Evitando, por meio da pressão, a retomar ou abandonar costumes tribais ou introduzir novos;

8. Conveniada com instituições que venham a colaborar na educação indígena.

Como constatamos, as diretrizes deste diretório mostraram um referencial, um norteador das atividades missionárias pois nem tudo ia muito bem na presença missionaria salesiana, como constatou a inteligência salesiana no término do Capítulo Inspetorial de l977.

No entanto, constatações, - e sérias, - também as há, que indicam que nem tudo vai indo bem em nossa PRESENÇA MISSIONÁRIA:

a) primeiramente e antes de mais nada, constata-se desalentadora imprecisão teórica, e, consequentemente, também prática (grifo nosso) : ninguém está sabendo o que é mesmo EVANGELIZAR, e, portanto, como EVANGELIZAR.

b) Em nível de Inspetoria, assume-se plenamente a constatação que o CEG-21(Capítulo Especial Geral/21) fez para toda a Congregação: - "A nossa animação missionária entre os Bororos e os Xavantes está longe de suscitar verdadeiro interesse entre os jovens de nossas comunidades". - cf.CEG-21, nº 145 - Há humilhante desinformação entre os salesianos.

c) Inexistem Salesianos qualificados, capazes de orientar a reflexão e ação missionária na base de estudo sérios.

d) não tem sido possível a formação permanente para os Salesianos empenhados em nossa Presença Missionária entre os Bororos e os Xavantes, ou são poucos frequentes os momentos fortes de oração e reflexão.

f) A organização da pastoral missionária revela preparação cultural (tanto em nível teológico como antropológico) insuficiente e atenção inadequada tanto na planificação pastoral, como na metodologia missionária.

g) Para tornar mais difícil a situação, apareceram complicações de caráter externo, - a FUNAI e CIMI, - que reduzem bastante a liberdade de ação e de iniciativa.

h) A real preocupação com o uso e usufruto das terras (da reserva?) traz o fenômeno da dispersão dos Índios, com a formação de novas aldeias.

i) Vejam a constatação do Diretório da Missão, que é a negação de setenta e cinco anos de trabalho, - "Em nenhum grupo", "Bororos e Xavantes", foi possível criar estruturas (eclesiais?) apropriadas à cultura deles"- DM- nº 4.

j) Para terminar: - o trabalho nas Missões encontra-se desorientado. As comunidades Salesianas, nas Missões, deixam muito a desejar. Há divisões entre os próprios salesianos das Missões [grifo nosso] (Comunidades). Os diretores dedicam-se mais a atividades práticas (mecânica, lavoura, agro-pecuária, etc.) do que propriamente Pastor e Guia da Comunidade. A Evangelização e Catequese é quase nula..31

Apesar das orientações dadas pelo Capítulo Inspetorial, através do Diretório, as dificuldades de implantação e ritualização das novas diretrizes se manifestaram na Assembléia Missionária ou Reunião de Missionários realizada em Merure, nos dias 19 a 22 de outubro de 1977. Onde a questão crucial do internato continuou provocando incômodos e a necessidade da tomada de consciência dos estragos do internato na formação dos jovens.

Em Sangradouro, reduzir-se-á, o antigo internato. Será feito um trabalho de conscientização da tribo, para revalorizar a maneira de educar os adolescentes.32

1.6. Revalorização dos padrinhos Xavante e renovação do internato feminino

Os Salesianos que tinham assumido para si toda a atividade educativa dos jovens reconhecem a importância, a necessidade e a urgência de responsabilizar os padrinhos e os anciãos na formação dos jovens, "Wapté", de acordo com a ordem social Xavante.

Elimine-se a palavra e a idéia de "internato", tanto em Sangradouro com em São Marcos.

Meninas- unanimente recomendamos a necessidade de continuarmos a oferecer apoio às meninas Xavantes, quando os pais não tiverem condições de o fazer.

Todos estamos de acordo que o internato das meninas não pode continuar da forma atual.

Cada comunidade estude as modificações exigidas para não segregar as meninas do próprio contexto cultural. Comunique-se a decisão tomada.

A aceitação seja feita pelas comunidades, num diálogo franco e responsável.33

Em Sangradouro, no dia 09 de maio de 1978, os missionários se reuniram e ratificaram as decisões de Merure no que se refere às meninas

(...) para que elas se sintam no ambiente, e se possa protelar o casamento até os 15 anos combinamos que teriam nossa assistência, mas sem precisarem fazer os serviços que não tem de se fazer na aldeia (encerar casa, servir a mesa, cozinhar etc.)."34

Na visita inspetorial de 10 de setembro de 1978 a Sangradouro, o Pe. José Winkler, observa que:

A comunidade salesiana está bastante unida, apesar do choque das idéias (antropólogos, CIMI, FUNAI) que se alastra na maioria dos núcleos indígenas. (...)

Recomendo certa atenção no seguinte:

(...) Faça-se o possível para que a presença dos salesianos em reuniões na aldeia e nas festas seja uma constante;

- Tendo-se extinto o internato dos meninos procure-se encontrar novas formas para que a educação iniciada com os mais novos seja complementada com os rapazes de certa idade;

- Insistá-se com firmeza para levar os índios à independência econômica, mesmo que seja necessário quebrar estruturas tradicionais indígenas.35

Todo controle é pouco. É bom saber o que os índios andam falando e pensando nestes tempos de mudança.

