O teatro popular em movimento

 

Simone Ribeiro Nolasco

José Orestes Cardentey Arias


Contextualizando a educação popular

 

 

Nos Movimentos Sociais por Educação Popular, temos visto que o processo do aprendizado se dá no curso mesmo de luta destes movimentos. Em se mobilizando para discutir e elaborar formas de atuação para a resolução de problemas concretos vivenciados pelo grupo social, a própria luta, como afirma Maria Stela Moraes, torna-se o "conteúdo" de conhecimento.

O sistema educativo tradicional, com base na transmissão de conteúdos científicos, vem sendo superado por uma prática dialógica que valoriza a experiência e a realidade (contexto) dos indivíduos, compreendendo a educação enquanto instrumento efetivo de transformação social. Isso reafirma a tendência "intervencionista" da educação comunitária nos países latino-americanos, contrapondo-se à prática de integração populista e assistencialista que até então vigoravam nesses países (Marcelino).

A Educação Popular nos anos 80 assumiu o princípio de uma ação pedagógica conscientizadora atuante sobre o nível cultural das camadas populares. Esta "Educação para a liberdade" teve, na década de 60, reflexões fundamentadas por Paulo Freire e sua Pedagogia Libertadora, relacionando conceitos de educação e cultura popular, e ainda Gustavo Gutiérrez na elaboração dos princípios da Teologia da Libertação, que tem como base o combate à marginalidade cultural e social pela consciência política através da educação. Percebe-se que a compreensão da complexidade social não é suficiente para transformá-la, e que a conscientização se efetiva no dinamismo entre teoria e ação, a práxis foi a partir daí reconhecida como dialeticamente vinculada ao processo de compreensão social.

Fundamental que analisemos, ainda que não profundamente, pois este não é o objetivo central desta reflexão, alguns pontos que ainda hoje fortalecem a dicotomia entre a prática e a reflexão no seio das camadas populares.

Apontamos inicialmente a ideologia neoliberal, impregnada da mentalidade positivista e mecanicista que enfatiza o conhecimento a partir do objeto, e não do sujeito enquanto articulador de sua própria história. A aplicação dessa política neoliberal tem reforçado o processo de exclusão que fragmenta vertiginosamente os mecanismos de participação da população.

Outro ponto a considerar, é a conserva cultural que impregna o imaginário e valores da sociedade. A ideologia dominante transplantada nesta era de facilidades tecnológicas, apregoa a "inutilidade" de se pensar a realidade, deixando isso a cargo de manuais e/ou especialistas altamente qualificados, o que demonstra uma postura altamente elitista de dominação. Como se fosse possível habitarmos um mundo, sem vivenciá-lo, despojados que somos do direito básico de vivê-lo dignamente. A população se vê cada vez mais destituída dos meios de expressão, representação e participação efetivas. As identidades são pouco à pouco silenciadas.

No processo de busca de conscientização e retomada de mecanismos que revertam o atual panorama, torna-se imprescindível levantar o diagnóstico participativo sugerido por Gustavo Gutiérrez, envolvendo os beneficiários (membros comunitários) para promover a percepção crítica dos condicionamentos a que estão submetidos diante da automatização do processo produtivo, coisificação das relações de produção e padronização do pensamento promovidos pelos meios de comunicação de massa. Esta influência na consciência dos envolvidos não se dá exclusivamente na motivação de ações, mas também oportunizando o amadurecimento do grupo, rumo à sua autogestão e organização, frutos da reflexão dialógica e articulação com agentes e organismos externos de apoio.

"Educação na práxis é, portanto, uma ação transformadora consciente que supõe dois momentos inseparáveis, o da ação e o da reflexão. O primeiro como ponto de arranque, na medida em que a ação parte de uma certa forma de consciência e conduz para uma nova forma de consciência, mais esclarecida, mais plena."

