As plantas na percepção dos alunos de 5ª e 7ª séries do 1º grau em uma escola pública de Mato Grosso

 

Maria Antonia Carniello

Germano Guarim Neto


 

Introdução

 

 

Este estudo foi desenvolvido tomando-se como base dois objetivos; o primeiro busca identificar a percepção dos alunos de 5ª e 7ª série em relação às plantas; e o segundo objetiva verificar qual a influência do ensino formal na percepção dos estudantes em relação as plantas.

Em trabalho similar foi concluído que os brasileiros apreendem e reconhecem mais as árvores que se constituem em símbolos, ou que com seu potencial dão retorno ao homem, como frutífero, ornamental, ou madeireiro, etc. (Yoshida et al., 1994).

Para Oliveira (1996), "...Percepção(...), não é mera sensação dada pelos órgãos sensoriais. Vemos, ouvimos, sentimos, enfim, tudo aquilo que estimula nossos sentidos. Mas, percebemos somente o que a nossa mente atribui significado. A percepção é altamente seletiva, exploratória, antecipadora. Daí considerarmos uma atividade perceptiva que explora, seleciona, compara, antecipa tudo o que percebemos.(...) No continuum entre percepção e a inteligência é a que está intercalada na atividade perceptiva, que nos enseja trabalhar com o objeto entre o plano perceptivo e o representativo."

No que se refere a educação formal e educação informal, buscou-se a classificação de Dib (1988) e Coombs (1989), in Gaspar (1992). Segundo estes autores, "... A educação formal refere-se a uma estrutura organizada, hierarquizada e administrada sob normas rígidas, ligadas a um sistema educacional estabelecido, à escola."

Ainda para estes autores, " ... A educação informal distingui-se das demais por não se constituir num sistema organizado ou estruturado sendo freqüentemente acidental ou não intencional. Ocorre na experiência do dia-a-dia, através de jornais, revistas, programas de rádio e televisão, na visita a um museu, zoológico, centro de ciências, etc."

E finalmente, sobre a relação do homem com o meio ambiente, Coimbra (1989) afirma que, por um lado, numa visão retrospectiva se estabeleceu uma "... herança antropocêntrista, decorrente até das tradições judaico-cristãs, que enraizou o homem como centro do universo constrangendo todas as coisas que giram à sua volta para atenderem a objetivos muitas vezes eivados de egoísmos individuais e sociais", e, por outro, aborda a necessidade de se adotarem hábitos "... Numa visão prospectiva(...) é imperioso que se estabeleça novo tipo de relacionamento do ser humano como os demais seres do universo, particularmente do planeta Terra. Tal relacionamento deverá processar-se através das três esferas da realidade humana: o intelecto, os sentimentos, a vontade. (...) Esse novo tipo de relacionamento do homem com o mundo natural deve basear-se no fato científico que considera o Meio Ambiente como uma realidade humana e o próprio Homem como uma realidade ambiental."

Segundo Guarim Neto (1996), "... a Botânica, como uma das mais antigas e estruturadas áreas das Ciências Biológicas serve como parâmetro norteador para diferentes temas e assuntos com os quais os professores, especialmente do ensino de 1º grau podem utilizar a abordagem interdisciplinar, na condução de atividades inerentes ao processo de ensinar-aprender-vivenciar. Neste contexto, a abordagem sobre vegetais assume um caráter de importância, a partir do instante em que se toma consciência e passa a considerar o vegetal como parte integrante da natureza, e o homem como um elemento fundamental nas mudanças ambientais, quer sejam positivas ou negativas." Isto evidencia a importância das plantas no contexto de estudos, reflexões e ações sobre a relação homem/meio.

Procedimentos Metodológicos:

Para a realização deste trabalho foi escolhida como local para o levantamento de dados a Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus "Padre José de Anchieta", situada na periferia da cidade de Mirassol D’Oeste, MT, distante da capital do estado 320 Km (trezentos e vinte quilômetros).