A educação formal iniciada na Missão não deve ser descuidada na aldeia. Por isso os mais velhos devem colaborar na formação dos mais novos. Na ausência do internato, incrementar novas atividades educativas para que os jovens não se encontrem no ócio, fonte do todos os vícios. Dom Bosco queria que os alunos das casas salesianas estivessem sempre ocupados e assim o "demônio" não encontraria oportunidade de levá-los ao mau caminho.

Mesmo que seja necessário romper com estruturas sociais e simbólicas é conveniente a independência econômica dos índios, uma vez que a Missão já não consegue sustentar a um número cada vez maior de Xavante em idade escolar.

Em São Marcos, no dia 09 de setembro de 1978, a Assembléia Missionária volta novamente a insistir na atenção às meninas Xavante para:

(...) que as mesmas fiquem uma parte do dia com os pais; venham a escola e atividades de promoção humana, podendo permanecer à noite na casa das irmãs.

Cada comunidade determine o período a ser transcorrido com os pais. A aceitação das meninas seja estudada em conjunto.36

Esta insistência na atenção especial para com as meninas deve-se ao fato de querer planejar melhor o casamento e assim poder fazer um certo controle da natalidade Xavante.

1.6. Nova aldeia

No dia 20 de maio de 1979, o inspetor salesiano visitou a Nova Aldeia Dom Bosco, na nascente do Rio Cristalino, afluente do Rio das Mortes e participou de uma reunião com os chefes daquela aldeia.

A grande preocupação do chefe Cirilo é abrir um Posto da FUNAI lá, a fim de conseguir mais ajuda financeira. Pude, porém, perceber que não está sendo apoiado pela maioria dos próprios colegas da tribo e que aquele chefe sofreu uma influência negativa de algumas pessoas em Brasília que não concordam com a atuação dos missionários. Mas creio que o caso não merece uma atenção especial.37

Naturalmente que a visita do inspetor à nova aldeia mostrou a preocupação dos Salesianos em não perder o trabalho já feito com aqueles Xavante e em dar continuidade a ele. Não só porque o "Bom Pastor" cuida das suas ovelhas mas porque ter um Posto da FUNAI na área de Sangradouro pode significar problemas futuros por falta de perspectivas comuns. Esta visita pode ter sido feita até pelo fato de ter chegado ao superior a idéia do posto na área de influência salesiana. O líder Xavante, praticamente, buscava o aval do inspetor, o sinal verde para a entrada da FUNAI com um posto indígena.

Tão logo foi criada a nova aldeia, os Salesianos se apressaram em dar todo o apoio no estabelecimento da infraestrutura: máquinas (caminhões, tratores ...), combustível, lavoura de arroz, construção de um ambulatório, alojamento para desobriga dos Salesianos e a instalação de uma mini-usina, da qual participei, em janeiro de 1978, na construção do castelo e da instalação de um velho trator inglês, com suas rodas transformadas em rodas d’água e acoplado a um dinâmo no seu eixo cardan. A engenhosidade e o trabalho principal foram do Me. Luis Wurstle, salesiano de origem alemã, responsável pela instalação das usinas de Sangradouro e São Marcos. De início a usina serviria para manter a geladeira do ambulatório, para conservar remédios.

O interesse Salesiano era, notadamente, em não permitir a ingerência da FUNAI em área de atuação salesiana.

2. Década de 80

Em maio de 1980, o mesmo inspetor, retorna a aldeia Dom Bosco e troca idéias com os chefes Xavante, João e Henrique, visitou as barragens da nova usina e constatou os estragos nela feitos pelo excesso de chuva daquele ano na região.

2.1. Escolarização sim, mecânica não

Já em Sangradouro

Há uma grande insistência por parte dos chefes Xavantes que se dê a oportunidade para alguns rapazes aprenderem mecânica num bom curso fora da reserva. Porém, nós como Missão não podemos favorecer a saída dos índios, mesmo se for para o bem deles. Nós somos favoráveis ao aumento da escolaridade dos Xavantes, pelo menos ate a 6ª série do 1º grau. O Pe. Miguel ficou encarregado de dar ao CEE, a pedido do presidente, Pe. Raimundo, os devidos esclarecimentos.38

Sendo muito interessante e útil aos Xavante terem conhecimentos de mecânica por causa da manutenção de tratores, caminhões e outros veículos é que os chefes Xavante reivindicaram o curso de mecânica. Surpreendente as razões dadas, para não favorecer a saída dos índios, mesmo que seja para o bem deles, uma vez que Dom Bosco foi um entusiasta pelas escolas profissionais. Praticamente os jovens Xavante de Sangradouro estavam confinados, segregados, para evitar contatos, influências pluralistas, etc.

2.2. Semi-internato feminino resistindo aos novos tempos

Ainda, sobre o internato das meninas, neste final de década, o inspetor julgou

Não me pareceu tão agudo o problema do internato das meninas. Basta fazer um rodízio no trabalho e que elas (no momento seis) passem um período do dia com os pais, se estes estiverem na aldeia. Um certo redimensionamento dos ambientes das irmãs facilitará a conservação das mesmas.39

As meninas Xavante continuavam a ser protegidas do assédio sexual. Interessante registrar que as índias também chamavam a atenção de alguns missionários, ao ponto do Inspetor deixar a seguinte recomendação:

Em relação às índias: amizade sim, mas cuidado com qualquer expressão de afeto!

As normas nos é dada pelo comportamento dos próprios índios, além das da sadia pedagogia salesiana.40

2.3. Novos céus ...

Nesta década, Sangradouro vive um momento de muita euforia e esperança. Os frutos do trabalho, dos convênios, dos choques das idéias foram altamente compensados nas lavouras Xavante.