Para Maria Stela Graciano, "conscientizar" é contribuir para a criação nas mentes sociais de uma

"representação de si mesmos e do mundo do qual fazem parte, para desvelar assim o sentido de sua presença no mundo e entre os homens, para ter clareza de sua circunstância e dos nexos que existem entre eles e a totalidade social."

Poucos grupos ainda crêem na força da mobilização enquanto forma específica da prática libertadora. Quando identificam-se enquanto sujeitos sociais, o fazem por vislumbrar mudanças concretas, ainda que mínimas no interior de suas lutas. Os movimentos alteram a natureza mesma das relações sociais e promovem a aprendizagem individual e coletiva na politização das massas.

Maria da Glória Gohn, ao analisar a trajetória dos movimentos por educação popular, reafirma que práxis e reflexão estão desvinculadas na tecitura social:

"[...] não se formularam projetos realmente populares a partir da manifestação das bases. [...] Os estudos sobre Movimentos Sociais populares urbanos, são uma continuidade da produção sobre a educação popular, com uma diferença básica: não se trata mais de analisar programas, mas sim de manifestações concretas produzidas por grupos populares."

Na tentativa de superar tal dicotomia, nos instrumentalizamos com uma das técnicas da educação comunitária, o teatro popular, mais especificamente o teatro popular comunitário e a dramatização de problemas locais.

O Teatro Comunitário enquanto instrumento da educação popular

A categoria preconizada neste estudo se refere à dimensão comunitária do Teatro Popular. Surge daí a necessidade de balizar com mais clareza a definição de um "Teatro Popular". Consideramos inicialmente o conceito de povo enquanto expressão dos setores sociais que, pela situação de opressão e seu papel na sociedade, são portadores de potencialidades de transformação social ante o inconformismo com o status quo.

Augusto Boal distingue primorosamente categorias de teatro populares. Ao sistematizá-las, conclui que a primeira categoria "do povo e para o povo" é a mais eminentemente popular.

"O teatro para ser popular deve ter sempre a perspectiva do povo na análise dos fenômenos sociais. [...] O espetáculo é apresentado segundo a perspectiva transformadora do povo, que também é seu destinatário. São os espetáculos feitos em geral para grandes concentrações de trabalhadores, nos sindicatos, nas ruas, nas praças, associações de amigos de bairros, etc."

A Educação Popular tem enquanto forma de expressão a Educação Comunitária, que se desenvolve por intermédio de vários meios e técnicas. O Teatro Comunitário é um dos meios mais viáveis de comunicação, como nos diz Hansel Eyoh:

"O teatro, pela sua própria natureza e especialmente devido ao seu comunalismo e à capacidade de dar forma de ficção que lhe é inerente, proporciona um fórum pelo qual a comunicação interpessoal possa se realizar sem os antagonismos latentes que normalmente estariam presentes numa situação não-ficcional. Ele dá assim a possibilidade de questionar dialeticamente a realidade em mudança por meio da exploração de idiomas artísticos. A ação cultural nessa forma proporciona os meios para a mudança por meio da identificação dos mecanismos opressivos e da possibilidade de suplantá-los."

O Teatro Comunitário e a técnica de dramatização de problemas locais penetram no universo cultural dos grupos populares, intensificando a troca de informações e discussões no interior das comunidades, oportunizando a expressão e participação de seus membros. Favorecem a promoção de mobilização tanto no plano dos membros atuantes, quanto da platéia, que é estimulada a refletir, opinar.

Através dos estudos realizados, o Teatro Comunitário, como o entendo, é aquele da comunidade, pela comunidade e para a comunidade, quer dizer, sua origem, evolução e destino estão indissoluvelmente vinculados à vida e luta comunitária, pelos seus interesses e aspirações. É a expressão dramática da população. Seus grupos atuantes, formados por moradores locais, não se inserem na categoria do teatro itinerante, em que grupos de atores de diversas origens se reúnem e vão trabalhar em relação direta com os espectadores de favelas, escolas, praças, comunidaes e vilas, partindo, mesmo que assim, da identificação de seus problemas.