A definição da escola ocorreu mediante contato feito com a Gerência de Educação e Cultura do referido município com o objetivo de identificar a Escola Estadual de periferia com: a) primeiro grau, 5ª a 8ª série; b) maior número de matrículas; c) o período com o maior número de alunos atendidos. Os dados foram obtidos através de um questionário elaborado com três questões estruturadas semi-abertas, aplicados nas 5ª e 7ª séries, com quinze minutos para as respostas dos alunos referentes a: 1 - Alguém diz a palavra plantas. "Escreva o que você se lembra". 2 – "Escreva o nome de 10 ( dez ) plantas que são mais familiares (conhecidas) à você". 3 – "Quais as plantas mais importantes na sua vida? Por quê?". Oitenta alunos responderam às questões, sendo cinqüenta e nove da 5ª série e vinte e um da 7ª série. Analisaram-se as respostas de cada pergunta, por série, seguida da comparação entre as duas séries. Finalmente foi feita a análise dos resultados obtidos em todas as perguntas frente aos conceitos de percepção, educação formal e informal, e da relação dos alunos com as plantas.

Resultados e Discussões:

A análise das respostas dadas às três questões respondidas pelo grupo investigado foi realizada à luz dos conceitos de percepção, educação formal, educação informal e concepção antropocêntrica, no cotidiano das relações de adolescentes com as plantas. Neste momento não se pretendeu esgotar uma discussão sobre os conceitos enunciados, mas trazê-los à tona como norteadores para a análise dos resultados.

Reflexão sobre as afirmações dos alunos de 5ª e 7ª séries a partir do enunciado da palavra "plantas"

Tomando como base apenas a palavra plantas , tanto alunos de quinta quanto alunos de sétima série demonstraram, através de suas afirmações registradas na primeira pessoa do singular e do plural, uma concepção antropocêntrica sobre estes seres vivos, dado, este, dominante sobre todos os outros aspectos referidos pelos alunos. Em menor proporção, mas com ocorrência bastante acentuada, foram identificadas expressões que demonstram uma sensação de afetividade na relação com as plantas.

De todo o universo de afirmações, praticamente um quarto destas atribuem à planta o sinônimo de "Árvore", "Natureza" e "Mato/Matas", refletindo uma visão muito generalizada sobre este grupo, demonstrando principalmente uma compreensão apenas do que é visível em uma escala de tamanho grande, passando despercebidas aquelas cujo tamanho nem sempre é de fácil visualização. Isto caracteriza um conhecimento ainda limitado, próprio de quem ainda não estudou a área de botânica em sua especificidade. É compreensível a identificação deste resultado na quinta série, porém, ocorrido na sétima, é um primeiro reflexo da fragmentação conhecimento científico X realidade, que assola as propostas curriculares e os recursos didáticos pedagógicos.

Corroborando com a problemática anteriormente exposta, constataram-se afirmações na quais apareceram conhecimentos veiculados pelo ensino formal atingindo um percentual muito baixo, sendo mais significativo na quinta do que na sétima série. Na mesma proporção foram identificadas expressões cujos conceitos apareceram de forma incompleta e/ou equivocados.

Nas duas séries pesquisadas, a maioria das afirmações referentes às plantas refletiu um conhecimento apropriado informalmente, enfocando a utilização, reforçando também a concepção antropocêntrica. De acordo com o grau de relevância identificado nas afirmações, constatou-se um domínio do aspecto ornamental, em seguida, o alimentar, o medicinal e, finalmente, a construção civil. Este último não apareceu nas afirmações da sétima série, e o uso medicinal foi pouco mencionado.

Ainda na sétima série mereceu destaque o papel da família no aprendizado sobre plantas com afirmações, entre outras, da seguinte maneira: "Meu pai sempre fala que a gente não pode acabar com as plantas que ver na frente, devemos sempre cuidar dela porque ela nos ajuda a curar doenças incuráveis". Está subentendida nesta expressão uma concepção conservacionista, limitando-se ao objetivo de usufruir dos benefícios que a planta pode reverter .