Este ano entrará na história dos Xavantes como da primeira grande colheita de arroz. E isso graças à substancial ajuda da FUNAI, da assistência dos irmãos, sem querer excluir as bençãos de Deus. Parecem que os índios estão conscientizados quanto ao bom uso desta riqueza.41

A década de 80 promete ser melhor.

Em 18 de maio de 1981, o Visitador Extraordinário, Pe. Antônio Mélida, em nome do Reitor Mór, visita Sangradouro e destaca que

Desde uns anos mudou a colocação da Presença Salesina nas missões juntamente com a intervenção da FUNAI. Os salesianos tiveram que adaptar-se a nova situação a qual não resultou fácil devido às diversas circunstâncias por todos conhecidas. E se avança levando em conta as novas experiências.42

Os acordos com a FUNAI, na década passada, resultaram positivos, para as partes envolvidas, sobretudo para os Xavante nos projetos agrícolas e pastoris (Menezes, 1982: 76 a 85).

A mudança de mentalidade e postura não foi fácil para os Salesianos acostumados a viverem num mundo a parte e relativamente auto-suficiente.

No ano de 1981 a estatística Salesiana registrou:

- 322 Xavante da aldeia "Sangradouro";

- 174 Xavante da aldeia "Dom Bosco";

- 23 Bororo da aldeia Sangradouro e alguns "brancos".

Pe. Antônio Mélida, lembra o objetivo principal da missão para com os destinatários índios.

Com todos estes mantem-se um trabalho de evangelização, catequese com atos de cultos tradicionais. Funciona uma escola do primeiro grau (1 a 4), bilíngue, que é hoje o melhor contato que se mantém com os Xavantes, conservando sempre a identidade dos mesmos.43

Na consecução dos objetivos frizados por duas vêzes, num mesmo parágrafo, a escola é o instrumento por excelência.

2.4. "Evangelização inculturada"

A novidade está na "evangelização inculturada," isto é, aproveitar elementos da cultura e religião autóctones para expressar o evangelho, na valorização da tradição indígena, e no incentivo à manutenção da identidade índia. Em tempos passados a evangelização tradicional consistia em catequizar mediante corpo doutrinal católico (catecismo), estabelecer uma prática sacramental igual aos dos outros cristãos, implantar o cristianismo tal qual a origem dos catequistas e as culturas e religiões indígenas eram vistas como obra do diabo. Por isso a ordem era extirpar o xamanismo, a medicina nativa, a arte plumária, as danças, etc. até a eliminação da identidade e de tradições indígenas. O objetivo maior era "civilizar", "integrar" e "cristianizar".

A década de 80 ritualiza, a mudança de mentalidade, a profunda revisão metodológica missionária, provocadas pelo Vaticano II e pelas críticas antropológicas. Nela o incentivo a conservação da cultura, manutenção de ritos, de costumes ancestrais, o retorno às origens, a volta às tradições culturais e religiosas, a participação dos velhos na transmissão da cultura marca a nova fase missionária.

Como é possível a "evangelização inculturada" dos Xavante sem afetar profundamente a cultura, a identidade dos mesmos? Sabemos que a religião causa mudanças profundas num ser, num povo. Mesmo sendo inculturada exige uma mudança radical, profunda (metanóia). É como mexer no código genético de um ente.

Segundo Christopher Dawson, a religião constitui o fundamento último da cultura, a sua estrutura primária e sustentante, a sua componente principal (grifo nosso). A religião não é produto da cultura (e muito menos de uma cultura primitiva com o fim de obter uma explicação ingênua, fantástica, mítica da realidade [grifo nosso]), mas faz parte da cultura como seu princípio vital e essencial: de modo que os altos e baixos de uma cultura correspondem aos altos e baixos da sua alma religiosa (Mondim, 1986:176).

Por mais que para lá possa ir esse condicionamento cultural - e poderia certamente ir muito - não poderemos nunca excluir a relação recíproca, pela qual a cultura é moldada e modificada pela religião. De fato, é obvio que a maneira de viver do homem corresponde à sua maneira de conceber a realidade e consequentemente também a sua maneira de aproximar-se da religião. Mas, não obstante isso, o objeto da religião transcende essencialmente a vida humana e a maneira de viver do homem. À frente e acima da experiência humana e da conduta social, há o mundo da potência e do mistério divino, que é concebido seja pelos primitivos como pelos teístas progressistas como essencialmente criativo e como o último recurso de todas as possibilidades humanas. Por conseguinte, enquanto na prática a religião de um povo é limitada e condicionada pela cultura, em teoria - também para os mesmos primitivos - a cultura é um deliberado esforço para pôr a vida humana em relação com a realidade divina e para subordiná-la à potência divina.

(...) Não podemos compreender as estruturas íntimas de uma sociedade se não conhecemos bem a sua religião. Não podemos compreender as suas conquistas culturais se não compreendermos as crenças que estão atrás delas.44

Arnold Toynbee em Study of History, 1934, (Mondin,1986:177), apresenta a religião como fenômeno fundamental e decisivo para a existência humana. Ele reconstrói a história da humanidade como uma sucessão de civilizações, ou seja, de culturas, cuja aparição, desenvolvimento e decadência coincide com o aparecimento, desenvolvimento e decadência de uma determinada religião.45

Estas considerações, de natureza teórica, devem ser consideradas pela antropologia religiosa. A aculturação cristã do Xavante é um problema sério e de difícil solução. Não é sempre que se tem uma figura, como a de Tomás de Aquino, que soube traduzir a mensagem cristã nas categorias metafísicas da filosofia aristotélica, para traduzir a mensagem cristã mediante as categorias filosóficas, sociais e culturais dos Xavante.