Magaldi afirma que os grupos teatrais mais renomados na Europa ocidental, têm caráter popular, como são o Teatro Popolare Italiano(dirigido por Vittorio Gassman), Théâtre National Populaire (fundado por Jean Vilar na França), o Piccolo Teatro de Milão, o Teatro Nacional da Bélgica e vários outros grupos da Alemanha, Inglaterra e Itália.

O Teatro Comunitário é ainda categoria pouco sistematizada. Temos notícias de estudos recentes realizados por universidades africanas que têm contribuído para o avanço de sua metodologia. O teatro para conscientização de comunidades marginalizadas é aí bastante discutido e sistematizado enquanto "Teatro para o Desenvolvimento Integrado" (Theatre for Integrated Development). Trata-se de iniciar projetos cênicos no interior das comunidades, engajando pesquisadores e moradores locais na técnica da criação coletiva, diálogo com a platéia, e onde os problemas sociais inspiram o roteiro. O objetivo maior deste tipo de teatro no continente africano é o desenvolvimento de um método de organização e educação comunitárias. Dá-se

"no interior de comunidades marginalizadas que têm dificuldade em fazer valer suas experiências e expressar seus desejos. [...] O evento teatral ajuda as comunidades a vencer os seus receios e cria confiança e um sentimento de identidade". (Eyoh)

Nossa proposta

Diante de tais aspectos, realizamos uma ação cultural, com bases no princípio da pesquisa-ação. É fundamental, enquanto educadores comprometidos com as causas sociais, termos em mente métodos educacionais alternativos que viabilizem aproximação efetiva com a população. E que formulem projetos que partam de seus interesses e anseios, adequados à sua linguagem e identidade próprias e que a envolvam num processo significativo e participativo na busca de solução para seus problemas.

Neste tipo de Ação Cultural Comunitária, é propiciado o desenvolvimento da consciência crítica que permite a libertação das amarras do senso comum, preconceito e estereótipos culturais, fruto da reflexão intersubjetiva. Observamos, pois, uma elevação nos níveis de consciência política e moral dos participantes, condutas mais socializadas, eticamente mais humanas, fomentando-se os gérmens de um espaço de convivência mais tolerante e democrático.

Utilizamo-nos das técnicas da criação coletiva dos roteiros; planejamento participativo nas atividades e seu acompanhamento; dramatização dos problemas sociais e locais; seminários com os participantes para aprofundamento e melhor compreensão do tema a ser abordado; jogos e brincadeiras dramatizadas que estimularam a auto-expressão e o fluxo da criatividade; diálogo no grupo teatral, e entre este e o público, na busca de envolvimento, relações mais abertas e soluções alternativas para os problemas propostos em cena.

O objetivo central da pesquisa-ação cultural realizada foi analisar o impacto educativo desta prática (Teatro Comunitário) no grupo teatral existente no bairro de periferia, e os efeitos educativos nos próprios agentes de investigação.

Acreditamos que a maior motivação deste estudo é a busca de envolvimento daquela parcela da população que mesmo não associada a nenhum Movimento Social associa-se a outras dimensões da vida social da comunidade. É preciso que se dialogue também com estes e se rompa com a cultura alienante e sisuda que se constitui a atual relação entre Governos e população, intelectuais e população. Recorremos aí ao Teatro Comunitário enquanto meio de se estabelecer vínculo entre intelectuais e massa, desmistificando relações de opressão na busca de um entendimento maior das estruturas vigentes, e fundamentalmente uma linguagem culturalmente significativa, popular.