Análise sobre as plantas mais familiares apontadas pelo mesmo grupo de alunos

De uma variedade de sessenta e três plantas mencionadas pelos alunos de quinta série, as de uso alimentar (frutíferas e de cultivo agrícola) foram as apontadas com maior variedade, totalizando vinte e sete espécies diferentes. Logo em seguida as de uso ornamental foram indicadas com um índice um pouco abaixo, com vinte espécies. As utilizadas pelo seu potencial medicinal totalizaram dez espécies e, finalmente, seis espécies classificadas como de exploração madeireira. Dentro do último universo mencionado, foram apontadas como familiares o jatobá (Hymenaea) e o jequitibá (Cariniana).

Os resultados obtidos com as respostas da sétima série seguem praticamente a mesma ordem de preferência. As de valor alimentar, englobando frutíferas e hortaliças somaram vinte e nove espécies, seguidas de dezenove espécies classificadas como medicinais. As ornamentais foram indicadas com catorze espécies. Também nesta série as classificadas como de potencial madeireiro tiveram a indicação de seis espécies. Dentre todas, somente uma nativa foi mencionada, o Cambará (Vochysia).

Estes dados refletem também a percepção antropocêntrica em relação às plantas, assim como a influência da educação informal na aprendizagem dos alunos pesquisados. Ficou evidente, ainda, que somente os vegetais superiores são lembrados como plantas, sendo que os inferiores foram desconsiderados totalmente inclusive pelos alunos de sétima série que já cursaram botânica na disciplina de Ciências/6ª série. Outro aspecto relevante a ser considerado é o quase absoluto desconhecimento das plantas nativas comuns da região.

Estes resultados demonstram que a percepção dos alunos de quinta série em relação às plantas, praticamente não difere dos da sétima; logo, a aprendizagem informal sobre as plantas aparece em maior destaque do que a aprendizagem dos conceitos propostos pelo currículo da educação formal.

As plantas mais importantes na vida do grupo investigado

Nas respostas à pergunta sobre quais as plantas mais importantes na vida de cada um, na quinta série, a maior variedade de espécies quanto à utilidade classifica-se como medicinal. As ornamentais aparecem como a segunda maior variedade, logo em seguida foram apontadas as plantas com potencial alimentar, porém, as com potencial madeireiro foram indicadas com apenas três variedades exóticas, e não apareceu nenhuma resposta sobre plantas nativas da região. Foram registradas duas preocupações significativas: uma sobre a extinção de espécies, e outra sobre a importância das plantas para a garantia e o equilíbrio da vida na terra.

Nas respostas da sétima série, as plantas medicinais também foram de maior preferência, seguidas das alimentares. As ornamentais foram indicadas logo em seguida, e finalmente algumas afirmações cujo enfoque refere-se à interação entre plantas e outros seres vivos.

Tabela I

Ordem de relevância das plantas indicadas em cada pergunta

- 5ª série -

Ordem de relevância de acordo com a percepção dos alunos

1ª pergunta - Ordem de Escolha

2ª Pergunta - Ordem de Escolha

3ª Pergunta - Ordem de Escolha

- Ornamental

- Alimentar

- Medicinal

- Alimentar

- Ornamental

- Ornamental

- Medicinal

- Medicinal

- Alimentar

- Atividade Agrícola

- Madeireiro

- Madeireiro

- Construção Civil

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-Abrigo

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Fonte: Pesquisa de Campo.

Tabela II

Ordem de relevância das plantas indicadas em cada pergunta

- 7ª série -

Ordem de relevância de acordo com a percepção dos alunos

1ª pergunta – Ordem de Escolha

2ª Pergunta - Ordem de Escolha

3ª Pergunta - Ordem de Escolha

- Ornamental

- Alimentar

- Medicinal

- Alimentar

- Medicinal

- Alimentar

- Medicinal

- Ornamental

- Ornamental

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- Madeireiro

- Interação entre plantas e seres vivos

Fonte: Pesquisa de Campo

Breve Diálogo Entre os Conceitos Enunciados e os Dados Coletados

Não se pretende, aqui, transformar os conceitos enunciados anteriormente em parâmetros limitadores na análise dos dados coletados, o que se objetiva é estabelecer uma interlocução entre ambos.