Voltando à visita extraordinária do Pe. Antônio Mélida, no seu final foram deixados princípios, indicações e sugestões:

A- Uns princípios gerais para reflexão

1. A presença salesiana em Sangradouro tem como finalidade

a) a evangelização e formação cristã do grupo Xavante e das outras pessoas que vivem neste território;

b) promoção humana nas suas diversas formas: escola, orientação nos trabalhos, assistência na saúde, formação nas virtudes humanas, etc..

2. A comunidade dos salesianos e filhas de Maria Auxiliadora devem estruturar-se melhor possível para esta finalidade: pessoas aptas para desempenhar bem sua direta responsabilidade de amor ao índio, virtudes missionárias etc.;

3. As comunidades devem estar capacitadas para uma reflexão constante sobre sua vida, suas atividades, as necessidades reais dos destinatários para que o trabalho pastoral seja cada vez mais eficaz em vistas as finalidades;

4. O acompanhar com amabilidade e paciência os Xavantes, o viver integrado com eles, o atraí-los para ter ocasião de ajudá-los em sua formação vê-se como uma necessidade urgente aqui mais que em outros lugares. Toda separação pode resultar facilmente negativa;

5. A corresponsabilidade entre as duas comunidades obriga a um trabalho conjunto de planejamento, atuação e revisão para alcançar um trabalho sem tensões, segundo a linha oficialmente estudada e adotada, cada qual segundo sua própria responsabilidade.46

Em síntese, a visita ressalta os elementos fundamentais do Sistema Preventivo de Dom Bosco: Religião (evangelização,catequização), razão (escola indígena) e carinho (amabilidade, paciência). Aconselhamento etc. Base do Sistema Preventivo.

Das considerações práticas (também em número de cinco) transcrevo aquelas relacionadas com a comunidade Xavante.

6. (...);

7. (...);

8. As atividades pastoris. Será conveniente uma maior presença sacerdotal na escola (grifo nosso) por parte do diretor para que a catequese e a organização de encontros com os meninos e jovens seja maior; faltando o internato, a escola é o tempo mais apto para acompanhar a formação dos moços. O que se poderia fazer para aumentar os encontros formativos amigáveis com a juventude Xavante? Seria possível organizar algum salão de jogo, ao estílo oratoriano, onde se poderia também oferecer aos responsáveis da aldeia ocasião para estar e trabalhar com os seus;

9. Os colaboradores. Para realizar todo o trabalho em andamento há falta de salesianos e filhas de Maria Auxiliadora, encontrá-los não é fácil. Seja preocupação dos responsáveis em angariar colaboradores em boas condições para uma colaboração serena, sobretudo para as atividades materiais.

A colaboração com as irmãs está boa, não se descuidem as frequentes reuniões de planificação e revisão conjunta, de revisão fraterna;

10. A atenção especial para as meninas.

O internato tem deixado de ser um serviço. Porém corre-se o perigo de perder as vantagens inegáveis que trazia para a formação cristã e educação das meninas Xavantes. Estude-se este ponto com serenidade tendo em conta as experiências feitas, com finalidade de substituí-lo com alguma outra estrutura que ofereça aquelas vantagens.

Com referência aos casos de algumas meninas entrarem no semi-internato por circunstâncias particulares não se anteponha demasiada relutância se as irmãs e os pais estão de acordo em que as filhas vivam nesse regime. Uma pergunta que podemos fazer é esta: Que estamos fazendo em concreto para que a mulher Xavante seja considerada e tratada com dignidade cristã e segundo os direitos humanos? Sobre o que já se está fazendo, talvez se possa fazer algo mais.47

Na falta do internato, a escola é o espaço e o tempo mais oportuno para a catequese. Por isso o diretor deve estar sempre presente. Nele está encarnada a figura do guia espiritual da comunidade.

Como alternativa para o vazio do internato, o Pe. Antônio Mélida, sugeriu um salão de jogos, a moda do oratório, como chamariz, tanto dos jovens como dos seus responsáveis, onde se poderia oferecer não só diversão, mas formação catequética. Vê-se o quanto ainda falta de visão antropológica naquele que vem de longe e com idéias inadequadas e alheias a uma realidade diversa da Europa.

Para que salão de jogos quando o Xavante tem mais necessidade de informações técnicas no manejo da máquinas, das ferramentas, da terra e do gado, imprescindíveis após o contato? Lazer por lazer a própria comunidade Xavante promove de acordo com sua cultura, rica de festas.

Pela falta de Salesianos, os colaboradores são lembrados para as atividades materiais. Mas que a colaboração seja apta e serena e que não venha trazer inquietações aos Xavante, como a Operação Mato Grosso, ONG, que foi convidada a se retirar, e aos Salesianos, inclusive na vocação, muitas vêzes abalada por voluntárias leigas que até conseguiram "pescar" algum Salesiano, em crise vocacional, para si.

2.5. Mulher Xavante e sexualidade

Com relação a mulher Xavante, vista pela lente da cultura cristã, sobretudo pela Igreja Católica que até hoje ainda não foi capaz de valorizar a mulher com o múnus sacerdotal, Ada Gambarotto, que viveu seis anos com os Xavante, diz:

À primeira vista a mulher Xavante parece uma escrava, uma marginalizada na vida da tribo. Olhando além das aparências nota-se como a mulher em casa, na roça e na vida da tribo tem uma responsabilidade grandíssima e é a MULHER .