Nossa interferência enquanto pesquisadores sociais não está na preocupação com a natureza didática do trabalho com os grupos, mas sim na humanização dos problemas enfrentados por eles, na orientação de atitudes reflexivas e de participação, na ampliação de informações, conhecimentos, estabelecendo um espaço

"onde os próprios setores populares desenvolvam (expressem, critiquem, enriqueçam, reformulem e valorizem) coletivamente seu conhecimento, suas formas de aprender e explicar os acontecimentos da vida social." (Beatriz Costa)

Observamos alguns grupos que se organizaram através da prática do teatro popular e que atuam na capital mato-grossense há algum tempo. Em sua grande maioria, esses grupos se originaram do reconhecimento da necessidade de expressão e educação da própria população. Acabaram por se associar a diversas Instituições e organizações como Igreja, Prefeitura, Associação de Moradores, Escolas, Universidade Federal, Secretaria de Cultura e Serviço do Comércio (SESC) e, ainda, uma instância militar, como é o caso do Projeto Se Menino, onde a prática teatral é voltada para expressão, socialização e reabilitação de meninos de rua.

Para o presente trabalho de pesquisa, resolvemos nos inserir num desses grupos cênicos populares - Grupo Voart da comunidade de Santo Antônio do Pedregal - que já há algum tempo vinha solicitando algum tipo de suporte para sua formação teórica e estética. Intentamos, pois, esta pesquisa para sistematizar uma avaliação do alcance educativo, político e social desse instrumento tão pouco explorado da educação popular. Vislumbramos a perspectiva de que através deste tipo de intervenção social, é possível iniciar um processo de ruptura com os padrões atuais de alienação e imobilidade dos grupos.

O experimento consistiu em levar à população do bairro peças que simulassem situações-problemas vivenciadas por ela que motivassem discussões para desmascaramento das situações de opressão e propostas coletivas de resolução. Os principais problemas foram apontados pelos próprios moradores em questionário anteriormente realizado. As peças foram escritas pelos membros do Grupo Voart em parceria com a pesquisadora.

O local de apresentação típico deste tipo de teatro é a arena, a rua, as associações ou onde o povo esteja. Não houve a preocupação com montagens dispendiosas pois a atividade cênica popular dispensava tais requintes.

Na ocasião desta Pesquisa, o Grupo Voart, orientado pela pesquisadora, levou à comunidade periodicamente peças questionadoras que instigaram e provocaram reações que visaram monitorar o desenvolvimento de uma postura crítica fundamentada no ato dialógico. Foram momentos de troca, de confronto, em que a obra popular, a vida popular em suas contradições e conflitos de valores foram expostas ante os olhos atentos da comunidade. Respostas estereotipadas foram dando lugar a reflexões mais bem elaboradas diante da socialização de informações e relações de poder mais igualitárias.

Joana Lopes comenta em sua obra:

"No momento em que a obra poética do conjunto de artistas, envolvidos na representação teatral, atinge a relação com outro grupo, converte-se num encontro social que Duvignaud na(...)afirma ser o momento de um primeiro encontro entre velhos ou novos amigos, onde cabe assobiar, bater palmas, acolher ou rejeitar. O espaço do palco, ou qualquer outro, não é mais espaço sem vida, ou um espaço onde comediantes se empenham na demonstração de um fato, pois acontece a perturbação coletiva".

Constatei, não já em nível teórico abstrato, senão na própria práxis vivencial, a extraordinária capacidade da arte – neste caso, o teatro comunitário – de transmitir mensagens simbólicas, de influenciar a vida emocional das pessoas e, ao mesmo tempo, despertar sua consciência política. Para melhor avaliação deste trabalho, sugerimos a leitura da dissertação "Teatro, cultura e educação – uma experiência de teatro comunitário", desenvolvida por Simone Ribeiro Nolasco. 

RESUMO

Associando prática e teoria, a proposta refere-se à investigação do Teatro Comunitário, enquanto instrumento da Educação Popular e linguagem presente na esfera cultural da comunidade investigada. Busca compreendê-lo enquanto agente motivador de uma nova consciência e cultura política coletiva, rumo a novas formas de participação, diálogo e engajamento nos movimentos populares.

ABSTRACT

Connecting practice and theory, this proposal is related to an investigation about Community Theatre as an instrument of popular education and language present in the cultural field of the investigated area. The aim is to understand it as an agent that arises a new consciousness and a collective political culture, looking for new ways of participation, dialogue and involvement in popular movements.

 

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