Identificou-se que afirmações como: "nosso meio de vida", "não podemos destruí-las", "são importantes para nós", "a planta é igual a uma pessoa humana, precisa ser cuidada", "meu pai fala que a gente não pode acabar com as plantas que ver na frente, devemos sempre cuidar delas porque ela nos ajuda a curar doenças incuráveis", assim como todas as afirmações sobre o conhecimento das utilidades ornamental, medicinal, atividade agrícola, construção civil e abrigo (Tabelas I e II) colocam o homem como ser mais importante em relação à planta, o que, para Coimbra( 1989), é característico de uma concepção antropocêntrica em relação às plantas.

Para Gonçalves (1990), o agente fundamental da educação ambiental formal é a escola, e os meios de comunicação exercem importante papel na educação ambiental informal. Analisando as afirmações dos entrevistados acima citadas, tomando como referencial esta conceituação, e também a de Dib (1988) e Coombs (1989), os dados revelam ainda que a aprendizagem através da educação informal sobrepõe a aprendizagem inerente à educação formal; papel primordial da escola.

De todo o universo de afirmações, praticamente um quarto destas atribuem à planta o sinônimo de "Árvore", "Natureza" e "Mato/Matas", refletindo uma visão muito generalizadora sobre os vegetais, conhecimento, este, ainda limitado quanto à especificidade desta área de estudo. Este conhecimento limitado era esperado nas respostas da 5ª série, porém o mesmo panorama evidenciado na 7ª série reflete a fragmentação existente entre o conhecimento científico e a realidade, embora tratados nas propostas curriculares e nos recursos didático-pedagógicos.

Corroborando com a problemática anteriormente exposta, constataram-se afirmações nas quais apareceram conhecimentos veiculados pela educação formal, atingindo um percentual muito baixo, sendo mais significativo na 5ª do que na 7ª série. Na mesma proporção foram identificadas expressões cujos conceitos apareceram de forma incompleta e/ou equivocados.

A realidade ora analisada poderá constituir-se em um instrumento norteador de discussões, proposições e decisões sobre um trabalho que objetive resgatar a função da educação formal na área da botânica, promovendo através dos conhecimentos específicos a formulação/apropriação de conceitos cientificamente comprovados e consequentemente desencadear o processo de atribuição de significados (Oliveira, 1996) ao meio ambiente que o cerca, os quais sejam universalmente aceitos, e sujeitos ao processo dinâmico da ciência.

Com este trabalho identificou-se, portanto, que a maneira pela qual os alunos de 5ª série percebem as plantas praticamente não difere dos alunos de 7ª série. Embora tenha sido um trabalho de curta duração, revelou resultados de fundamental importância para a compreensão de como alunos de 5ª e 7ª série percebem o ambiente ao seu redor, bem como o alcance da educação formal e informal neste processo, tendo como referencial as plantas.

RESUMO

A pesquisa foi realizada com o objetivo de verificar a percepção dos alunos de 5ª e 7ª séries em relação às plantas, bem como a influência da educação formal e informal no processo de aprendizagem. Foi desenvolvido na Escola Estadual de 1º e 2º Graus "Padre José de Anchieta", no município de Mirassol D’Oeste, Mato Grosso, Brasil. O levantamento de dados foi feito através de um questionário com três questões estruturadas semi-abertas. Os resultados demonstraram que é dominante a concepção antropocêntrica dos alunos em relação às plantas, e que os conhecimentos apropriados através da educação informal sobrepõem-se aos veiculados pela proposta curricular da educação formal. Constatou-se ainda que as plantas nativas da região passam despercebidas tanto pelos alunos da quinta quanto pelos da sétima série do 1º grau. Ficou evidente que plantas com potencial ornamental, alimentar e medicinal são percebidas como de maior relevância, seguidas daquelas com aproveitamento agrícola e madeireiro. Não se pretendeu com este estudo elaborar nenhuma proposta de trabalho botânico junto à escola, porém, os resultados obtidos oferecem alguns indicativos para atividades cuja preocupação seja a relação homem/ambiente.

 

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