(...) Quando olho uma aldeia Xavante e não encontro nem mulheres abandonadas e nem filhos órfãos, me questiono profundamente e não posso emitir um juízo negativo sobre a estrutura matrimonial desse povo.

(...) Depois do parto o marido não pode se aproximar da mulher até que a criança não fique sentada.48

Já Maybury-Lewis, ao tratar das relações entre marido e mulher, diz que é notável o entendimento entre eles. As querelas são muito raras e não se lembrou de ter visto cenas de violência entre eles (1984:133).

A maior preocupação dos Salesianos é para com as meninas que na cultura Xavante casam-se quando são ainda pequenas. Elas são levadas a manter relações sexuais com seu marido antes de serem fisiológicamente maduras (1984:205).

Um homem começa a cohabitar com sua esposa quando ela tem entre oito e dez anos de idade, de modo que os meninos mais velhos na época da iniciação não tem que esperar muito para manter relações sexuais com suas esposas. (...) Assim, as meninas normalmente são defloradas muito antes de sua primeira menstruação e antes que tenha havido qualquer desenvolvimento significativo de seus seios. (...)

As meninas Xavante são defloradas, geralmente, por um homem impaciente, assim que elas crescem um pouco. Quase sempre a experiência é dolorosa e muitas meninas reclamam dizendo não gostar e que dói muito, quando seus maridos as induzem a manter relações sexuais. Mesmo assim, a dor que para muitas mulheres está associada às primeiras vêzes em que mantiveram relações não parece ter consequências traumáticas. Frigidez é algo incompreensível para os Xavante de ambos os sexos, cuja atividade diante do sexo pode, em geral, ser resumida na expressão: "copular é bom" (Maybury-Lewis, 1984:131).

Como disse Gambarotto

Nota-se na vida dos Xavante certas liberdades sexuais que nós não temos e que consideramos prostituição. Por exemplo as jovens ou mulheres são castigadas por faltas cometidas entregando-a aos velhos. Os maridos tem direito nas cunhadas até que lhes seja permitido aproximar-se de sua mulher depois do parto (deve esperar que a criança fique sentada). Há ainda o caso do noivo que paga os caçadores dando em uso sua esposa ou outros pagamentos. A mesma poligamia acontece quando o homem desposa a filha mais velha e há falta de homens na aldeia. Nesse caso, ele desposa a mais velha e todas as irmãs dela lhe pertencem, dormem com ele, desde que sejam ADZARUDU e cada ano ele é obrigado a fazer DABATSA para uma delas. Também esse fenomeno não pode ser olhado com os nosso parâmetros. (...)

Um valor muito grande para a tribo foi a atitude do missionário em convencer os índios a deixarem que as meninas fiquem adolescentes e não sejam dadas por esposas com a primeira menstruação. Se hoje é raro a morte das primíparas entre os Xavante deve-se a essa atitude dos missionários. Foi isto muito criticado e contestado porque as meninas eram recolhidas em internatos que nem sempre respeitavam os valores tribais e criavam em algumas crises graves ao regressarem à aldeia no dia do casamento. Posso afirmar com base em que tomei conta dessas meninas, que dependia muito de quem vivia com elas. Muitas estão hoje perfeitamente inseridas na tribo e o choque não foi tão degenerador ...49

Sobre este aspecto, Gambarotto, soube fazer uma síntese feliz e cheia de sabedoria

O ponto-chave da divergência entre os padrões morais nossos e dos Xavantes está na vida sexual. Merece um estudo bem mais profundo para que os missionários tenham uma linha em sua ação pastoral, pois quando nos deparamos com esse problema dificilmente saímos dos parâmetros de nossa moral, ou melhor, nossa forma antropológica ocidental de encarar a sexualidade"50

Para a cultura Xavante a poliginia é um padrão ideal. Assim um homem pode manter relações sexuais com diversas mulheres mas desde que atendam as circunstâncias acima mencionadas. As mulheres parecem não ressentir das relações que o marido mantém com as demais esposas ou outras mulheres quando dadas como prestações sexuais. Com todas variantes de comportamento sexual os Xavante mantêm uma notável estabilidade no casamento. O relacionamento entre marido e mulher é pautado pelo entendimento.51

2.6. Exercício do comércio

Os missionários mantinham uma loja em Sangradouro, onde os índios adquiriam pequenas quantidades de alimentos, objeto de uso doméstico e material de higiene. No iníco os negócios eram feitos a base de troca. O artesanato indígena era adquirido pelo padre, encarregado da loja, em base a equivalência de mercadorias, posteriormente revendido nos centros comerciais do país. Aliás era comum nos internatos salesianos a existência de uma loja onde se vendia material escolar, material de higiene pessoal e outros pequenos objetos, anotados em cadernos e depois pagos pelos responsáveis.

O superior, em visita, recomendava:

Creio que devem ser estimuladas as iniciativas dos Xavantes para que surjam novos líderes. As encomendas dos Xavantes devem ser resolvidas por eles mesmos. Quanto menos os missionários servirem de "ponte" nos negócios, melhor! Evite-se o empréstimo de dinheiro aos índios, sobretudo por ocasião de viagens.52

De forma que pelo exercício do comércio e pela escola os Xavante foram dominando atividades comerciais. Para evitar mal entendidos e falatórios o inspetor recomendou aos missionários para não aceitar encomendas de Xavante e muito menos emprestar dinheiro. Pela experiência, a venda fiada e o empréstimo de dinheiro aos índios, não poucas vêzes, redundaram em perdas para a Missão.

Outro aspecto do problema estava relacionado com a proibição da saída dos Xavante da área , pelos salesianos, a não ser por ocasiões especiais. O que ocasionou uma certa dependência dos Xavante a boa vontade do missionário, "ponte" entre a área indígena e a cidade.

Ainda sobre a loja da Missão, nela

deverão ser comercializados somente artigos principais de subsistência e que se tenha sempre em vista este objetivo: passar aos poucos esse setor para os próprios índios, considero uma tentativa válida neste sentido o açougue que nestes dias foi aberto sob a responsabilidade dos próprios Xavantes.53

A respeito da carne bovina, Cláudia Menezes observa que:

Hoje, como no passado, os índios raramente consomem carne bovina: as reses são abatidas somente em condições excepcionais quando estas estão velhas, se acidentam ou por ocasião das tarefas coletivas. Nas "roças de toco", e de arroz (...)

A carne e o leite não constituem assim alimentos importantes para os índios, como também são inaproveitados como matéria prima os ossos, o couro e os chifres dos animais. De um modo geral os Xavante não apreciam laticínios e, comparativamente, valorizam menos a carne bovina do que a carne de caça (antas, pacas, veados etc., estão praticamente extintos na área da reserva); na falta desta última, porém, a primeira não é de forma alguma rejeitada (1982: 79-81).

2.7. Política de "boa vizinhança"

No que se refere ao relacionamento com os índios o inspetor lembrou que:

O relacionamento com os índios deve ser de máximo respeito mútuo, sem perder de vista a finalidade da nossa presença: evangelização, através de uma sã pedagogia e adequada catequese. Os Xavánte querem missionários mansos e não nervosos (...).54

O superior mais uma vez lembra que a mansidão faz parte da Pedagogia Salesiana. Dom Bosco costumava dizer aos seus que uma gota de mel atrai mais moscas do que um barril de vinagre.

Em 02 de maio de 1983, há quase um ano depois, novamente o inspetor volta a frisar a questão do relacionamento com os índios e o cuidado com a publicidade.

O relacionamento, em geral, é muito bom. Os Xavantes sabem valorizar sobretudo a dedicação do diretor sem desmerecer os outros. Há dificuldades com os poucos Bororo (5 famílias). Estes colheram muito pouco neste ano e a caristia será grande. Necessitarão ajuda para o sustento, além de água encanada e sanitários. Não querem saber de mudança para Meruri, onde as condições seriam mais favoráveis com o tempo resolvida a situação.

Os Xavantes da aldeia Dom Bosco pediram uma pintura nova do ambulatório, luz e uma estrada melhor. Os Xavantes daqui solicitaram apenas luz na Aldeia, no centro e nas casas, maior segurança na permanência dos missionários.

Deixei orientações a respeito do aumento da reserva e tratamento de agentes de publicidade. Quanto menos publicidade tanto melhor.55

O superior encontrou em Sagradouro um ótimo espírito de convivência entre os missionários, apesar de pequenas dificuldades devido ao temperamento de alguns, e os índios.

Os Xavante, sempre reinvindicando melhoria, uma vez que a razão da presença salesiana são eles. Por isso querem aquilo que é bom do mundo "civilizado": luz, estrada melhor, etc.

Quanto aos Bororo, diante dos Xavante ficaram um tanto desprestigiados: após tantos anos com os salesianos, comprometidos com eles, nem água encanada e nem sanitários possuíam em suas casas.

2.8. Terras Salesianas

Os salesianos há tempo, em virtude dos Bororos estarem no terreno da Missão, vem sistematicamente querendo a transferência deles para Merure. Assim como também a dos Xavante, para a área indígena, demarcada para eles, adjunta a Sangradouro. É bom lembrar a este respeito que:

Comprada em 1907 a fazenda Sangradouro, com o fim de ser a pouco e pouco doada aos índios mais aproveitados na catequese, acha-se agora (1919), pela excellente posição topográphica, sob os mais linsonjeiros auspícios.

Nas suas immediações vae-se condensando começam ja uma população morigerada e laboriosa immigrada de Goyas e de Minas Geraes, attrahida pelo bem merecido renome dos seus campos de criar e das suas mattas ubérrimas. Também os Boróros a dar valor a esses predicados, e assim está em bom princípio a corrente que os vae fazendo approximar dessa região fadada a um dos mais explendidos futuros.56

No dia 5 de junho de 1982, foi feita a visita inspetorial, pelo Inspetor, acompanhado pelo Diretor e pelo econômo de Sangradouro, à fazenda dos salesianos, em frente a área indígena de Sangradouro, do outro lado da BR-070. A inspetoria mandou fazer um levantamento completo e proceder a medição de sua propriedade.

Gostaria de recomendar o máximo cuidado com este patrimônio. Não é só da comunidade de Sangradouro, mas de toda a inspetoria. O mesmo vale para o gado. Quanto antes seja cercada toda a fazenda e que fique apenas o gado leiteiro nas imediações da sede de Sangradouro. (...)

Foi comunicado aos Bororos que poderão continuar a morar e cultivar terras de propriedade da Missão Salesiana. Porém não poderão continuar a morar trazendo para cá civilizados, mesmo que seja através do casamento com eles.57

Tendo em vista problemas de terra entre a FUNAI, fazendeiros e os próprios missionários, é que todo cuidado é pouco. Por isso a preocupação do inspetor com a fazenda comprada, próxima à Área Indígena, para a demarcação e cercamento dela.

Foi realizada a medição da nossa propriedade e está sendo contactado um senhor com dois filhos para levantar a cerca da fazenda. Este deverá ser registrado ou que apresente comprovante de autonomo antes de iniciar efetivamente o serviço. De qualquer forma deverá ser firmado um contrato de empreitada especificando bem o serviço e a forma de pagamento. (...) Repito mais uma vez que esta fazenda é um patrimônio da inspetoria que deve ser conservado com muito carinho.58

A compra da fazenda, a demarcação, o cercamento, etc., denotam que a situação econômica de Sangradouro vai bem. Mas é bom manter uma certa discrição a este respeito diante dos índios. Assim, quanto a

(...) situação financeira- a casa está relativamente bem. Recomendo que se tenha o devido cuidado com a conservação daquilo que é essencial para o funcionamento da casa e que não se dê a impressão aos índios de que temos dinheiro à vontade.

Quanto mais controle contábil houver, mesmo nas pequenas despesas (loja) com maior tranquilidade se caminha.59

Diante da aquisição, dos serviços de incrementação da fazenda fica difícil afirmar dificuldades financeiras para os índios, que sempre estão reinvindicando algo, dai a preocupação com a parcimônia, austeridade e a imagem de pobreza.

Já o inspetor, Pe. José Marinoni, em sua visita inspetorial de 23 a 25 de novembro de 1984, lembrou que

(...) com a ação missionária, realizamos obra de paciente evangelização e fundação da Igreja num grupo humano" (Constituição Salesiana, Art. 30).60

Na visita de 4 de fevereiro de 1985 deixou algumas orientações, bastante enfatizadas pelos antecessores.

É necessário ir até os índios para que percebam que são amados (...) Embora louvável o atendimento oferecido na escola às crianças e jovens, todavia é indispensável que os mesmos sejam atendidos e educados e acompanhados também em outros momentos. Procure-se envolver as lideranças e os pais nesse acompanhamento. Lembro que os nossos destinatários aqui em Sangradouro são: os Chavantes, os Bororos e a população envolvente. Na programação devem merecer nosso cuidado".61

Na visita inspetorial de 1986, o inspetor, deixou estas recomendações para a comunidade de Sangradouro:

Relacionamento com os índios: peço aos irmãos que com mais frequência estejam no meio dos índios indo mais vêzes à aldeia e participando das reuniões. É de suma importância que "falem a mesma linguagem" perante os índios e que sigamos uma linha comum. Isso se consegue mediante um planejamento conjunto e constante reuniões de nossas atividades e atitudes. Visitei com o Pe. Diretor e o Cacique Paulo Nauda alguns pontos da reserva onde os chavantes estão trabalhando, derrubando matas e serrados, para suas roças. Estão de parabéns os índios e os missionários. Continue-se incentivando cada vez mais jovens e velhos para inculcar em todos, por palavras, mas sobretudo, pelo testemunho o amor ao trabalho. E o aproveitamento das terras. É indispensável insistir junto às lideranças no sentido de impedir que o fumo e a bebida penetrem no meio dos Chavantes. A Reforma Agrária está a exigir o uso adequado das terras. Procure-se preservar a área explorada pelos chavantes na obtenção de material indispensável para sua vida. Veja-se a possibilidade do arrendamento das terras de propriedade da Missão. Tudo seja feito mediante contrato registrado em cartório. Comunique-se tudo ao ecônomo inspetorial.62

Nesta visita, ficou clara a insistência da presença constante dos salesianos junto aos indígenas. Como também da unidade de ação.

Outra preocupação, diante da Reforma Agrária, é a ocupação das terras indígenas. Para isto é necessário a ampliação da fronteira agricola. Por fim, já que os índios não saem da propriedade da Missão, depois de muitos anos de tentativa, é conveniente o arrendamento, mediante contrato registrado em cartório.

2.8. Reformulações do diretório frente aos novos tempos

Em 1986, o Diretório para a Atividade Missionária da Missão, em vigência desde 1977, sofreu modificações e atualizações, em virtude da realidade e das novas orientações. Assim que nos dias 20 a 22 de maio de 1986, a Assembléia Missionária, reunida em Sangradouro apresentou uma novo esboço de Diretório, que foi devidamente aprovado e apresentado, em Campo Grande, no dia 15 de julho de 1986, no 10º aniversário dos acontecimentos de Merure.

Por isso as recomendações da Visita Inspetorial de 1987 foram dirigidas neste sentido.

a) "vade mecum"

Não permitam que o "Diretório para as Missões" permaneça letra morta. É o nosso "vade mecum" que certamente nos possibilitará uma caminhada mais coragiosa e unissona e ao mesmo tempo abrir-nos-a espaço para novas experiências e progressos em todos os campos especialmente na evangelização e cateqiese. Continuem incentivando jovens e velhos xavante no amor ao trabalho e no aproveitamento das terras. O mesmo se faça com os Bororo.63

b) centenário da morte de Dom Bosco

No ano de 1988 os Salesianos comemoraram o centenário da morte de Dom Bosco, fundador da Congregação Salesiana. Assim Sangradouro recebeu a visita extraordinária, do Pe. Carlos Techera, representante do Reitor Mór, que deixou estas recomendações:

Tener siempre muy presente el objetivo de toda presencia salesiana: evangelizar y promover. Nosotros evangelizamos educando y educando evangelizando (grifo nosso). Miremos a Dom Bosco que tenia tan claras las metas del oratório: vivir la vida cristiana y ayudarlo à prepararse una vida de honestos ciudadanos (...). Reler para atuar cada vez mejor el Diretório que tiene la Inspetoria...64

c) "mea culpa, mea maxima culpa"

A Evangelização dos índios é sempre o fim, enquanto que a escola é apenas um meio, para catequização e cidadania.

Aos 27 e 28 de setembro de 1989, a Assembléia Missionária reuniu-se, em São Marcos, para reflexões sobre a inculturação, valorização da mulher, documentação (montagem de um arquivo para as questões indígenas), e outros temas. No aspecto educativo salientou-se o carisma salesiano (educação da juventude) e as dificuldades da formação dos "Wapté".

Os padrinhos não assumem seu papel e os jovens não tem nenhuma assistência (...). A Missão, durante muitos anos, com reta intenção e fins de evangelização, tomou o papel dos padrinhos, razão pela qual estes não assumem e talvez já não o conheçam exatamente. Somos herdeiros de muitos erros históricos (grifo nosso) portanto a necessidade de reflexão para que não sejam repetidos (...) É preciso tomar cuidado para que a escola não preencha com atividades secundárias os momentos fortes da vida da criança. A educação indígena é de participação. Participando aprende e se educa, e isto desde a infância. Nestes momentos se colocamos a escola, afastamos a criança das atividades próprias da família e da sua vida real. O desafio - Onde colocar a escola em questão de horário? Salientou-se que na medida do possível se proporciona as crianças de participarem do trabalho com os pais. Foi discutido quanto o horário e época de aula e a possível solução conversando com os pais. Concluiu-se que a escola, como tal, automaticamente deverá ocupar um espaço da vida real da comunidade.65

A Assembléia Missionária reconhece, depois de tanta crítica por parte de instituições e de estudiosos, que a Pedagogia Salesiana, via internato, por muitos anos, destroçou uma estrutura educativa própria dos Xavante. Os "WAPTÉ" e as "ADZARUDU" tiveram uma formação completamente alheia a realidade da aldeia. A única semelhança da Pedagogia Salesiana com a Pedagogia Xavante estava apenas na separação dos jovens dos demais.

Gambarotto,66 reconhece que:

A atitude mais desastrosa foi a do missionário ter-se substituído aos padrinhos na educação dos WAPTÉ e das ADZARUDU. A educação fora do habitat deles e com pouco contato com os padrinhos era por conta dos missionários. Enquanto fizemos assim os problemas eram poucos. Agora resolvemos devolver aos padrinhos a responsabilidade. Eles perderam o treino às iniciações mais pesadas, perderam a confiança em muitos ritos e festas e principalmente por isso há um debandamento de jovens com grande conseqüência para as futuras famílias... Espero que dentre eles surja um grupo que enfrente o problema e sejam eles mesmos os autores de sua história.

Consertar os estragos não é fácil, são irreversíveis quando se trata de valores inculcados, por anos a fio, em jovens, por meio de um sistema, onde se faz uma verdadeira lavagem cerebral, o internato. Nele, noite e dia, as idéias são colocadas a cada instante em todos os lugares.

Depois de várias gerações, os jovens Xavante, já não recebem influências dos adultos (padrinhos) depositários da sabedoria Xavante. Estes que deveriam ser os padrinhos passaram pelo internato e por sua vez não passaram pelo processo formativo da Pedagogia Xavante. Os velhos, poucos sobreviventes, já não conseguem reverter a situação.

Hoje a educação indígena está desfigurada. Não é nem uma coisa, nem outra. Quando se quer devolver a educação aos responsáveis dos Xavante já não é mais possível. A corrente, o elo formativo foi quebrado para sempre, justamente no cerne de todo o processo educativo Xavante.

O discurso atual da Missão de respeito profundo à pessoa e a culturas não entra em sintonia com um passado próximo, quando a escola atual "evita ser um meio de pressão a retomar ou abandonar costumes tribais ou introduzir novos" (Diretório para a Atividade Missionária da Missão Salesiana de Mato Grosso,1986, Art. 55).

A escola salesiana, em Sangradouro, foi marcada pelo pecado, não da morte física dos Xavante, quando estes procuraram refúgio junto aos salesianos em 1956, mas de valores67 culturais inestimáveis. A semelhança, no mesmo Estado, na mesma ocasião, a escola, a educação e outros ritos dos jesuítas fizeram parte do processo geral de submissão que representou para os componentes da sociedade Iranxe, uma sensacional ruptura com todos os conjuntos de relações anteriores, a considerar: l) relações com a natureza, com o tempo, com o espaço; 2) com outras sociedades [educandário era pluriétnico] 3) com o sobrenatural.

 

RESUMO

Logo após a chegada dos Xavante a Sangradouro, em fins de 1956, os Salesianos os submeteram a uma experiência educativa de atendimento escolar na modalidade de internato. A década de setenta, marcada por profundas mudanças conjunturais, coloca em questão esse sistema educativo, exigindo, por parte dessa agência missionária, uma revisão de tais práticas. Este texto volta-se para essa questão e procura recuperar parte da história da educação escolar desses Xavante nas décadas de 70 e 80, a partir, sobretudo, de documentos escritos inéditos levantados nos arquivos dessa Congregação.

 

 

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